Em menos de 50 anos, luta pelos direitos dos gays dá grande salto

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26 Março 2013

A luta pelos direitos dos afro-americanos, simbolizada pela sangrenta marcha de Selma de 1965, é tão antiga quanto a nação. Os esforços pelos direitos das mulheres americanas teve início em Seneca Falls, Nova York, há mais de 150 anos.

A reportagem é de John Harwood, foi publicada no jornal The New York Times e reproduzida no Portal Uol, 26-03-2013.

A luta moderna pelos direitos dos gays, em comparação, mal chega a meio século de idade, datando dos distúrbios de Stonewall, em Nova York. Mas, nesta semana, quando a Suprema Corte ouve dois casos importantes sobre casamento entre pessoas do mesmo sexo, a velocidade do movimento está surpreendendo seus apoiadores.

"Nós, o povo, declaramos hoje que a mais evidente das verdades --a de que todos nós somos criados iguais-- é a estrela que ainda nos guia, assim como guiou nossos antepassados por Seneca Falls, Selma e Stonewall", disse o presidente Barack Obama em seu discurso de posse em janeiro, em um momento histórico para gays e lésbicas, incluídos em um discurso desses pela primeira vez. "Nossa jornada não estará completa até que nossos irmãos e irmãs gays sejam tratados legalmente como qualquer pessoa."

As mudanças foram tão rápidas que às vezes é surpreendente lembrar que gays e lésbicas até recentemente tinham medo de se assumir e quantos obstáculos existiam. "Todos nós estávamos escondidos", disse o ex-deputado Barney Frank, democrata de Massachusetts, que em 1987 se tornou o primeiro membro do Congresso a revelar voluntariamente sua homossexualidade. Na época, a reprovação pública à homossexualidade --tão poderosa que gays e lésbicas hesitavam em se identificar, quanto mais buscar mudanças políticas-- ajudava a conter a ascensão do movimento.

"Era uma população tímida e temerosa demais até mesmo para erguer sua mão, um grupo de pessoas que teve que começar do zero para criar seu lugar na cultura da nação", escreveram Dudley Clendinen e Adam Nagourney em "Out for Good", a história deles de 2001 do movimento dos direitos dos gays.

No último século na política americana as fontes dessa reticência não eram um mistério. Os ensinamentos judaico-cristãos, interpretados como condenando a homossexualidade, forneciam o pano de fundo para o debate político em uma nação mais religiosa do que as outras no mundo industrializado. Nos Estados Unidos após a Segunda Guerra Mundial, a Associação Psiquiátrica Americana deu credencial médica e científica às visões que rotulavam a homossexualidade como uma desordem mental.

Mas as mudanças culturais ocorridas nos anos 60 começaram a minar essas barreiras. Em resposta aos primeiros movimentos em grandes cidades como Nova York, Los Angeles e San Francisco, George McGovern se tornou o primeiro candidato à presidência a se identificar com o movimento ao permitir oradores assumidamente gays na Convenção Nacional Democrata de 1972.

Quatro anos depois, Jimmy Carter, um batista do sul da Geórgia, se opôs à discriminação contra gays e lésbicas ao mesmo tempo em que mobilizava o apoio dos cristãos evangélicos. Durante sua presidência, a coordenadora de Carter, Midge Costanza, realizou a primeira reunião formal com ativistas gays na Casa Branca.

Mas Carter perdeu em 1980 para um Partido Republicano em ascensão que, sob o presidente Ronald Reagan, uniu conservadorismo econômico e social.

Antes de chegar à Casa Branca, Reagan ajudou os ativistas gays a derrotar uma iniciativa que seria votada na Califórnia proibindo gays e lésbicas de lecionarem em escolas públicas. Mas, durante sua presidência, Reagan manteve distância. A legislação estendendo proteções de direitos civis a gays e lésbicas, introduzida pelos democratas liberais em 1974, continuou parada no Congresso.

O aparecimento da Aids nos anos 80, entretanto, deu nova energia e urgência ao movimento. A epidemia levou muitos gays e lésbicas a assumirem publicamente sua opção sexual e aumentou a pressão sobre as autoridades eleitas, que de repente se viram diante de votações sobre o uso do dinheiro do contribuinte em resposta à crise de saúde pública.

Os legisladores alinhados com os ativistas gays começaram a formar alianças no Capitólio que antes eram impossíveis em temas abstratos como os direitos dos gays.

"Quando era puramente simbólico, eu não conseguia encontrá-los", lembrou Frank sobre tentar reunir apoiadores aos direitos dos gays. "Mas quando as vidas de pessoas estavam em risco, eu passei a ouvir: 'Certo, eu acho que terei que votar com você'."

Bill Clinton, o primeiro presidente da geração pós-Segunda Guerra Mundial, colocou o movimento ainda mais em proeminência. Ele participou de um evento para arrecadação de fundos patrocinado por gays, destacou a Aids em sua convenção em 1992 e prometeu uma ordem executiva proibindo a discriminação contra gays e lésbicas nas forças armadas.

"Ele nos trouxe para dentro do Partido Democrata", disse David Mixner, um velho amigo de Clinton da oposição à Guerra do Vietnã, que se tornou seu conselheiro e embaixador para o movimento dos direitos dos gays.

Mas as vitórias permaneceram intermitentes. Os democratas sofreram uma dura derrota nas eleições de 1994, obrigando Clinton a adotar um tom mais conservador.

Em 1996, ele enfureceu seus eleitores gays ao sancionar a Lei de Defesa do Casamento, cuja constitucionalidade está sendo discutida nesta semana em um dos casos de casamento de mesmo sexo que estão sendo ouvidos na Suprema Corte. A lei limitou a definição de casamento a uniões entre um homem e uma mulher.

A posição de Clinton acompanhava a opinião pública americana, que continuava distinguindo os direitos dos gays de outras causas de direitos civis. Em uma pesquisa Gallup de 1996, 68% dos entrevistados eram contrários ao reconhecimento do casamento de mesmo sexo.

A resistência da população ofuscou avanços mais discretos em outras partes. Os sindicatos trabalhistas há muito eram os "aliados mais fortes" do movimento na busca por proteções aos trabalhadores gays, disse Gregory King, um representante da Federação Americana dos Funcionários Estaduais e Municipais. E, à medida que um número cada vez maior de funcionários gays assumia sua sexualidade, as grandes empresas passaram a estender os programas de benefícios para cobrir os casais de mesmo sexo.

"O setor privado sempre esteve à frente dos políticos", disse Hillary Rosen, uma lobista de Washington ativa nas causas dos direitos dos gays. Assim como a cultura popular, particularmente a TV, que nos últimos anos tem apresentado várias figuras gays de modo positivo.

Esses desdobramentos --e a ascensão de uma geração de eleitores mais jovens, socialmente tolerantes, que não consideram o casamento de mesmo sexo controverso-- provocaram uma mudança na opinião pública.

Em novembro de 2012, o Gallup apontou que 53% dos entrevistados apoiavam o reconhecimento legal do casamento de mesmo sexo. Uma pesquisa na semana passada mostrou que 54% apoiam benefícios para funcionários públicos federais casados com parceiros de mesmo sexo.

Essas atitudes produziram um ajuste político que altera o debate, independentemente do que a Suprema Corte decida a respeito dos direitos de casamento de mesmo sexo.

A ex-secretária de Estado Hillary Rodham Clinton postou recentemente --17 anos após seu marido ter apoiado a Lei de Defesa do Casamento-- um vídeo apoiando o casamento de mesmo sexo. Nenhum outro candidato democrata potencial à presidência em 2016 apresentou uma posição contrária ou deverá fazê-lo. O senador Rob Portman de Ohio, um candidato à chapa presidencial republicana, anunciou que apoiaria o casamento de mesmo sexo após descobrir que seu filho adulto era gay.

O ritmo das mudanças continua surpreendendo os defensores do casamento gay.

Frank disse que, em sua juventude, percebeu que se sentia pessoalmente atraído por homens e profissionalmente pelo governo. Ele presumiu que o primeiro impediria o segundo. "A esta altura", concluiu, "acho que minha atração sexual por homens é politicamente mais aceitável do que minha atração pelo governo".

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