Reformas do papa Francisco sacodem o "establishment" da Igreja

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06 Julho 2013

Parece que o papa Francisco realmente quer mudar a Igreja Católica. Primeiro ele está reformando Banco do Vaticano, mas ele também está tentando evitar qualquer contato com a velha guarda sempre que possível. O "establishment" da igreja está em pé de guerra.

A reportagem é de Hans-Jürgen Schlamp, publicada pela revista Der Spiegel e reproduzida pelo portal Uol, 06-07-2013.

Em Roma, um cardeal ganha cerca de € 3 mil (US$ 3.888) por mês, menos até do que um pastor na Alemanha. Mas a vida de um cardeal em Roma é muito mais cara – com visitas a restaurantes e compras em boutiques que fornecem as roupas de luxo que se espera ver os homens da igreja usando. E não nos esqueçamos das joias dos cardeais e das antiguidades que eles exibem em seus apartamentos. Por isso, é bom ter amigos para pagar umas coisinhas ou dar uma força de vez em quando.

Os amigos também ficam felizes em dar uma mão aos cardeais – e não apenas por reverência religiosa. Um cardeal pode ser útil tanto politica quanto empresarialmente. Portanto, não é surpresa que uma relação simbiótica entre membros da Cúria e a classe alta de todo o mundo tenha se estabelecido – uma relação que reúne o "establishment" da igreja, o poder e o luxo. Mas essa é uma pequena e agradável tradição na qual o novo papa Francisco gostaria de colocar um ponto final. Para o "establishment" católico, porém, esse desejo é nada menos do que uma catástrofe.
Uma Igreja "doente" de "narcisismo teológico"

Mesmo antes de sua nomeação como papa, quando ele ainda era cardeal, Jorge Mario Bergoglio já falava claramente sobre essa questão. Durante seu discurso no conclave de cardeais, ele advertiu que, "quando a igreja não sai de si mesma para evangelizar, ela se torna autorreferencial e, portanto, fica doente". Ele alertou contra a "autorreferencialidade" e o "narcisismo teológico". Ele também criticou a "igreja mundana, que vive para dentro de si própria, por si própria e de si própria". E, aparentemente, o papa argentino falava sério ao fazer essas críticas. Na verdade, ele tem demonstrado essa seriedade todos os dias.

Em vez de usar uma cruz de ouro, ele usa uma de aço. E ele vive em um apartamento modestamente mobiliado na Casa Santa Marta (onde se hospedam os cardeais no período de conclave), em vez de viver no Palácio Apostólico. Recentemente, em vez de ocupar seu lugar na sala de concertos do Vaticano para ouvir música clássica, ele permaneceu em sua mesa trabalhando na versão final de seu decreto relacionado ao banco do Instituto de Obras Religiosas (IOR) do Vaticano. Com a sua assinatura, ele criou uma poderosa comissão papal especial para analisar as atividades do banco. Ele também disse que a nova comissão terá o dever de mudar tudo no Banco do Vaticano, como também é conhecida a instituição. O papa Francisco disse ainda que o Vaticano certamente precisa de um banco, mas que as áreas de negócio da instituição só devem chegar a até "certo ponto".

Um banco papal com contatos na máfia

Durante décadas, o IOR aparecia com frequência nas manchetes dos jornais por se envolver em um escândalo atrás do outro. No início da década de 1980, o banco esteve no epicentro de um dos "thrillers" criminais mais obscuros da história italiana no pós-guerra. O escândalo envolveu bilhões de dólares em negócios com a máfia, e um banqueiro do Vaticano foi enforcado em uma ponte de Londres por um comando assassino.

Mas a série de escândalos nunca foi interrompida. Quando, no outono de 2010, novas suspeitas de lavagem de dinheiro – envolvendo cifras que alcançavam três dígitos de milhões – surgiram, o papa Bento XVI prometeu implantar normas mais rígidas para serem seguidas por seus gerentes financeiros. Mas, na verdade, nada mudou. Durante o escândalo batizado de Vatileaks, documentos secretos que foram contrabandeados para fora do Vaticano jogaram luz sobre as intrigas bizarras existentes dentro do estado papal. Em muitas ocasiões, o Banco do Vaticano desempenhou um papel importante nessas intrigas. Bento XVI ficou horrorizado, mas também se sentiu sobrecarregado diante da tarefa de acabar com a farra. E ele não conseguiu fazer sua autoridade prevalecer sobre os cardeais poderosos que apoiavam o IOR. A renúncia de Bento XVI foi o resultado lógico desse desenrolar de fatos.

Barão alemão assume o banco

O sucessor de Bento XVI está tomando medidas mais decisivas. Primeiro, ele demitiu Nunzio Scarano, o principal contador da administração do Vaticano e responsável por supervisionar as propriedades e os investimentos do Vaticano. A demissão ocorreu após Scarano ter sido acusado de lavagem de dinheiro e corrupção e ter sido preso. Em seguida, praticamente da noite para o dia, o papa Francisco forçou a saída do diretor do IOR, Paulo Cipriani, e de seu vice. Agora, o banco será comandado por Ernst von Freyberg, um barão alemão e ex-consultor, membro da Ordem Militar Soberana de Malta e presidente do conselho supervisor do IOR desde meados de fevereiro.

Entre julho e o próximo mês de outubro, o papa Francisco quer garantir a transparência do banco e também determinar como a instituição financeira deverá lidar harmoniosamente com seus deveres e com a "missão da Igreja" daqui para frente. No futuro próximo, uma nova estrutura será criada para o banco e um novo chefe será nomeado.

"Será que nós realmente votamos em alguém que realmente acredita no que prega?" alguns dentro da Cúria têm sussurrado atualmente. Mais uma vez, Francisco pegou a todos totalmente de surpresa. De maneira quase ilustrativa, ele tem feito de tudo para excluir de seu convívio os membros do Vaticano. Mais recentemente, isso aconteceu com a viagem que o papa anunciou que faria na segunda-feira passada para a ilha de Lampedusa, no sul da Itália. O cardeal Tarcisio Bertone, secretário de Estado do Vaticano, ficou sabendo dessa viagem por meio de um comunicado de imprensa papal. E, em vez do costumeiro planejamento com vários meses de antecedência para esse tipo de viagem – planejamento que é realizado pela equipe do Vaticano e geralmente é utilizado pelos chefes da Igreja Católica –, Francisco dispensou esse tratamento. Em vez disso, o excêntrico papa argentino ordenou que sua equipe preparasse um avião para que ele pudesse voar até a ilha pela manhã e estar de volta ao meio-dia.

Milhares de refugiados têm chegado a Lampedusa todos os anos. E eles chegam desesperados após viajar pelo Mediterrâneo em barcos pequenos e perigosos a partir do Norte da África. O papa Francisco queria rezar com eles e também jogar uma coroa de flores ao mar para lembrar aqueles que perderam suas vidas tentando chegar à Europa. O papa anunciou que não quer se encontrar com o prefeito nem com outras autoridades. Ele também ordenou que autoridades da igreja ficassem longe.

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