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Por: Jonas | 15 Fevereiro 2013

“O problema da Igreja não é o papa, é o papado, da forma como está organizado e como funciona, independente de quem seja o homem que ocupa o trono papal”, escreve José Maria Castillo, teólogo espanhol, autor de inúmeros livros, inclusive traduzidos para o português, em artigo publicado em seu blog Teologia sin Censura, 12-02-2013. A tradução é do Cepat.

Eis o artigo.

Entre os numerosos comentários, que logicamente a notícia da renúncia do papa Bento XVI está suscitando, sinto falta de uma reflexão que, no meu modo de ver, parece ser a mais importante, a mais urgente, a que mais pode (e deveria) influir no futuro da Igreja e em sua possível influência para o bem deste mundo tão atormentado no qual vivemos. Refiro-me à reflexão que distingue entre o que é e representa a pessoa do “papa”, por um lado, e o que é e representa a instituição do “papado”, por outro.

Evidentemente, ninguém duvida que seja importante analisar, avaliar e saber valorizar os acertos e desacertos que o papa Ratzinger teve em seus anos de pontificado. É evidente, também, que certamente é ainda mais importante propor e saber escolher o homem mais competente que, neste momento, teria que ocupar o cargo de Sumo Pontífice. Ninguém duvida de tudo isso pois é de enorme interesse nestes dias.

Contudo, por mais importante que seja avaliar as pessoas, tanto do passado como do possível futuro imediato, ninguém colocará em dúvida – pelo que me parece – que seja muito mais determinante se deter em pensar sobre o que representa, e o que deveria representar, não este papa ou o outro, mas aquilo que realmente é e faz a instituição que, de fato, é o papado, da maneira como é organizada, como funciona, e como é administrada, independente de quem seja o papa que a presidiu ou que a pode presidir.

Porque, vamos ver, é o melhor para a Igreja que todo o poder para governar uma instituição, a qual pertence mais de 1, 2 bilhão de seres humanos, esteja concentrado num só homem, sem mais limitações a não ser as impostas pela própria crença desse homem, que ocupa o papado? Da forma como está disposto no vigente Código de Direito Canônico, é assim que está pensado, legislado, e assim funciona o papado (can. 331; 333; 1404; 1372). Porque, entre outras coisas, o papa retira e nomeia os mais altos e mais baixos cargos da Cúria. Retira e coloca cardeais, bispos e cargos eclesiásticos de toda índole. E faz tudo isto sem ter que dar explicações a ninguém, sem que ninguém possa lhe pedir responsabilidades. Além do mais, tudo se mantem desta forma, independente de quem seja o papa reinante, da idade que possua, da saúde que goze ou padeça, de sua mentalidade, preferências e até de suas possíveis manias.

Além disso, não abrimos mão, ingenuamente, da presença do Espírito Santo e de sua suposta constante inspiração na tomada de decisões do papa reinante. Não. Essa suposta intervenção do Espírito Santo não está demonstrada em nenhuma parte. Como também não está demonstrado, nem há argumentos para provar, que o bispo de Roma, por mais que seja sucessor de Pedro, precise acumular todo o poder que o Papa e seus teólogos incondicionais garantem que acumula por vontade de Deus.

Em que lugar está dito isto? Em quais argumentos se baseia? O cardeal Y. Congar, o melhor conhecedor de toda esta história, com o qual a Igreja pôde contar no último século, deixou escrito em seu diário pessoal que tudo isso era uma manipulação organizada pelos interesses de Roma, cujas raízes chegam até o século segundo da história do cristianismo.

Em todo caso, o certo é que, em todo o Novo Testamento, em nenhuma parte consta que a Igreja precise estar organizada desta forma e assim tenha que ser administrada. E, por favor, que ninguém me venha agora com o famoso texto de Mt 16, 18-19. Entre os melhores estudiosos do Evangelho de Mateus, a cada dia aumenta o número daqueles que afirmam que essas palavras não saíram da boca de Jesus. É um texto “redacional”, muito posterior ao texto original, acrescentado ao Evangelho pelo último redator do texto que nos chegou.

Enfim, por hoje, basta o que foi dito. Continuaremos falando destas coisas nos próximos dias. Todavia, parece-me importante terminar dizendo que a Igreja está, precisamente nestes dias, num momento privilegiado para enfrentar sem medo estas questões que apontam para problemas de fundo, que ela ainda não resolveu. Se não forem enfrentados e levados a sério, esta Igreja continuará perdida (e calada), por mais lúcido e mais valioso que seja o futuro papa. Porque, insisto, o problema da Igreja não é o papa, é o papado, da forma como está organizado e como funciona, independente de quem seja o homem que ocupa o trono papal.

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