''Eu não fui informado sobre o relatório da LCWR'', afirma Braz de Aviz

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07 Maio 2013

A polêmica decisão do Vaticano do ano passado de colocar o principal grupo representativo de irmãs católicas dos Estados Unidos sob o controle dos bispos foi tomada sem consulta ou sem o conhecimento do escritório vaticano que normalmente lida com as questões da vida religiosa, disse o presidente do escritório nesse domingo.

A reportagem é de Joshua J. McElwee, publicada no sítio National Catholic Reporter, 05-05-2013. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Essa falta de discussão sobre a possibilidade de criticar fortemente a Leadership Conference of Women Religious (LCWR), disse o cardeal João Braz de Aviz, provocou-lhe "muita dor."

"Temos que mudar essa forma de fazer as coisas", disse Braz de Aviz, presidente da Congregação para os Religiosos do Vaticano.

"Temos que melhorar essas relações", continuou, referindo-se ao mandato de abril de 2012 referente à LCWR por parte da Congregação para a Doutrina da Fé do Vaticano – aprovada pelo Papa Bento XVI – que ordenava que o grupo das irmãs norte-americanas fosse revisto.

"Os cardeais não podem desconfiar uns dos outros", disse Braz de Aviz. "Não é essa a forma como a Igreja deve funcionar".

Braz de Aviz, que preside a Congregação para os Institutos de Vida Consagrada e Sociedades de Vida Apostólica do Vaticano desde 2011, fez os comentários no domingo, durante uma sessão de diálogo aberto com cerca de 800 lideranças de comunidades religiosas femininas na assembleia trienal da União Internacional de Superioras Gerais (UISG).

Respondendo a perguntas das irmãs-líderes por mais de uma hora e meia, Braz de Aviz falou abertamente, referindo-se várias vezes às tensões entre irmãs e bispos sobre a autoridade da Igreja, questões de obediência e o futuro da vida religiosa.

Em certo ponto, o cardeal pediu até mesmo uma ampla revisão das estruturas de poder da Igreja.

"Estamos em um momento de necessidade de analisar e rever algumas coisas", disse Braz de Aviz. "A obediência e a autoridade devem ser renovadas, revistas".

"A autoridade que manda, mata", continuou. "A obediência que se torna uma cópia do que a outra pessoa diz, infantiliza".

Braz de Aviz também disse às lideranças religiosas que "a liderança das mulheres precisa crescer muito na Igreja", referindo-se a uma observação feita pelo Papa Paulo VI durante uma sessão do Concílio Vaticano II (1962-1965) – em que o falecido papa perguntou aos padres conciliares: "Onde estão os outros 50% da humanidade que não estão aqui?".

O mandato vaticano referente à LCWR, que foi emitido em abril de 2012, nomeia o arcebispo de Seattle, Peter Sartain, como o "arcebispo delegado" do grupo. Ele lhe dá autoridade final sobre os seus trabalhos e exige que o grupo reveja os seus programas e estatutos.

A LCWR, cujas raízes remontam aos anos 1950, representa cerca de 80% das cerca de 57 mil irmãs norte-americanas.

Desinformação

Braz de Aviz falou em italiano, e suas palavras eram traduzidas simultaneamente em outras cinco línguas.

Ele disse que o seu escritório – que é encarregado de supervisionar o trabalho de cerca de 1,5 milhões de irmãs, irmãos e padres de ordens religiosas de todo o mundo – ficou sabendo pela primeira vez da medida contra o grupo de irmãs dos Estados Unidos em uma reunião com a Congregação para a Doutrina da Fé do Vaticano, depois que o relatório formal sobre o assunto havia sido concluído.

Nessa reunião, disse Braz de Aviz, ele comentou com o cardeal norte-americano William Levada, que desde então se aposentou como presidente da Congregação doutrinal, que o assunto deveria ter sido discutido entre os escritórios vaticanos.

"Vamos obedecer ao que o Santo Padre quer e o que for decidido pelo senhor", disse então Braz de Aviz a Levada. "Mas precisamos dizer que esse material deveria ser discutido em conjunto e não foi".

"Eu obedeci", continuou Braz de Aviz, em seu relato às irmãs. "Mas eu tinha muita dor dentro de mim".

Ele também disse que essa foi a primeira vez que ele discutiu publicamente a falta de consulta, dizendo que antes "eu não tinha a coragem de falar".

Em uma coletiva de imprensa após a palestra, Braz de Aviz disse que, embora o seu escritório "sempre obedece" ao papa, "o problema muitas vezes é o tipo de notícia que chega ao Santo Padre".

Dizendo que diferentes escritórios vaticanos, às vezes, dão ao papa pontos de vista diferentes sobre situações como a questão da LCWR, Braz de Aviz disse que "há uma espécie de 'quem é que vai ganhar?'".

"Essa disputa de quem vai ganhar não é boa", continuou. "Mas Pedro e Paulo também tinham problemas. A resposta é: o 'Espírito Santo' vai ganhar".

O status da LCWR com o Vaticano tem sido objeto de muita discussão no encontro global das irmãs. A irmã franciscana Florence Deacon, presidente da LCWR, disse à assembleia em um discurso no sábado que a situação com o grupo indicava que existem "sérios mal-entendidos" entre as autoridades vaticanos e as irmãs católicas.

Questionado durante o seu diálogo com as irmãs se seria possível haver um encontro entre a LCWR e o Papa Francisco para discutir o assunto, Braz de Aviz, respondeu: "Eu acho que sim".

"Mas eu sei que a dor é muito grande", continuou, repetindo: "Muito grande".

Papa Francisco e LCWR

Várias ex-lideranças da LCWR expressaram dor e decepção semanas atrás, quando um comunicado de imprensa vaticano disse que o Papa Francisco "reafirmava" a medida da Congregação doutrinal.

"Eu não acho que o Papa Francisco seria indiferente com relação a vocês", disse Braz de Aviz às irmãs. No entanto, disse o cardeal, o papa "confirmou a revisão doutrinal, ele quer que ela siga em frente".

Braz de Aviz também respondeu a uma pergunta sobre uma investigação em separado das irmãs católicas norte-americanas lançada pela sua Congregação vaticana, durante o mandato do seu antecessor, o cardeal Franc Rodé.

Essa investigação, conhecida como visitação apostólica, examinou as ordens individuais de irmãs católicas dos Estados Unidos e resultou em um relatório detalhado que foi silenciosamente submetido a Roma em janeiro de 2012.

Esse relatório, Braz de Aviz, disse, "foi enviado ao papa. Cabe a ele ver se irá torná-lo público".

Dimensão carismática

No início do domingo, Braz de Aviz dissera às lideranças religiosas femininas durante a sua homilia na missa com elas que elas são "coessenciais" aos bispos da Igreja e que os dois grupos devem "caminhar juntos" em sua liderança.

Referindo-se à vida consagrada como uma "dimensão carismática" da Igreja, o cardeal disse às irmãs-líderes: "Hoje precisamos redescobrir que na Igreja há duas dimensões que são coessenciais, igualmente essenciais: a dimensão hierárquica e a dimensão carismática".

"Precisamos caminhar juntos, seguindo, ouvindo o Espírito Santo – homens e mulheres juntos", disse ele durante a homilia.

Refletindo sobre a leitura do domingo dos Atos dos Apóstolos, que narra a decisão dos apóstolos de não exigir a circuncisão para os cristãos, Braz de Aviz disse que o relato indica que a Igreja deve discernir quando se está em um "novo momento".

"Isso é algo que sempre devemos fazer na Igreja, discernir constantemente, a fim de seguir em frente", afirmou. "Isso também nos dá a oportunidade, hoje, parece-me, de entender as questões importantes na nossa vida de pessoas consagradas".

Durante a sessão de diálogo com as irmãs, Braz de Aviz voltou a falar sobre homens e mulheres na Igreja trabalhando juntos, referindo-se ao relato do Gênesis que diz que "Deus os criou, homem e mulher os criou. Deus criou-os à imagem e semelhança de Deus".

Esse relato, disse o cardeal, enfatiza duas coisas: "Homem e mulher não são Deus; eles são criaturas" e "o homem, sem a mulher, não é humanidade, e vice-versa".

Parte das lutas entre homens e mulheres na liderança da Igreja, disse Braz de Aviz, resulta do fato de "reconstruir as nossas relações" com o outro. "As nossas relações", afirmou, "estão doentes, profundamente doentes".

Em relação ao avanço das mulheres em posições de liderança na Igreja, Braz de Aviz disse que "podemos dar muitos passos nessa direção" para criar "uma Igreja mais materna" e não apenas paterna.

"Os dois aspectos juntos seriam muito mais equilibrados, muito mais humanos", disse. "Não devemos ter medo disso".

A escolha de José Rodríguez Carballo

Durante a sua homilia no domingo, Braz de Aviz também revelou como o Papa Francisco tinha escolhido o novo número dois para a sua Congregação vaticana, o padre franciscano José Rodríguez Carballo.

Rodríguez, ex-ministro-geral da Ordem dos Frades Menores, foi anunciado como secretário da Congregação para os Religiosos no dia 6 de abril.

O Papa Francisco, contou Braz de Aviz, perguntou-lhe ao tomar a decisão: "Quem você quer como seu secretário? Dê-me três nomes".

"Então, eu lhe dei três nomes", disse Braz de Aviz às irmãs. "Mas o papa disse: 'Dos três, qual você quer?'. Eu disse: 'Este, Carballo'. O papa disse: 'Bom, bom'. E ele nos deu José Carballo".

"É uma forma maravilhosa e simples de fazer as coisas: eu confio em você, eu confio em Carballo, então é isso", disse Braz de Aviz. "Ele não complicou".

Nota da IHU On-Line:

Na manhã de hoje, 07-05-2013, a Sala de Imprensa divulgou a nota, em inglês, intitulada "Comunicado da Sala de Imprensa sobre a colaboração entre as Congreagações para a Doutrina da Fé e a Congregação para os Institutos de Vida Consagrada e as Sociedades de Vida Apostólica". A nota afirma que não se justificam as notícias publicadas na imprensa sobre o pronunciamento do Cardeal Braz de Aviz. O comunicado reitera que os dois dicastérios trabalham unidos.

 

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