Evangelho de Lucas: libertar-salvar, agora e na prática.

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22 Maio 2013

"A inter-relação existente entre libertar e salvar: são duas faces da mesma medalha; inseparáveis como carne e unha. 'Salvação' que não implica libertação real, concreta e corporal das pessoas é pseudo-salvação", escreve Frei Gilvander Luís Moreira, padre da Ordem dos Carmelitas, assessor da Comissão Pastoral da Terra – CPT, assessor do Centro Ecumênico de Estudos Bíblicos – CEBI, assessor do Serviço de Animação Bíblica - SAB e da Via Campesina em Minas Gerais.

Eis o artigo.

A salvação acontece com base nas entranhas da história da humanidade. Deus, pela encarnação que culmina em Jesus de Nazaré, assume as entranhas humanas para salvar todos e tudo. Infelizmente já faz parte do senso comum que salvação se refere apenas à “alma”. Perdeu-se a relação do corpo com a salvação. Diante disso é bom recordar que a palavra “salvação”, no seu sentido original, quer dizer livrar o ser humano de algum mal físico, moral ou político, ou de algum cataclismo cósmico; isso supõe resgate da integridade. Com referência ao acontecimento Cristo, resgatar a integridade do ser humano significa restabelecer sua relação inata com Deus, com os outros, com toda a criação e consigo mesmo. Não podemos esquecer que o credo cristão afirma a convicção na ressurreição da “carne”, não apenas da “alma”.

Salvação é um dos efeitos mais importantes do acontecimento Cristo, pelo menos na mentalidade do autor do Evangelho de Lucas e Atos dos Apóstolos. Lucas é o único dos evangelistas sinóticos a chamar Jesus de “Salvador”.  O melhor resumo que mostra o que é salvação é: “O filho do Homem veio buscar o que estava perdido e salvá-lo” (Lc 19,10).

Não podemos continuar pensando, segundo o senso comum, que salvação se refere somente a algo pós-morte e que não tem nada a ver com libertações na história. Na Bíblia, as categorias salvação e libertação são “equivalentes” e complementares, mesmo que alguns textos possam enfatizar mais a ideia de salvação, e outros, mais a ideia de libertação. Por exemplo, etimologicamente o nome Josué significa “o Senhor é libertação-salvação” (Nm 11,28); Josué é a versão hebraica do nome de Jesus. Este é versão aramaica. Logo, etimologicamente, Jesus é o novo Josué, aquele que liberta e salva, em um processo interdependente. Josué conduziu o povo na conquista da terra prometida. Jesus conduz o povo para a chegada do Reino de Deus no mundo. Outro exemplo: o nome Oséias significa libertação-salvação (Nm 13,8) — o profeta Oséias combateu com veemência a idolatria, libertando e salvando o povo.

Libertação-salvação faz parte do campo semântico dos verbos libertar, salvar, sarar, curar, resgatar, perdoar, reerguer, redimir, integrar, recuperar, incluir, apoiar e outros similares. Isso indica a inter-relação existente entre libertar e salvar: são duas faces da mesma medalha; inseparáveis como carne e unha. “Salvação” que não implica libertação real, concreta e corporal das pessoas é pseudo-salvação.

Lucas não quer, em momento algum, espiritualizar a proposta do Evangelho de Jesus Cristo, mas inseri-la nos processos orgânicos de libertação. A salvação que Lucas defende não é aparente, como diz o povo: “Peruca em cabeça de careca”.

A salvação universal se estende a tudo e a todos, não porque o povo judeu a recusou, mas porque está no plano salvífico de Deus favorecer toda a humanidade. O plano salvífico, segundo Lucas, começa com o movimento de Jesus Cristo, no evangelho, e continua nos Atos dos Apóstolos sob a ação do Espírito prolongando-se nas Igrejas pelo mundo afora.

No plano teológico da obra de Lucas, o tempo da promessa (Primeiro Testamento), o tempo de Jesus (evangelho) e o tempo das Igrejas (Atos dos Apóstolos) apresentam uma visão unitária de um único projeto de salvação pensado pelo Deus da Bíblia, para o ser humano de todos os tempos e realizado em Jesus por meio do dom e da presença do Espírito Santo nas comunidades cristãs.

A cristologia de Lucas revela Jesus como eminentemente compassivo-misericordioso (Lc 7,13; 10,33; 15,20), Salvador de todos (Lc 2,32), curador de todas as doenças (Lc 19,5; 15,2); acolhedor dos samaritanos (Lc 10,29-37; 17,11-19); acolhedor amoroso das mulheres (Lc 8,2-3; 23,49) e praticamente da “comunhão de mesa” com pecadores ao sentar-se à mesa e comer junto com eles (Lc 5,29-30; 15,2; 19,7).

O templo e a cidade de Jerusalém como lugares exclusivos de salvação ou revelação são superados. O povo de Israel, segundo Lucas, não é mais o “povo eleito” por excelência. Basta perceber a prioridade que Lucas dá aos samaritanos e aos gentios. Lucas nos alerta que o lugar por excelência da revelação de Deus é a pessoa de Jesus. O Menino Jesus é reconhecido como “bendito” (Lc 1,42); na sua humanidade “visita” o seu povo e toda a humanidade (Lc 1,68.78; 3,6). Deus, em Jesus, visita o povo e dá início, assim, a um tempo de salvação, paz, reconciliação e perdão.

Conzelmann, um estudioso do evangelho de Lucas, afirma que em Jesus e com ele, o tempo chegou ao seu centro. Por isso ele pôs em um dos seus livros sobre Lucas o seguinte título: O centro do tempo. Os argumentos que sustentam essa tese se apóiam sobre a ênfase dada à palavra hoje, que aparece doze vezes nesse evangelho.

É claro que a palavra “hoje” não tem o mesmo sentido em todos esses versículos, mas o fato de aparecer tantas vezes demonstra como o Jesus apresentado por Lucas valoriza o hoje, o aqui e agora. [“Felizes vós, que agora tendes fome (e chorais), porque sereis saciados (e haveis de rir)” (Lc 6,21)]. “Hoje se cumpre essa passagem da Escritura (Lc 4,21)”. Para entender bem essa afirmação, devemos recordar que, para o povo judeu, toda vez que se lia a Bíblia Deus estava falando e manifestando-se. A Palavra para o mundo semita é viva e eficaz (Is 55,10-11). Pela Palavra, Deus nos visita e devemos ter sensibilidade para captar sua mensagem. O tempo de Deus é o “hoje” da história (Lc 4,21). É como canta Zé Vicente, um dos cantores das Comunidades Eclesiais de Base: “Nas horas de Deus, amém!... Luz de Deus em todo canto... Que o coração do meu povo de amor se torne novo...”.  E como diz Rubem Alves no livro Tempus Fugit: “Só descobrimos a beleza do momento presente, do hoje e do agora, quando descobrimos que o tempo é fugidio, escorre, passa e não volta nunca mais. Quando chegamos a essa descoberta passamos a viver com intensidade cada minuto e cada segundo da nossa vida.  Eis um dos traços da teologia lucana.

Para Lucas a prática é decisiva. Isto é comprovado na obra lucana com expressões como: “Façam coisas para provar que vocês se converteram...” (Lc 3,8a); “As multidões, alguns cobradores de impostos, alguns soldados... perguntaram a João Batista: ‘O que devemos fazer?’” (Lc 3,10.12.14). Um escriba pergunta a Jesus: “O que devo fazer para receber em herança a vida eterna?” (Lc 10,25) e depois de contar o “episódio-parábola” do Bom Samaritano, Jesus responde dizendo: “Vá, e faça a mesma coisa” (Lc 10,37). Muitos outros textos podem ser evocados para respaldar a conclusão de que Lucas dá uma grande prioridade à ação. O primeiro versículo dos Atos dos Apóstolos traz a seguinte frase: “... tudo o que Jesus começou a fazer e a ensinar”. A prática é recordada antes do ensinamento, o que quer dizer que acima da ortodoxia está a ortopráxis. Mais importante do que ter uma “opinião certa” é ter uma prática correta, libertadora. Por aqui entrevemos a perspectiva universal da teologia lucana. Lucas quer dizer que uma das grandes características das primeiras comunidades é que eram comunidades de ação, de prática, de testemunho. Não se trata de qualquer tipo de ação, mas de ação solidária e libertadora.

Lucas apresenta as seguintes condições para seguir Jesus: viver em pobreza radical,  não temer repressões,  não fazer discriminação racial ou cultural,  acolher preferencialmente os pobres.

Ser discípulo significa seguir os passos de Jesus, acompanhá-lo rumo a “Jerusalém”, onde cumprirá o seu “destino”, o seu “êxodo” rumo ao Pai. Ser discípulo de Cristo inclui não somente a aceitação do ensinamento do Mestre, mas também uma identificação pessoal com o estilo de vida de Jesus e com seu compromisso com os pobres mediante o martírio como caminho para a ressurreição.

Jesus vive a espiritualidade do conflito, apesar do caminho da cruz o clima predominante é de entusiasmo e alegria,  cultivando assim a serenidade e a paz interior diante das “tempestades”.

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