Sodoma, homossexualidade, ataques de drones e oração. Artigo de Thomas Reese

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05 Agosto 2013

Francisco parece estar me encorajando a ser mais valente e a arriscar cometer erros.

A reflexão é do jesuíta norte-americano Thomas J. Reese, ex-editor-chefe da revista America, dos jesuítas dos EUA, de 1998 a 2005, e autor de O Vaticano por dentro (Ed. Edusc, 1998). O artigo foi publicado no sítio National Catholic Reporter, 29-07-2013. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Eis o texto.

No último domingo, eu preguei em San Francisco sobre a oração. Eu acho que essa foi uma boa decisão pastoral. As pessoas disseram ter gostado da homilia, mas eu fico me perguntando se talvez não foi apenas uma desculpa para evitar assuntos mais controversos.

Para entender o meu dilema, é preciso lembrar que a primeira leitura era do Gênesis 18, em que Abraão discute com Deus sobre a destruição de Sodoma. Por cerca de um nanossegundo, a leitura me levou a pensar a pregar sobre a homossexualidade. Eu não pensei que eu tinha algo de novo ou de interessante para dizer. Além disso, provavelmente não há uma única pessoa em San Francisco que não tenha tomado parte sobre esse assunto. Ah, sim, será que eu mencionei que o pároco que disse algo bom sobre os homossexuais no mês passado foi duramente criticado na blogosfera e denunciado ao arcebispo?

Depois, há o debate acadêmico sobre se o pecado de Sodoma foi sexual ou se foi um pecado contra a hospitalidade a estranhos. Abraão e Sara recentemente tinham mostrado hospitalidade para três estranhos e foram recompensados com uma gravidez. Os mesmos três homens vão a Sodoma, onde são recebidos por e pela sua família, mas os moradores querem ter relações sexuais com eles. Quando Ló tenta proteger os seus convidados, a multidão volta-se contra dele, porque ele não é um cidadão de verdade, mas sim um "estrangeiro residente". Os hóspedes do Ló acabam salvando-o, puxando-o para dentro de casa e fechando a porta.

é tão protetor de seus três hóspedes homens que ele oferece à multidão suas duas filhas virgens, ao invés. Você não precisa ser feminista para pensar que oferecer suas filhas para uma multidão para serem estupradas é uma ideia horrível. Mais tarde, essas mesmas filhas embebedam o seu pai e têm relações sexuais com ele para "assegurar a posteridade ao nosso pai". Talvez eu devesse ter pregado sobre o efeito corruptor da cultura patriarcal.

Em todo caso, sobre o tema da homossexualidade, eu não poderia dizer nada melhor do que o Papa Francisco disse no avião a caminho de volta para Roma do Rio de Janeiro. Quando perguntado sobre o "lobby gay" no Vaticano, ele respondeu:

"Acredito que quando nos encontramos com uma pessoa gay, deve-se distinguir o fato de ser uma pessoa gay do fato de fazer parte de um lobby, porque nem todos os lobbies são bons. Se uma pessoa é gay e busca o Senhor e tem boa vontade, mas quem sou eu para julgá-la? (…) Não se deve marginalizar essas pessoas por isso. (…) O problema não é ter essa tendência [da homossexualidade]... Devemos ser irmãos".

Como os padres gays têm sido falsamente acusados pela crise dos abusos sexuais, a declaração do papa é muito significativa. Em 2005, o Vaticano emitiu um documento dizendo que os homens com tendências homossexuais profundamente enraizadas não deveriam ser ordenados ou admitidos no seminário. A maioria interpretou que isso significava que alguém com uma orientação homossexual não poderia ser padre, mesmo que fosse celibatário.

O Papa Francisco deixou claro que ser gay não é um impedimento para a ordenação. Para ele, a questão não é a orientação, mas sim se uma pessoa é um bom padre. Mesmo que um padre falhe no celibato, e depois "se converte, o Senhor perdoa e, quando o Senhor perdoa, se esquece. E nós não temos o direito de não nos esquecermos". O papa deixou claro que não há espaço para a homofobia, seja na Igreja ou na sociedade. Mas e se eu tivesse dito o que ele disse 24 horas antes que ele dissesse, eu teria sido denunciado ao arcebispo.

Na realidade, quando eu li Gênesis 18, os meus pensamentos se voltaram do sexo para a guerra contra o terrorismo. Até recentemente, o governo Obama tem usado dezenas de drones para perseguir terroristas no Afeganistão, no Paquistão e em outras partes do mundo. Ela ainda está lançando ataques aéreos de drones, mas em menor número.

O diálogo entre Abraão e Deus soou como uma conversa que deveria ocorrer na sala de guerra quando se planeja um ataque de drones. Quantas mortes de civis são aceitáveis quando se persegue terroristas?

Um dos princípios da teoria da guerra justa é que os civis devem ser imunes ao ataque direto, razão pela qual a maioria dos moralistas julgou o uso de armas atômicas e de bombardeios de saturação durante a Segunda Guerra Mundial como imorais. Mas a teoria da guerra justa também reconheceu que civis inevitavelmente morrem em guerras. Os militares falam de danos colaterais, o que é uma forma antisséptica de descrever as mortes de civis. O Pentágono já não contabiliza as mortes de civis por causa da reação negativa ao elevado número de mortes de civis no Vietnã.

Em Gênesis 18, Abraão soa como um eticista argumentando contra as mortes de civis.

"Tu destruirás o justo com o injusto? Talvez haja cinquenta justos na cidade! Destruirás e não perdoarás a cidade pelos cinquenta justos que estão no meio dela?" Cada vez que Abraão vence a discussão com Deus, ele pressiona por um valor menor, até que ele consegue fazer com que Deus concorde que ele não destruiria a cidade se houvesse dez pessoas inocentes.

A lição aqui é a de que Deus quer que poupemos uma cidade cheia de terroristas pelo bem de dez inocentes? Se você tomar essa posição, esqueça os drones. Tem alguém na sala de guerra dando ouvidos a Abraão? O sigilo nos impede de saber. As informações sobre os ataques com drones devem ser tornadas públicas, juntamente com os números de vítimas civis, para que nós, como uma nação, possamos nos unir a Abraão e a Deus nessa discussão.

Quando eu pensei sobre o quão pouco impacto a minha congregação de fiéis poderia ter sobre a política de drones dos EUA, eu desisti. Assim, eu abandonei os homossexuais e os drones como temas para o meu sermão e falei sobre a oração. Fui covarde ou pastoral? Eu não sei, mas Francisco parece estar me encorajando a ser mais valente e a arriscar cometer erros.

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