Vatileaks: ''Paolo Gabriele foi um dos 20 corvos. Foi uma operação de transparência na Igreja''

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08 Março 2013

"O mordomo do papa, Paolo Gabriele, não é o único corvo do Vaticano. Os corvos foram muitos. Mais de 20 pessoas, todas ligadas à Santa Sé. São mulheres e homens, leigos e prelados. Se fizemos com que os documentos saíssem do Apartamento do papa, com a ajuda de Paolo Gabriele, foi para realizar uma operação de transparência na Igreja. Agora, após a renúncia de Bento XVI ao pontificado e na véspera do conclave, o caso Vatileaks continua dominando a cena". "E, para nós, chegou o momento de voltar a falar".

A reportagem é de Marco Ansaldo, publicada no jornal La Repubblica, 07-03-2013. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

A mesa da varanda de um bar em Parioli, em Roma, longe do Vaticano e de olhos curiosos. Uma mão que atormenta um anel de ouro com o brasão papal. A pessoa que fala é crente, fidelíssima à Igreja, tem um perfeito conhecimento da máquina vaticana, dos seus protagonistas e tem distintas competências em matéria financeira. Sem nomes, como é óbvio. Até esmo o mordomo do papa permaneceu por muito tempo desconhecido. Mas a "fonte Maria", que no passado já havia fornecido à mídia cartas e documentos, é, além disso, um nome coletivo.

Eis a entrevista.

Em época de conclave, os corvos voltam a voar?


Eu sou um ex-corvo.

Ou seja?

Não há mais papas a defender ou verdades a trazer à tona. Está tudo no relatório secreto compilado pelos três cardeais idosos.

O que há dentro dele?

Eu sei qual foi a metodologia e, principalmente, o escopo desse relatório.

Qual?

Os documentos vazados levaram a uma atmosfera de todos contra todos na Cúria. E o papa queria entender o que estava acontecendo, e se o mau humor que havia levado aquelas pessoas a utilizar o seu mordomo havia sido a alavanca de um desconforto maior.

No relatório, há a história do lobby gay...

Muito verdadeira. Pode apostar. Eu poderia dar nomes e sobrenomes de cardeais e monsenhores, de bispos e autoridades. Dos andares superiores da Secretaria de Estado a dicastérios de primeira fila.

O que mais há?

Questões financeiras relacionadas ao IOR. Bento XVI confiava muitíssimo na operação de transparência que Ettore Gotti Tedeschi podia fazer. E no momento em que este foi desacreditado, ele pediu as razões disso. As respostas foram insatisfatórias, e a sua reação foi de abrir uma comissão de investigação que lançasse plena luz.

Falou-se de muitas pessoas que estavam atrás do corvo: cardeais, leigos, homens e mulheres em contato quase cotidiano com Bento XVI. Quem são os mandantes da operação Vatileaks?

Nós falamos, assim como o mordomo, com a imprensa. Mas se podemos falar de mandantes, são outras as esferas que devem ser procuradas. Bem mais altas. Muito mais próximas do pontífice do que nós.

Existem outros documentos além dos que já surgiram?

Sim.

Poderia sair outro livro de Gianluigi Nuzzi baseado nas cartas?

Sim.

Com documentos entregues por Paolo Gabriele ou com outras cartas?

Eu só sei que o livro Sua Santidade não contém todos os documentos de posse de Nuzzi, mas que há outros.

Mas como vocês trabalharam para vazar as cartas?

É preciso dar um passo atrás, há cerca de alguns anos, no momento em que o Santo Padre decidiu realizar, através de Dom Carlo Maria Viganò, uma operação de racionalização das atividades econômicas da Santa Sé, unida à obra de transparência confiada a Gotti no IOR.

E o que aconteceu?

A operação de Viganò foi obstaculizada porque, no fim, foi considerava lesiva contra determinados equilíbrios dentro das instituições sujeitas à verificação. Assim nasceu um lobby no Vaticano, composto por pessoas que trabalhavam entre o Governatorato, a Apsa [Administração do Patrimônio da Sé Apostólica], a Secretaria de Estado, a Biblioteca, o Arquivo, os Museus, a CEI [Conferência Episcopal Italiana], o L'Osservatore Romano, que começou a dialogar. Nós pensamos que tornar conhecido o que acontecida na Cúria podia ser uma forma para despertar a opinião pública sobre determinados temas, desencadeando uma operação de limpeza que levaria à transparência. E o mordomo, que fisicamente tinha as cartas nas mãos, as entregou a Nuzzi, que havia contatado. Tentamos ajudar o papa.

Mas o papa teve que renunciar. E há quem diga que não foi apenas por razões de saúde, mas também por críticas e amarguras. E talvez o escândalo Vatileaks também tenha tido a sua parte.

O papa não renunciou por causa do Vatileaks. Nem por causa das pressões. Ao contrário, a sua presença continuava justificando um determinado costume, que, ao invés, Joseph Ratzinger queria desmantelar.

A sua renúncia, portanto, é uma derrota ou uma vitória?

É um desafio. À Igreja Católica e à Cúria, para que façamos direito. E para realizar o que ele não conseguiu: uma Igreja livre, forte e transparente. Livre de interesses privados, incluindo de alguns cardeais. Livre do jogo de xadrez da "mau gestão" que nos últimos anos caracterizou algumas operações do IOR. Por uma Igreja capaz de voltar a falar aos fiéis. Os mesmos fiéis que hoje não vão mais à igreja. Será uma derrota se determinados equilíbrios se mantiverem. Uma vitória, se o gesto extremo do pontífice marcar o fim de um declínio, dando uma oportunidade ao seu sucessor de recomeçar do zero.

Mas agora as tensões estão aumentando.

Porque muitos cardeais querem conhecer o relatório. E a tentativa de quem quer bloquear tudo é de dizer: não se deixem influenciar, porque é um discurso desvinculado dos problemas da Igreja. Eles desencadearam uma caça às bruxas, enquanto, ao invés, a Relatio refere-se à relação com os fiéis, ao IOR, à imagem da Santa Sé.

Vocês finalmente alcançaram o seu objetivo?

Só poderemos saber no momento em que sair o novo papa. Se ele levar à realização da transparência, então sim. Se, ao invés, o Vatileaks se resolver no costumeiro "tudo muda para que nada mude", então terá sido um fracasso.

Quando o novo papa for eleito, o que vocês, corvos, irão fazer?

Permaneceremos a serviço da Igreja e do pontífice. Continuando a explicar, onde quer que seja necessário, certas dinâmicas. Mas espero que não haja mais necessidade dos corvos para falar com o mundo.

Missão cumprida?

Depende de quem vai ser eleito papa, por qual facção será votado e de quem estará à frente da próxima Secretaria de Estado.

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