Mercosul ampliado versus Aliança do Pacífico

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Por: André | 01 Dezembro 2012

Novembro foi um mês particularmente intenso no devir geopolítico global e regional, num mundo que assiste a mudanças agudas e permanentes neste cenário. Os acontecimentos mais importantes confirmam a tendência de ampliação do Mercosul, apesar das nuvens pesadas que pairam sobre a Argentina, e de estancamento da Aliança do Pacífico, integrado por México, Colômbia, Chile e Peru.

A reportagem é de Raúl Zibechi e está publicada no jornal mexicano La Jornada, 30-11-2012. A tradução é do Cepat.

Concentrando-nos na região sul-americana, encontramos dois fatos simultâneos de enorme importância. O governo da Bolívia aceitou o convite para tornar-se membro pleno do Mercosul, cujos primeiros passos se darão na cúpula de Brasília, que inicia no dia 06 de dezembro (Reuters, 23-11-2012).

No mesmo informe, Evo Morales garantiu que o Equador recebeu similar proposta do Mercosul. Este foi o ponto mais delicado da diplomacia brasileira na região, já que a principal construtora do país, e talvez da região, a Odebrecht, foi expulsa pelo presidente Rafael Correa em outubro de 2008 devido aos graves problemas que forçaram a paralisação da recém inaugurada hidrelétrica San Francisco. Durante vários anos o papel exercido pelo Banco Nacional de Desenvolvimento (BNDES) como emprestador para obras de infraestrutura foi ocupado pela China, que financiou com dois bilhões de dólares a construção de Coca Codo Sinclair, a maior hidrelétrica equatoriana.

O Equador negou-se a pagar a dívida contraída junto ao BNDES para financiar a obra e recorreu à Câmara de Comércio Internacional (CCI), a corte arbitral internacional em Paris, para impugnar o contrato, mas perdeu a ação. Em meados do ano passado começou um processo de aproximação entre os dois países. O governo equatoriano não está de acordo com os juros que deve pagar aos chineses e as cotas de petróleo como garantia pelos empréstimos (Valor, 12-11-2012).

Em novembro, o BNDES liberou o primeiro empréstimo ao Equador desde 2008 no valor de 90 milhões de dólares para construir o projeto hidrelétrico Manduriacu, a 130 km de Quito, que foi ganho pela Odebrecht. Como costuma acontecer, o BNDES empresta o dinheiro para financiar a exportação de bens e serviços brasileiros relacionados a construções de infraestrutura (La Hora, 14-11-2012).

É apenas a primeira de um pacote de grandes obras de infraestrutura de 2,5 bilhões de dólares que o governo equatoriano ofereceu a empresas brasileiras, sempre com financiamento do BNDES (Valor, 12-11-2012). O retorno da Odebrecht ao Equador abre uma nova etapa nas relações binacionais que se intensificarão nos próximos meses, já que a hidrelétrica de Manduriacu é uma das 10 centrais hidrelétricas que o governo tem previsto construir ao longo da bacia do rio Guayllabamba.

Com a entrada da Bolívia e do Equador no Mercosul, chegará a termo o processo iniciado com a entrada da Venezuela, depois do golpe contra o presidente Fernando Lugo, em junho passado. A diplomacia brasileira já está movimentando a suas peças para o reingresso do Paraguai no Mercosul, depois das eleições presidenciais de abril. O tema será analisado nesta sexta-feira [ontem] na cúpula da União Sul-Americana de Nações (Unasul), em Lima, da qual o Paraguai também foi afastado.

Dilma Rousseff e Cristina Fernández participaram do encerramento anual da União Industrial Argentina (UIA), na quarta-feira, dia 28. O tema central do ato foi ‘Argentina e Brasil: integração e desenvolvimento ou o risco da primarização’ e foi realizado em um momento especialmente delicado para o governo argentino, acossado por uma importante greve geral e o aumento da inflação. Dilma não participou da reunião de Lima por razões de agenda interna, mas decidiu viajar a Buenos Aires, o que o seu chanceler, Antonio Patriota, interpretou como um ato de forte simbolismo (Folha de S.Paulo, 28-11-2012).

Defendeu o aprofundamento da integração binacional, que definiu como uma das mais importantes alianças no hemisfério e no mundo, os investimentos recíprocos e a cooperação em áreas estratégicas como os setores naval, espacial, nuclear, aeronáutico, televisão digital e defesa (Télam, 28-11-2012). Finalizou recordando que a Argentina é o maior mercado industrial para o Brasil e o Brasil é o principal mercado industrial para a Argentina.

Paralelamente, as Forças Armadas do Brasil e da Argentina começaram a desenvolver uma doutrina militar conjunta, começando pela elaboração de um manual de cooperação com o objetivo de fomentar a confiança em matéria militar entre dois países amigos (MinDefesa, 14-11-2012).

É evidente que o Mercosul enfrenta problemas, mas move-se para resolvê-los e o faz seguindo o ritmo e a direção marcados pelo Brasil, que representa a metade da população e do PIB sul-americano. A Aliança do Pacífico, empenho de Washington para unir os países com os quais já tem um TLC, para conter o Brasil e colocá-lo a reboque da Associação Trans-Pacífico (ATP), enfrenta tantas dificuldades quanto a própria superpotência.

Um artigo revelador de David P. Goldman, que assina com o pseudônimo Spengler, no Asia Times (27-11-2012), assinala que os Estados Unidos enfrentaram na recente cúpula da ASEAN realizada em Phnom Penh (Camboja), da qual participam 15 países asiáticos, a pior humilhação sofrida por um país. Barack Obama quis impor a ATP que exclui a China, mas os membros da ASEAN mais China, Índia, Japão, Coreia do Sul, Austrália e Nova Zelândia formalizaram uma aliança que deixa Washington de fora.

Em seu artigo “Nasce o mundo pós-USA em Phnom Penh”, Goldman defende que os líderes asiáticos convidaram Obama a dar meia volta e voltar para casa, em alusão ao pretendido reposicionamento da superpotência na Ásia-Pacífico. Embora custe a acreditar, a decadência do mundo unipolar é um fato tão evidente quanto o fortalecimento de novas alianças, inclusive no ex-quintal.

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