A teologia de Francisco. Entrevista com Juan Carlos Scannone

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27 Maio 2013

Fonte: Jesuitas.org.arO padre Juan Carlos Scannone, jesuíta de 81 anos, ex-professor de diversas universidades latino-americanas e europeias, incluindo a Pontifícia Universidade Gregoriana de Roma, e ex-reitor da Faculdade de Filosofia e Teologia da Universidad del Salvador, em Buenos Aires, é o maior teólogo argentino vivo.

A reportagem é de Mauro Castagnaro, publicada na revista Il Regno, de maio de 2013. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Eis a entrevista.

O que o senhor pensa da ascensão do cardeal Bergoglio ao sólio de Pedro?

O fato de ele ser o primeiro papa "das Américas", particularmente da América Latina, tem um grande valor simbólico, assim como a escolha do nome Francisco. Jorge Mario é uma pessoa simples, preocupada com os pobres, com a renovação evangélica da Igreja e com um apostolado "na cidade", realizado também pelas ruas, e não só nos templos, como foi o de São Francisco de Assis.

Jorge Mario tem três grandes qualidades: ele é um homem de espiritualidade e, quando era meu provincial, eu tinha a impressão de que ele governava com base no discernimento espiritual, ao menos com relação a mim; é austera, tanto que em Buenos Aires ele se deslocava de metrô ou com os micro-ônibus e muitas vezes visitava as villas miserias, defendendo os padres que trabalhavam lá; é determinado, e por isso implementará as mudanças necessárias na Igreja, mas sem rupturas.

O que o senhor pensa sobre a ação dele no caso do sequestro, durante a ditadura, do Pe. Orlando Yorio e do Pe. Ferencs Jalics?

O Pe. Jalics desmentiu qualquer ligação entre o Pe. Bergoglio e a prisão deles. Eu já sabia disso, porque eu era muito amigo do Pe. Yorio, com o qual às vezes eu colaborava no plano teológico, e como o Pe. Bergoglio vivia na mesma casa que eu, quando os fizeram desaparecer, ele me contava tudo o que ele fazia, assim como ao bispo vigário da região, Dom Mario Serra, para saber onde eles estavam e obter a sua libertação. Os militares negavam que os haviam preso, mas vazou a notícia de que eles haviam sido detidos na Escola de Mecânica da Marinha (Esma), e quando eles se deram conta de que eram inocentes, eles os detiveram por vários meses, a meu ver porque não sabiam o que fazer. No fim, deixaram-nos adormecidos (provavelmente drogados) em um campo. Depois, com a ajuda do provincial, o Pe. Yorio e o Pe. Jalics se refugiaram no exterior para evitar um novo desaparecimento.

O que Francisco irá fazer?

Eu espero que ele impulsione a nova evangelização a partir da opção preferencial pelos pobres, segundo a índole de cada cultura. Por isso, ele vai olhar muito para a África e vai estimular o apostolado com relação aos mais miseráveis, nas grandes periferias urbanas e no "quarto mundo". Ele também irá promover o ecumenismo e colóquios em nível mundial com as outras religiões do mundo, em particular com o judaísmo e o islamismo, com base no que ele já fez na Argentina, onde há um diálogo a três entre essas religiões e o cristianismo. Além disso, imagino que ele tentará difundir o seu estilo de vida austero a toda a Igreja, que, assim, se adaptaria melhor à cultura contemporânea. Por fim, ele levará muito em conta o fato de que é bispo de Roma, certamente sem ignorar a Igreja universal, mas valorizando a colegialidade e o povo dos fiéis como um todo.

Que consequências terá a sua eleição para a América Latina?

Francisco conhece bem a Igreja do continente. Ele foi relator na V Conferência Geral do Episcopado Latino-Americano, realizada em Aparecida, no Brasil, em 2007, coordenando também a comissão encarregada de redigir o documento conclusivo, e por isso vai tentar encorajar a "conversão pastoral" da qual esse texto fala, principalmente colocando a Igreja latino-americana "em estado de missão" nas grandes cidades. Provavelmente, ele irá promover o diálogo com os sindicatos e as organizações populares para favorecer uma maior justiça social, além da busca de acordos sobre políticas públicas para o bem comum. Ele vai valorizar, por fim, a piedade e a espiritualidade populares, especialmente a devoção mariana típica da América Latina.

Como o Papa Bergoglio irá olhar para a teologia latino-americana?

Jorge Mario está convencido da importância espiritual e pastoral de uma boa teologia à altura da cultura contemporânea e de cada cultura particular. Eu acredito que ele vai apoiar a opção preferencial pelos pobres como lugar hermenêutico para a reflexão teológica e pastoral latino-americana. Na Argentina, ele defendeu aquela que eu chamo de "linha argentina da teologia da libertação", denominada por alguns como "teologia do povo", e eu presumo que ele vai continuar a promovê-la, sem ignorar outras orientações teológicas.

Quais são as características dessa "teologia do povo"?

Assim como a teologia da libertação, ela utilizar o método "ver-julgar-agir", liga práxis histórica e reflexão teológica, e recorre à mediação das ciências sociais e humanas. Mas privilegia uma análise histórico-cultural em comparação com a sócio-estrutural de tipo marxista. É uma reflexão que surgiu no período pós-conciliar imediato, a partir de uma fonte dupla: o n. 53 da Gaudium et Spes, em que se fala da "cultura" como modo de vida de cada povo, lido na convicção de que a primeira evangelização havia contribuído muito para forjar a cultura argentina que se manifestava especialmente no catolicismo popular; as teorias da sociedade nascidas na Universidade de Buenos Aires nos anos 1960 e fundamentadas sobre as categorias de "povo" e de "antipovo", que reconheciam a injustiça, mas enfatizando a unidade do povo em vez do conflito, como teria ocorrido se se usasse o conceito de "classe".

Por isso, essa corrente sublinha a importância da cultura, da religiosidade e da mística popular, afirmando ao mesmo tempo que os seus intérpretes mais autênticos e fiéis são os pobres, com a sua espiritualidade tradicional e a sua sensibilidade pela justiça. Essa reflexão alimenta a pastoral dos bairros populares e das villas miserias.

Qual é a situação da Igreja na Argentina hoje?

Nos últimos 15 anos, o episcopado manteve um diálogo crítico com o Executivo, embora uma minoria dos bispos tenha uma orientação mais conservadora. No plano social, todos reconhecem que a Igreja está muito à frente, tanto na assistência através da Cáritas, quanto na promoção humana, e às vezes ela se confronta com o governo, porque a situação dos pobres melhorou graças às ajudas estatais, mas faltam investimentos produtivos que criem postos de trabalho dignos.

Nos temas morais, como o aborto e o casamento entre pessoas do mesmo sexo, eu acredito que devam ser defendidas a lei natural e os direitos dos nascituros, mas dialogando mais com a sociedade civil. No caso da Lei sobre o Matrimônio Igualitário, se entre os bispos tivesse prevalecido a linha daqueles que queriam atestar a aceitação das uniões civis, e não a da oposição radical, eu acho que se poderia ter evitado o fato de ver a ascensão ao posto de "matrimônio" as relações homossexuais, mesmo garantindo a todas as pessoas direitos como a herança, pensões de reversibilidade etc. A meu ver, a hierarquia ainda não se acostumou com o diálogo com a sociedade pós-moderna, que expressa um certo relativismo cultural.

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