Adão e Eva, Caim e Abel: sobre relações incestuosas e falsificadas

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20 Março 2013

Na chuvosa manhã de quarta-feira, 20-03-2013, o exegeta belga André Wenin deu prosseguimento ao curso Aprender a ser humano. Um estudo de Gênesis 1 – 4, analisando os capítulos 3 e 4 do Gênesis, que contam a história de Caim e Abel. Tal narrativa manteve sua força e densidade através dos séculos da história ocidental, demonstrando a violência que é constitutiva mas que aniquila com a vida humana. A partir dessa reflexão, porque será que o adágio “homo homini lupus”, ou seja, “o homem como lobo do homem” permanece tão atual, tomando em consideração a narrativa do Gênesis, questionou o estudioso.

O narrador da história de Caim e Abel não observa senão o essencial, assegura Wenin. Ele prefere ser sucinto, quase que em demasia, porque deseja a implicação do leitor. Se o narrador disser tudo, o leitor não precisa se implicar. Tal texto é verdadeiramente uma narrativa mítica, que fala de uma história que pode ser a nossa própria com nossos irmãos, filhos, pais e pessoas violentas ou vítimas da violência.
A estrutura do texto é relativamente simples, e evidencia a transformação que acontece nessa narrativa. A história começa com o nascimento de Caim, que se torna um agricultor. Ele é o personagem principal, presente na narrativa desde seu começo. Adonai (Deus) não olha para Caim e o faz de propósito, para fazê-lo refletir. Contudo, Caim não corresponde ao que Deus quer dele, e mata seu irmão Abel. Adonai volta a falar a Caim sobre o assassinato que ele cometeu. Deus diz que o solo não produz mais frutos porque ele é maldito, e que se tornará um errante, sem terra ou pátria.

Para Wenin, importa ressaltar nesse texto a presença de elementos como o limite, a falta, a dificuldade em assumir a responsabilidade, a sentença de Deus e a execução do castigo com o afastamento de Caim, levando-o para o Leste do Eden. Qual é o efeito do paralelismo entre a narrativa do fruto proibido e do fratricídio? “É um modo de dizer que nos dois casos são coisas análogas. São erros diferentes, mas as narrativas têm analogias entre os erros cometidos. A proximidade está na própria natureza do erro cometido”, pondera o exegeta. A maior parte dos comentadores não fala nada sobre o início do texto, a respeito dos versículos 1 e 2. O modo de contar é que conduz a certo sentido, assegura Wenin.

Relações falsificadas

Abel é apresentado como uma continuação de seu irmão irmão Caim. Em hebraico, Abel significa vapor, fumaça. Esse menino nomeado como algo tão fugaz era alguém “inconsistente e sem peso. Um filho que não ocupa lugar e não tem espaço na família. Isso significa que mesmo que Caim tivesse um irmão, este não vem interpor-se entre sua mãe e ele, posto que não era dotado de consistência”. A relação fusional entre a mãe Eva e Caim vai permanecer assim apesar da chegada do irmão mais novo. Segundo Wenin, “a fusão incestuosa entre Eva e Caim vai manter-se intocada, pois nem o pai e nem o irmão tem lugar nessa relação. Trata-se de relações falsificadas: o homem domina a mulher e essa reage apegando-se ainda mais ao filho, anulando o marido. O homem preenche sua falta com a mulher, e esta com o filho. Esse é o mecanismo da cobiça no Antigo Testamento. Caim é vítima de uma violência, pois é uma criança que serve para preencher a falta da mãe”. Observem, também, que isso é percebido como uma coisa bela. No início do texto, temos uma dupla violência que não é percebida:

1) o excesso de amor endereçado a Caim, objeto de ligação e posse com a mãe;

2) a falta de amor endereçada a Abel, que não é levado em conta. Estamos diante de uma história na qual os papéis são falsos e nada disso se percebe, pois trata-se de uma “bela família”.

Contudo, adverte Wenin, a violência começa, sempre, atrás de uma aparência normal. “Acusam-se aqueles que derramam o sangue, mas a violência que não é vista como ato fundamental é aquela que os levou a agir dessa forma”, acrescenta.

Relação incestuosa e fusional

Caim é um pouco de todos nós, pois todos sentimos inveja e cobiça. Olhando pela ótica de Caim, vimos que ele foi vítima de excesso de amor, além de estar envolvido em uma relação fusional com sua mãe. O que Deus faz é com que outra pessoa externa à mãe e ao filho “exista”, e por isso dá peso a alguém que não o tinha antes - Abel. Deus faz com que o irmão passe a existir, a fim de romper a relação incestuosa entre Eva e Abel. Deus faz com que Abel exista ao lado de Caim. Sem olhar Caim, Deus cria a falta nele. “O que Deus fez foi criar as condições para que Caim possa sair da fusão com sua mãe. Para poder entrar em relação, adverte Wenin, é necessária a falta, o desejo, para que haja um desejo de algo novo. Esse desejo vem de uma falta. Ao mesmo tempo em que Deus cria uma falta, faz com que Abel passe a existir”. É uma espécie de ar novo que Deus traz para Caim naquele momento.
Quando olhamos as coisas dessa forma, e assumimos esse recuo em relação ao texto, conseguimos ver as coisas como Caim havia percebido. Quando assumimos esse recuo sem nos colocar no lugar de Caim, podemos ver o texto de outra maneira. O que Deus faz é justo com Abel, e dá uma chance a Caim de viver a fraternidade, porquanto até aquele momento ele viveu somente de modo paralelo ao seu irmão.

Caim está fechado em seu sofrimento, e Deus convida-o a sair desse presente sofrido para olhar seu passado e compreendê-lo, mirando o futuro e pensando no que fazer. Deus põe o dedo na ferida no sofrimento e propõe que Caim saia dele de uma forma ou outra. Deus não dá lição de moral: pelo contrário, ele faz perguntas. Quando Deus pergunta por que as faces de Caim “caíram”, ele convida-o a refletir.

Segundo nascimento

Se Caim não conseguir dominar o animal (serpente) que existe dentro de si, sucumbirá à sua animalidade, violência, e não cumprirá a missão primeira que Deus destinou aos homens: dominar os animais. Caim não consegue falar sobre seu sofrimento, e então mata seu irmão. Assim, aqueles que seguem o caminho de Caim são como animais, sem palavras, que não falam. O animal reage e mata. E é por não poder falar, por não conseguir se expressar e responder à questão de Deus que Caim matou.

De certa forma, em Caim o seu sofrimento e cobiça se expressavam sem limites ou freios. Poderíamos perguntar por que razão ele mata Abel, pois poderia ter escolhido matar a Deus, por exemplo. Matar Abel é estranho, provoca Wenin, porque Abel não fez nada contra ele. Isso porque Caim acredita que seu problema não está em si, mas no irmão. Se Abel não existisse, Deus olharia para ele. Eliminando Abel, tudo ficaria bem, então. O problema, contudo, está dentro de Caim. Foi isso que Deus tentou fazer com que ele compreendesse. A solução para resolver o problema estava em si próprio.

Na segunda parte da história, Adonai (Deus) não deixou Caim abandonado enquanto sofria, e nem mesmo quando ele mata. Adonai pergunta por Abel, mas Caim responde que não sabe dele, provocando se acaso ele seria o guardião do irmão. “Deus não dá uma lição de moral, mas convida Caim a se explicar. Contudo, ele se recusa ao diálogo, tentando negar seu irmão em sua palavra. Caim elimina Abel em sua palavra após tê-lo feito em ato. Há uma espécie de confirmação do assassinato na palavra de Caim”, analisa Wenin. Deus faz, então, outra pergunta: “o que fizeste”? Essa expressão, em hebraico, é usada por tribunais, quando juízes questionam o culpado, o réu, para que ele confesse a sua falta. Quando Deus lhe pergunta isso, designa Caim como réu a quem ele convida a se explicar. Tratando-o como culpado, continua dizendo que um grito vem do sangue derramado.

O segundo nascimento de Caim se dá quando ele “sai” do círculo de habitação com a mãe. Ali ele pode ser uma pessoa autônoma. Caim fracassa em ser irmão de Abel. É um irmão que nunca se torna irmão. É a história de alguém que tem um irmão, mas que nunca vai sê-lo verdadeiramente, pois ele o percebe como alguém que o priva de sua realização de felicidade. Contudo, há sempre a possibilidade de se criar a fraternidade, mas é preciso esta que seja construída. “Trata-se de um projeto ético de construção de humanidade, para retomarmos as palavras de Paul Ricoeur”.

Reportagem: Márcia Junges

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