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Por: André | 14 Maio 2013

Em mais de 20 cidades espanholas aconteceram marchas que reivindicaram e atualizaram o grito indignado e antissistema que ressoa na sociedade desde maio de 2011. Um balanço do que representa o 15-M.

A reportagem é de Flor Ragucci e publicada no jornal argentino Página/12, 13-05-2013. A tradução é do Cepat.

A indignação é igual ou maior. Os motivos são os mesmos, e inclusive mais. Passaram-se dois anos desde a explosão que levou às ruas milhares de cidadãos fartos com o sistema e, no domingo, muitos voltaram a sair para comemorar o segundo aniversário de uma luta que não para. Em mais de 20 cidades foram realizadas marchas que reivindicaram e atualizaram o grito indignado que, desde o dia 15 de maio de 2011, ressoa na Espanha. O ponto de encontro foram, como naquela época, as praças, onde durante todo o fim de semana muitos dos coletivos que nasceram naquele momento, organizaram discussões e debates sobre a atualidade do país e o estado do movimento social.

“Da indignação à rebelião: escracho ao sistema”, foi o lema usado nestas jornadas reivindicativas para resumir o processo destes dois anos de trabalho. O termo tomado da denúncia argentina dos envolvidos na ditadura ilustra o plano de ação que, sobretudo, os setores da educação, saúde e habitação, estão desenvolvendo: tolerância zero aos cortes orçamentários nos serviços públicos e “escracho” dos políticos e entidades financeiras que apoiam os despejos.

A afluência às praças e às marchas este ano não foi tão numerosa como durante o primeiro aniversário, mas para grande parte dos participantes isso demonstra a mudança que o movimento sofreu de 2011 até agora. “Aqueles que não entenderam por que havia tanta gente nas praças naquela época, são os mesmos que não entendem por que há pouca gente agora. Por que estão lutando. Há muito que fazer em todas as partes”, disse um dos participantes de um debate na Praça Catalunha, em Barcelona. A partir da explosão social de dois anos atrás se criaram grupos de trabalho em todos os bairros das grandes cidades espanholas, para levar à prática em uma escala mais próxima os objetivos marcados pelas assembleias centrais. José María, membro do coletivo do Carmel, um bairro de Barcelona, conta que, embora sejam menos pessoas que há dois anos, os que ficaram mantêm intacta a força. “Entre outras coisas criamos uma rede de trocas que funciona muito bem, e nos organizamos para a defesa da educação e da saúde pública, junto com os outros bairros”, explica José María em uma mesa informativa montada por ocasião do aniversário na Praça Catalunha.

Ao longo destes dois anos, reconhecidos intelectuais refletiram sobre a natureza do movimento indignado e apontaram suas ideias para a construção da mudança. Um deles, Manuel Delgado, antropólogo da Universidade de Barcelona e especialista em apropriações sociais do espaço público e da construção das identidades coletivas, também esteve presente nas jornadas reivindicativas deste fim de semana, e falou com o Página/12. “O movimento dos indignados como tal desapareceu. Onde está a oficina do 15-M (nome usado em referência ao 15 de maio, data da eclosão social de 2011)? – perguntou, com ironia, Delgado. Não existe mais e se existe, mal, porque algo que representa um movimento não pode ser permanente. O movimento dos indignados foi um despertar coletivo que implicou a incorporação à discussão e à ação política de milhares de pessoas de todas as idades que descobriram pela primeira vez um lugar onde se juntar para lutar. Depois do 15-M nada será igual”.

O antropólogo afirma que, ao contrário de outras eclosões sociais da história da Espanha (as manifestações massivas contra a guerra no Iraque, em 2003, por exemplo), o 15-M tem uma característica particular: trata-se de “uma espécie de dramaturgia espacial que se baseia na apropriação prolongada de determinados espaços públicos. O povo reclamou sua titularidade sobre as praças, lugares que, justamente por isso, são públicos. E o resultado foi que, em vez de nos encontrarmos diante de um movimento que utilizava uma praça para conversar, parecia que era a praça que usava o movimento para se expressar”.

Diante da inevitável pergunta sobre o futuro desta forma de combate social, Delgado adverte que, na sua opinião, teria que se organizar uma frente comum que aglutine indivíduos e grupos políticos afins às ideias promovidas pelo 15-M. “É preciso passar de uma luta de movimentos a uma luta de posições e tomar o poder. Basta de resistir, levamos toda a vida resistindo!”. Delgado insiste em que hoje os movimentos sociais são partidos políticos, que se pensam a si mesmos e se concebem como tais. Não vê com maus olhos, portanto, a possibilidade de que o movimento indignado adquira uma estrutura e um nome próprios. “Tem que haver algo ou alguém que o organize”, defende Delgado e, frente às posturas que rechaçam a incorporação do 15-M na vida política e a adoção de um rosto visível que o represente, esclarece: “Um líder não significa um messias”.

O antropólogo está convencido de que o movimento está vivo, em pleno processo de busca e ação. “A esquerda revolucionária nunca foi utópica porque, caso o fosse, acreditaria que existe um final e, ao contrário, qualquer processo de luta é, por definição, infinito – assegura Delgado. Nunca se tem suficiente justiça nem liberdade, assim que isto não nunca acabará”.