A renúncia sem precedentes de Bento XVI

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13 Fevereiro 2013

Domingo, eu esperava escrever uma atualização sobre a resposta dos bispos dos EUA às revisões do mandato HHS [Departamento de Saúde e Serviços Humanos, na sigla em inglês]. E, em busca de informações sobre o cardeal Ercole Consalvi, o maior secretário de Estado da história da Santa Sé, lembrei-me das circunstâncias da eleição do Papa Pio VII. Seu antecessor, Pio VI, morreu em agosto de 1799, prisioneiro de Napoleão. A cidade de Roma havia sido proclamada República, forçando o conclave a se reunir em Veneza, sob a proteção do imperador austríaco. O conclave começou suas deliberações no dia 30 de novembro de 1799, e, dadas as altas apostas políticas e eclesiásticas, os cardeais entraram em um impasse. Só no dia 14 de março é que Barnaba Chiaramonti foi eleito novo papa.

A reportagem é de Michael Sean Winters, publicada no sítio National Catholic Reporter, 11-02-2013. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

A notícia da renúncia do Papa Bento XVI pode levar a Igreja ao conclave mais interessante desde aquele conclave de 1799-1800. Não haverá as pressões políticas das cabeças coroadas da Europa que existiam à época – após o conclave de 1903 que elegeu o Papa Pio X, o direito de certos monarcas de vetar um candidato foi levado ao fim. Mas a situação eclesiástica certamente será tão controversa como muitos conclaves anteriores, e, dada a qualidade praticamente sem precedentes da decisão do Papa Bento XVI de abdicar, essas tensões incluirão algumas novas dinâmicas.

Quais são as dinâmicas-chave, tanto imediatos quanto de longo prazo? A mais óbvia é que a decisão de renunciar pode ser a decisão mais modernizante que o Papa Bento XVI já tomou. (Pergunta rápida: quem é a pessoa que ficou mais chateada com a decisão? A rainha Elizabeth II. Você pode apostar que ela recebeu um telefonema do príncipe Charles na manhã dessa segunda-feira, perguntando se ela estava assistindo a televisão!) Em um único momento, o papa removeu um pouco da aura do papado, a ideia de que era uma vocação ao invés de um ministério, algo que não pode ser abandonado sem, de alguma forma, afrontar o Espírito Santo. Hoje, o papa indicou que o ministério petrino é um ministério, um ministério muito específico, na verdade, mais um trabalho do que um voto.

A segunda reação imediata é que o Papa Bento XVI precisa dar cada passo muito cuidadosamente nos próximos dias e semanas. Cada passo será um precedente. E os cardeais são muito ciumentos de suas prerrogativas na escolha de um novo papa. O anúncio não detalhou o que o Santo Padre fará entre agora e a escolha do seu sucessor, mas ele está bem aconselhado a ir imediatamente para Castel Gandolfo (será que tem aquecimento?) ou algum outro local longe do Vaticano e a deixar os cardeais a assumirem o seu papel tradicional.

Qualquer sinal de interferência papal na seleção de um sucessor será visto com profunda desconfiança. Você pode comparar a situação quando considera a forma como os presidentes, independentemente do seu partido, ficam ansiosos para proteger o privilégio executivo em suas relações com o Congresso. Algumas coisas transcendem os alinhamentos normais da atitude ideológica e dos laços familiares, e o direito do Colégio dos Cardeais a escolher um novo papa é uma delas.

A consideração-chave em todo conclave é saber se é preciso escolher um cardeal cuja candidatura sugere continuidade ou alguém que possa liderar a Igreja em uma direção nova e diferente. Os italianos têm um ditado para isso: depois de um papa gordo, um papa magro. Em 1800, Pio VII foi escolhido e, sob as circunstâncias mais difíceis, mostrou-se um moderado, um diplomata, alguém que sempre manteve seus olhos sobre o bem da Igreja e estava disposto a fazer qualquer coisa exceto violar a sua consciência para promover o bem da Igreja. Seu sucessor, o cardeal Gabriel della Genga, que assumiu o nome Leão XII, foi o candidato dos zelanti, aqueles que queriam menos acomodações com realidades mais novas e um retorno para a aliança do trono e do altar.

Após o longo reinado de Pio IX, que encarnou a postura zelanti depois de flertar com a modernidade nos dois primeiros anos de seu reinado, os cardeais se voltaram para o cardeal Giuseppe Pecci, em 1878, que assumiu o nome de Leão XIII, e Leão foi visto como um líder da ala diplomática da Igreja. Leão foi sucedido pelo cardeal Giuseppe Sarto, Pio X, que se mostrou um zelanti, mas foi eleito por outras razões.

No entanto, uma vez que ele se mostrou muito oposto a todas as tentativas de modernização, os novos cardeais se voltaram para o cardeal Della Chiesa, que tinha caído nas más graças de Pio X, produzindo o meu momento favorito de todos os tempos na história papal. O secretário de Estado de Pio X, o cardeal Merry del Val, havia exilado Della Chiesa para Bolonha e passou por cima dele na entrega dos barretes vermelhos nos três consistórios consecutivos. Della Chiesa só recebeu o seu chapéu cardinalício apenas três meses antes da sua eleição.

Quando o cardeal Merry del Val se aproximou do novo papa para fazer o seu voto de obediência, Bento XV se inclinou para frente e disse: "A pedra que os construtores rejeitaram tornou-se a pedra angular". O cardeal Merry del Val respondeu: "É maravilhoso aos nossos olhos".

Normalmente, os ritos fúnebres para um papa falecido permitem aos cardeais um momento em que eles podem avaliar o reinado anterior e o que a Igreja precisa. Publicamente, essa avaliação é dominada por uma grande quantidade de hagiografia, mas, privadamente, os cardeais levam em consideração as limitações do pontífice recentemente falecido. Não está claro como essa avaliação vai acontecer quando o Santo Padre ainda está por aí.

Novamente, é por isso que o Santo Padre deve se ausentar de todos os procedimentos e permitir que os cardeais falem livre e francamente sobre o que a Igreja precisa. Todos nós sabemos que, por algum tempo, membros do alto escalão do Vaticano ficaram angustiados com a falta de uma gestão eficaz com Bento XVI. É uma aposta segura que o cardeal Tarcisio Bertone, secretário de Estado, não vai receber muitos votos.

É muito cedo para escrever uma apreciação sobre Bento XVI. É melhor dizer: esse homem fascinante, que poderia muito bem ser a figura pública mais pensativa, culta, profundamente erudita do nosso tempo, merece mais do que um rápido post de blog, escrito às pressas. Também é um pouco cedo para considerar os principais candidatos dentre os cardeais.

Como sempre, o arcebispo de Milão é, de fato, um candidato, e o cardeal Angelo Scola certamente é o nome mais comumente mencionado entre os cardeais. Mas Scola também vai enfrentar oposição. E, como no conclave de 1922, os cardeais estão profundamente divididos e podem se voltar para um candidato que seja pouco conhecido e, portanto, sem inimigos: o cardeal Ambrogio Damiano Achille Ratti passou de chefe da Biblioteca Ambrosiana, para cardeal-arcebispo de Milão e para papa em menos de um ano.

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