Renúncia papal: uma questão de consciência. Artigo de Mary Hunt

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14 Fevereiro 2013

"Se um papa pode abdicar antes de ser carregado para fora sem que o céu caia sobre nós, então novos modelos igualitários de Igreja também podem e vão emergir".

A opinião é da teóloga norte-americana Mary E. Hunt, cofundadora e codiretora da Women's Alliance for Theology, Ethics and Ritual (Water), nos EUA. Também é autora do Cadernos Teologia Pública n. 66, intitulado Discurso feminista sobre o divino em um mundo pós-moderno.

O artigo foi publicado no sítio Religion Dispatches, 11-02-2013. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Eis o texto.

O inesperado anúncio da renúncia do Papa Bento XVI é uma bem-vinda lufada de ar fresco. Um ser humano, mesmo sendo papa, deve ter a opção de dizer "basta, eu fiz o que pude, e agora é hora de outra pessoa assumir". Eu aplaudo a sua medida e a leio como um sinal de esperança em uma triste cena eclesial.

As especulações sobre a saúde são crescentes. Tal como acontece com muitos idosos cujos filhos armam complôs para levar as chaves do carro, eu suspeito que houve algum lobby por trás dos panos para fazer com que essa renúncia acontecesse. Mas eu me atrevo a esperar que, ao menos em parte, esse tenha sido o juízo ponderado de um octogenário que viu o seu antecessor amparado por muito tempo depois do seu auge e não quis o mesmo para si mesmo.

Mas antes de olhar para o pano de fundo, há algo na declaração de renúncia de Bento XVI que vale a pena ressaltar: "Depois de ter examinado repetidamente a minha consciência diante de Deus, cheguei à certeza de que as minhas forças, devido à idade avançada, já não são idôneas para exercer adequadamente o ministério petrino".

A consciência, Bento XVI nos lembra hoje, ainda é primordial para os católicos. Exame de consciência: essa apenas é a fórmula que milhões de nós usamos para explicar por que usamos o controle de natalidade, desfrutamos da nossa sexualidade em uma grande variedade de formas e vemos o enorme bem em outras tradições religiosas. A consciência é o árbitro final, e o papa confiou na sua. Bom para ele e bom para o restante de nós.

Houve um monte de falsificações na questão da consciência nas últimas décadas. A hierarquia pós-Vaticano II reivindicou que a consciência é primordial se, e somente se, for formada como convém a eles. Mas o Papa Bento XVI está dando à consciência um novo sopro de vida. O que é bom para um é bom para o outro – o apelo à consciência não pode ser negado agora que o próprio papa recorreu a ele.

Outra concessão: só porque um papa não renunciava desde Gregório XII em 1415 não significa que isso não possa ser feito. Nada é para sempre. Muito do que passa como "é assim mesmo" em Roma é realmente apenas costume – como não ordenar mulheres, afirmar que o controle de natalidade é um pecado, considerar o amor entre pessoas do mesmo sexo como moralmente desordenado e afins. Os costumes mudam. Os relações-públicas romanos dizem: "Na plenitude da revelação tal e tal coisa passam a valer agora". Então, o novo emerge como "é assim mesmo", e a vida continua. Espero plenamente que o próximo papa seja do mesmo porte deste, mas não há como frear a sensação de que a pressão para mudar os costumes é simplesmente avassaladora.

As notícias do anúncio papal incluem o fato de que muitos dos cardeais no consistório em que Bento XVI silenciosamente deu a notícia não entenderam imediatamente as suas palavras, porque elas foram ditas em latim. Uma rápida tradução em seus iPads certamente retificaria essa situação. Mas é fascinante notar que muitos dos 118 cardeais que vão eleger o seu sucessor não são competentes o suficiente na antiga língua para entender "Quapropter bene conscius ponderis huius actus plena libertate declaro me ministerio Episcopi Romae, Successoris Sancti Petri, mihi per manus Cardinalium die 19 aprilis MMV commissum renuntiare ita ut a die 28 februarii MMXIII, hora 20, sedes Romae, sedes Sancti Petri vacet et Conclave ad eligendum novum Summum Pontificem ab his quibus competit convocandum esse". Tradução rápida: até o fim do mês eu vou cair fora daqui, e vocês precisam eleger uma nova pessoa.

Isso realmente desmistifica o processo um pouco. Lição aprendida: o latim é útil, mas saber como apertar o botão de tradução é outra habilidade de que os líderes religiosos precisam. Indo mais direto ao ponto, precisamos de pessoas que possam ouvir e discernir o que significam as palavras que eles não compreendem que vêm de pessoas que eles não conhecem. Em nosso mundo bem conectado, a língua universal não é mais o latim, mas sim a escuta.

A novidade desta vez é que os católicos comuns querem uma nova Igreja, não apenas um novo papa.

Sabemos que a mudança está no ar, porque nós a colocamos lá. Os católicos progressistas de todo o mundo estão criando novas formas de Igreja, já que a velha está tão completamente desacreditada. Nenhuma instituição pode resistir sem maiores mudanças ao ataque violento de publicidade negativa que o Vaticano recebeu devido aos abusos sexuais do clero e os encobrimentos episcopais. Nenhuma hierarquia, embora fortificada, pode durar para sempre contra os passos cheios de espírito no sentido da igualdade e da justiça. Desta vez, apenas eleger um novo papa não vai ser suficiente. Nem trancar um grupo de eleitores de elite responsáveis por ninguém mais a não ser a si mesmos em um processo eleitoral.

O povo católico também tem consciência. Esperamos ter uma palavra a dizer sobre como nos organizamos e governamos a nós mesmos. Não podemos, em consciência, abdicar da nossa autoridade a 118 homens idosos em sua maioria. Esses dias acabaram. Se um papa pode abdicar antes de ser carregado para fora sem que o céu caia sobre nós, então novos modelos igualitários de Igreja também podem e vão emergir.

Mesmo que o conhecimento de latim aparentemente não seja mais necessário para a liderança, temos muitas pessoas – mulheres, homens casados, gays e lésbicas, bissexuais e transgêneros abertamente católicos – que estão "prontos e dispostos" a assumir o ministério e a liderança. Eu conheço centenas deles que já estão ativamente envolvidos em comunidades de base, paróquias, comunidades religiosas e grupos de mudança social, fazendo um trabalho maravilhoso vivendo novas formas de ser Igreja. Alguns deles até sabem latim.

O que se dá ao papa por ocasião da sua aposentadoria? Tenho certeza que ele tem mais relógios Rolex do que precisa, e os sapatos vermelhos de que ele gosta estão fora da minha faixa de preço. Mas uma nova Igreja seria exatamente a coisa certa para lhe assegurar uma velhice digna. Em vez de simplesmente se retirar silenciosamente para Castel Gandolfo, se a sua saúde lhe permitir, Joseph Ratzinger poderia desfrutar de uma boa cerveja bávara com o restante de nós, como parte de uma Igreja renovada, onde todos e todas são bem-vindos.

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