Jogo das trocas e a troca dos jogos: a mercantilização da cidade

Revista ihu on-line

Diálogo interconvicções. A multiplicidade no pano da vida

Edição: 546

Leia mais

Cultura Pop. Na dobra do óbvio, a emergência de um mundo complexo

Edição: 545

Leia mais

Revolução 4.0. Novas fronteiras para a vida e a educação

Edição: 544

Leia mais

Mais Lidos

  • Pedro, alguém que nos fez acreditar na grandeza de sermos Rede

    LER MAIS
  • As mulheres e o futuro da Igreja. Artigo de Joseph Moingt

    LER MAIS
  • Dano colateral: “o pior dos monstros” está se propagando e não é o coronavírus

    LER MAIS

Newsletter IHU

Fique atualizado das Notícias do Dia, inscreva-se na newsletter do IHU


Por: Jonas | 07 Março 2013

Uma edição especial do tradicional jogo de tabuleiro “Banco Imobiliário”, carregada de elogios a obras e programas do prefeito da cidade, Eduardo Paes (PMDB), está sendo distribuída em escolas públicas municipais do Rio de Janeiro. Por trás da notícia, a estratégia – consciente ou inconsciente – de construção de uma cultura urbana na qual os bens e os espaços públicos e todos os bens pessoais devam ser pensados, antes de tudo, como mercadoria, como fonte de lucro privado. Trata-se, portanto, de uma ação de longo efeito na busca do consentimento social para a política que junta os negócios políticos com os negócios privados pela ampla e profunda mercantilização da cidade.

A esse respeito, segue, abaixo, a opinião dos professores Luiz César de Queiroz Ribeiro e Orlando Santos Júnior, em artigo publicado no sítio Observatório das Metrópoles, 07-03-2013.

Eis o artigo.

A revelação da operação entre a fábrica de brinquedos Estrela e a Prefeitura do Rio de Janeiro pode ser considerada como um escândalo. Ao custo de R$ 1,05 milhões, a prefeitura comprou 20 mil unidades de uma edição especial do tradicional jogo Banco Imobiliário, denominado “Banco Imobiilário: Cidade Olímpica”, tendo, no tabuleiro e nas cartas, monumentos da cidade, e obras e programas desenvolvidos na gestão do prefeito Eduardo Paes. O objetivo é distribuir o jogo nas escolas públicas municipais e dá-lo como prêmio aos melhores alunos. Segundo a Prefeitura, o brinquedo vai divulgar a imagem da cidade e pode ser usado de forma pedagógica, auxiliando “o aluno no aprendizado da história e geografia da cidade”.

Primeiramente, cabe refletir sobre a parceria estabelecida entre o poder público e uma empresa privada. A Prefeitura do Rio admite que a empresa Estrela, que produz o tradicional Banco Imobiliário, entrou em contato com a administração municipal e apresentou o projeto do jogo. A prefeitura autorizou a cessão do uso da imagem e ainda pagou para comprar as unidades que estão sendo distribuídas nas escolas, utilizando recursos do Fundeb (Fundo de Manutenção e Desenvolvimento da Educação Básica). A relação estabelecida nesse caso parece ser a mais clara expressão das frequentes, duvidosas e opacas parcerias entre os negócios políticos, liderados pela equipe que governa a cidade, e os negócios privados, liderados por grandes grupos econômicos.

Mas o produto dessa parceria tem alcance mais profundo, e seu significado vai muito além de uma possível ilegalidade administrativa, em razão da origem das verbas e da ausência de processo licitatório, e por ferir a legislação eleitoral, por fazer propaganda política subliminar. No contexto da preparação dos megaeventos esportivos da Copa do Mundo e das Olimpíadas, o jogo promove uma relação mercantil da população com a cidade e integra uma estratégia – consciente ou inconsciente - de construção de uma cultura urbana, na qual os bens e os espaços públicos devam ser pensados, antes de tudo, como mercadoria, como fonte de lucro privado. O objetivo, portanto, é socializar as crianças nesta cultura mercantil e mercantilizadora da cidade, desfazendo os laços de ligação da população com o Rio de Janeiro como riqueza coletiva, como patrimônio coletivo, o qual deve, antes de tudo, estar a serviço dos sonhos e desejos dos habitantes.

Como já lembrava Karl Polanyi em 1944, “permitir que o mecanismo de mercado seja o único dirigente do destino dos seres humanos e do seu ambiente natural, e até mesmo o árbitro da quantidade e do uso do poder de compra, resultaria no desmoronamento da sociedade […]. Entretanto, nenhuma sociedade suportaria os efeitos de um tal sistema […], mesmo por um período de tempo muito curto...”. Caberia ao poder público proteger a sociedade “contra os assaltos desse moinho satânico”.

Jogando o aparente inocente brinquedo das trocas, pode-se refletir: não se está levando as crianças a internalizarem como natural e desejável a concepção mercantil de mundo, segundo a qual toda vida social deve ser mediada pelo jogo da troca econômica? Não se está trocando os registros do imaginário coletivo, anulando os valores sociais, culturais, cívicos e históricos de todos os bens da cidade, públicos e privados, necessários à construção do sentido de comunidade política que a cidade deve expressar? Não se está sinalizando para os futuros adultos que a única – ou pelo menos a principal – unidade possível de bem-estar é o livre mercado, fundado nos preços e na apropriação privada e egoísta da cidade? Se tal empreitada se realiza, como se pode discutir a cidade a partir de critérios de justiça social e de liberdade emancipadora?

Trata-se, portanto, de uma inversão de papéis, na qual o poder público atua como uma empresa, e passa a ser protagonista na promoção da imagem e do mercado de compra e venda da cidade, reduzida a um negócio. Nesse sentido, a fabricação e distribuição do jogo “Banco Imobiliário: Cidade Olímpica” aparece como uma estratégia de construção do consentimento ativo da população para o avanço da política mercantilizadora da cidade, baseada na união de negócios políticos e negócios privados. Estamos diante de mais uma variante das estratégias de “construção ativa do consentimento” para a legitimação da concepção neoliberal do mundo em sua longa marcha de mercantilização de todos os âmbitos da vida, como já observou David Harvey. Desta forma, pretende-se difundir a cultura mercantil necessária à construção do cidadão-investidor, cidadão-negociante, desconstruindo as bases éticas e “atitudinais” da cidadania como expressão de engajamento cívico e político dos futuros adultos. O risco é enfraquecer a energia que move a vida cotidiana dos habitantes da cidade, com suas experiências fundadas em costumes, obrigações sociais, passado e memória, esperanças, desejos, alegrias e tristezas, pela fria lâmina do cálculo egoísta, próprio dos jogos dos aventureiros negociantes, que buscam transformar tudo em mercadoria e fonte do enriquecimento privado.

É hora de sair desse jogo dos negócios pelo qual a cidade vem se transformando em bem-estar corporativo em detrimento do bem-estar da coletividade dos seus cidadãos.

Comunicar erro

close

FECHAR

Comunicar erro.

Comunique à redação erros de português, de informação ou técnicos encontrados nesta página:

Jogo das trocas e a troca dos jogos: a mercantilização da cidade - Instituto Humanitas Unisinos - IHU

##CHILD
picture
ASAV
Fechar

Deixe seu Comentário

profile picture
ASAV