A primeira Semana Santa de Francisco

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Por: Jonas | 03 Abril 2013

Gestos fortes. Homilias essenciais. Ritos simplificados. Uma semana que revelou o estilo do novo Papa, mas que também levantou algumas interrogações que ficaram sem resposta.

A reportagem é de Sandro Magister, publicada no sítio Chiesa, 01-03-2013. A tradução é do Cepat.    

A primeira Semana Santa do papa Francisco (foto) revelou ainda mais o seu estilo: na celebração, na pregação e na presença.

A decisão de celebrar a missa in coena Domini, da Quinta-Feira Santa, entre os jovens na prisão de menores de “Casal del Marmo”, lavando os pés de doze deles, sendo uma deles uma jovem muçulmana, é provável que faça escola. Por outro lado, realizou-se num terreno já fértil, pois gestos deste tipo não são raros. Na Sexta-Feira Santa, na França, mais precisamente em Lyon, o cardeal Philippe Barbarin rezou com um grupo de ciganos expulsos de um acampamento demolido por autoridades. Em São Paulo, Brasil, o cardeal Odilo Pedro Scherer levou a Paixão de Jesus em procissão pela tristemente célebre região da Cracolândia, de má reputação.

Entretanto, fica ainda sem resposta a interrogação sobre duas atitudes, aparentemente contrastantes, com aquelas que o papa Jorge Mario Bergoglio teve no início de seu pontificado.

Em “Casal del Marmo” não receou em também oferecer aos jovens não cristãos a celebração da missa, “culmen et fons” da vida da Igreja. Sendo que, na audiência do dia 16 de março, com os jornalistas, absteve-se de pronunciar as palavras e de fazer o gesto da bênção porque “muitos de vocês – disse – não pertencem à Igreja católica, outros não são crentes”.

Na pregação, o papa Francisco confirmou que se concentra em poucas palavras essenciais, uma forma seguramente mais eficaz do ponto de vista comunicativo. Na homilia do Domingo de Ramos, a passagem chave foi aquela em que descreveu a entrada de Jesus em Jerusalém como a de um rei cujo “trono régio é o lenho da cruz”.

Na brevíssima homilia da Quinta-Feira Santa, em “Casal del Marmo”, deteve-se no significado do serviço do lava-pés.

Na homilia da Vigília Pascal, a passagem culminante foi a seguinte: “Aceite que Jesus Ressuscitado entre em sua vida, acolha-o como amigo, com confiança: Ele é a vida! Se até agora você esteve distante Dele, dê um pequeno passo: Ele acolherá você com os braços abertos. Se você era indiferente, aceite arriscar: você não ficará decepcionado. Se parece difícil segui-lo, não tenha medo, confie Nele, tenha a segurança de que Ele está perto de você, está contigo, e Ele vai lhe dar a paz que você busca e a força para viver como Ele quer”.

De qualquer modo, a homilia mais rica, profunda e sugestiva, entre as pronunciadas pelo papa Francisco, na Semana Santa, foi a da missa crismal da quinta-feira pela manhã. O “povo” liturgicamente carregado sobre os ombros do sacerdote que celebra; as “periferias” das cidades e dos corações alcançadas pelo óleo messiânico; os pastores que devem ter “cheiro de ovelha”: são todas elas imagens que ficam felizmente impressas.

L’Osservatore Romano”, do dia 30 de março, revelou que o texto desta homilia da missa crismal, “com exceção de alguns acréscimos”, era o mesmo que Bergoglio havia “preparado antes de ser eleito papa e que tinha entregue a seus colaboradores antes de ir para o Conclave”; tanto é assim, que foi lido também na missa crismal celebrada na catedral de Buenos Aires.

No que diz respeito ao “ars celebrandi”, nas liturgias da Semana Santa, na Basílica de São Pedro, notou-se um respeito maior à simbologia e esplendor dos ritos do que o percebido na missa de início de pontificado.

Contudo, neste ponto, também contando com abreviações nem sempre compreensíveis. Em particular, não se entendeu qual a razão pela na qual, na Vigília Pascal, após o canto do Exultet, reduziu-se ao extremo as leituras bíblicas e, literalmente, mutilou-se a primeira, a narração dos seis dias da criação reduzida apenas à criação do homem.

Essa brevidade, que em alguns contextos pode ter sua justificativa e está, de fato, prevista pelo missal, não teve o seu sentido compreendido numa Vigília Pascal presidida pelo Papa e em que participou – em pessoa ou através da retransmissão televisiva – um povo fiel altamente motivado, do qual foi subtraída a plenitude dessa narração da “historia salutis” que a liturgia ilumina nesta noite culminante do ano, com a luz do Círio Pascal.

Numa de suas páginas memoráveis, Romano Guardini descreveu a celebração da liturgia da Páscoa na Basílica de Monreale, na Sicília, repleta de camponeses pobres, em grande parte analfabetos, no entanto, encantados pelo esplendor do rito: “A sagrada cerimônia durou mais de quatro horas, mas sempre houve uma viva participação nela”. Foi precisamente sobre Guardini que o jesuíta Bergoglio escreveu sua tese de doutorado em teologia, em Frankfurt, em 1986.

* Todas as homilias do papa Francisco, em vários idiomas, podem ser lidas aqui.