Homens e Deuses. Um testemunho cristão. Artigo de Gabriel Vecchi, monge trapista

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Por: André | 24 Outubro 2012

“O Pe. Christophe, de Tibhirine, disse em certa ocasião que sua comunidade, desde que se iniciaram as ameaças terroristas, vivia ‘em situação de epiclese’ [...] em situação de constante transformação em oferenda, em Eucaristia, oferta humilde, simples, mas total de suas vidas em prol de todos – cristãos, muçulmanos, pouco importa”.

A reflexão é do Ir. Gabriel A. Vecchi, OCSO, monge da Abadia Trapista de Nossa Senhora do Novo Mundo, em Campo do Tenente, Paraná, e faz parte da sua conferência pronunciada no ciclo Cinema e Espiritualidade, comentando o filme Homens e Deuses, de Xavier Beauvois (França, 2010). O ciclo é realizado pelo Cepat em parceria com a Pastoral da Universidade, da PUCPR. O evento aconteceu no dia 20 de outubro e encerrou o ciclo. Os intertítulos são nossos.

Eis a conferência.

“É impossível esquecer. Não podemos simplesmente virar a página e continuar nossas vidas como se nada tivesse acontecido. Eles não morreram em vão. Cristo amava tanto o povo argelino que deu a vida deles por ele. Nossos irmãos também, que seguiram a Jesus tão de perto, deram suas vidas”. (1) É com estas palavras, meus irmãos e minhas irmãs, que nosso ex-Abade Geral, D. Bernardo Olivera, iniciou seu livro sobre nossos irmãos de Tibhirine, cuja vida acabamos de testemunhar neste filme que assistimos. E ele prossegue: “Nossos irmãos de Atlas não estão mais entre nós. Eles partiram antes de nós e aguardam por nós, a fim de que possamos entrar todos juntos, como bons irmãos e irmãs, no Reino de Deus”. (2)

As pessoas que derramam seu sangue por causa de sua fé são chamadas de “mártires” por servirem de testemunhas, por nos apontarem o caminho a seguir. No caso dos “mártires de sangue”, este testemunho é tão radioso que não pode ser oculto sob um alqueire (para usar a imagem do Evangelho) (3), mas demanda ser exposto, a fim de iluminar toda a casa da Igreja e do mundo inteiro. Mas todo cristão é chamado a dar testemunho de Cristo, a se tornar um mártir de Jesus, onde ele se encontra. Alguns chegam a versar seu sangue fisicamente, mas todos são chamados a derramá-lo, abundante e generosamente, em nossas vidas cotidianas.

Assim, é sobre isto que desejo lhes falar hoje: sobre este “caminho” que é o testemunho e que todos nós temos que seguir, o “caminho da vida”, das nossas vidas, que mesmo quando rotineiras, comuns, “desinteressantes”, é o caminho da nossa vida, da minha vida, da vida que Deus me deu. Pois é neste caminho que Jesus me pede para dar testemunho dele (e não em nenhum outro) e é nele também que Jesus se manifesta e nos conduz para seu Pai, neste caminho do nosso testemunho, do nosso martírio pessoal, que nada mais é que a re-vivência do caminho trilhado pelo próprio Jesus e cuja apropriação constitui toda a vida espiritual. Não existe uma vida espiritual que não seja uma reapropriação pessoal dos eventos salvíficos vividos pelo Jesus histórico. Ele próprio já dizia que “o discípulo não pode ser superior ao mestre”. (4)

Alguém talvez pudesse argumentar que o caminho trilhado por nossos irmãos de Tibhirine fosse um pouco “especial”, afinal de contas, são cristãos martirizados em solo muçulmano e que hoje se encontram em processo de beatificação, características um tanto “inusitadas” no universo religioso contemporâneo. E embora isto seja verdade, acho que há características fundamentais do caminho destes monges que são comuns a todos nós, comuns a todas as tradições de vida espiritual.

O processo espiritual

Desde o início do cristianismo, é comum se falar da vida espiritual em termos de um “processo”, constituído de “etapas” (podemos pensar na “Vida de Moisés”, de S. Gregório de Nissa, ou ainda na “Vida de S. Antão”, de S. Atanásio, ambos clássicos da espiritualidade cristã). Estas etapas geralmente não são nem muito rigidamente estabelecidas e nem muito menos reservadas somente a uma elite de iniciados. Assim, gostaria de falar sobre a vida dos nossos irmãos de Tibhirine como um processo, um processo espiritual, onde eles foram discernindo e se conformando pouco a pouco à vontade de Deus. E, sem me referir a nenhuma escola de espiritualidade em especial, gostaria de dividir este processo em três etapas, que tomei a liberdade de chamá-las de: constatação da imperfeição, evolução do amor, e perfeição da oblação.

Constatação da imperfeição

A primeira destas etapas, como acabo de mencionar, é a constatação da nossa imperfeição. É muito comum as pessoas imaginarem que para seguir Jesus mais de perto, seja na vida monástica, em alguma outra forma de vida consagrada ou mesmo num testemunho batismal mais coerente na paróquia, na família, que é preciso ser especialmente “santo”, “virtuoso”, espiritualmente diferente dos demais. Pessoas costumam perguntar aos monges de nossa comunidade coisas do tipo: “se nós praticávamos meditação desde pequeno”, “se íamos à Missa todo domingo”, ou “se sonhávamos em ser monge desde o colo materno”. Talvez alguns, sim, mas acho que a maioria, não. Deus é muito modesto na escolha do material com o qual ele trabalha – S. Bernardo afirma num de seus sermões que, se não temos ouro ou incenso para oferecer a Deus, ele se contenta com nossa mirra (5) – e todas as tradições espirituais – cristã, muçulmana, judaica, etc – confirmam este fato. Não podemos fugir daquilo que somos hoje e é para vir ao nosso encontro, onde nos encontramos, que o Verbo se encarnou. D. Christian de La Chergé, o superior de Tibhirine (representado no filme pelo ator Lambert Wilson), afirmou em seu testamento espiritual, aberto após a sua morte: “Minha vida não tem mais valor do que qualquer outra. Nem menos. Em qualquer caso, ela não tem a inocência da infância. Vivi tempo suficiente para saber que sou cúmplice no mal que, infelizmente, parece prevalecer no mundo”. (6) Acho que isto não é um atestado de virtude para ninguém, mas uma confissão muito humilde e direta da própria imperfeição objetiva.

Acho que esta é uma experiência universal e muito importante por causa disto. Acho que uma experiência universal, ainda que negativa (como neste caso) não pode ser desmerecida, mas deve-se fazer um esforço para se aferir seu valor espiritual. Se somos imperfeitos, isto deve ter um significado, um impacto espiritual no meu hoje e este impacto não pode ser o de um mero conformismo, uma aceitação tácita deste fato. Acho que se trata de uma experiência comum na história da humanidade, a de sempre se procurar evoluir, superar, diante de um desafio. E a nossa história, nossa história da salvação pessoal, também nos coloca diante deste fato. Nossa imperfeição, por maior que ela se nos apresente, não pode ser um non plus ultra negativo da vida espiritual, um obstáculo intransponível, mas deve nos convidar à reflexão inteligente sobre nossa condição espiritual. O que fazer com isto? Não dá nem para negar nossa própria imperfeição e nem dá para desistir de viver esta nossa vida imperfeita. Todos nós conhecemos a experiência de sentirmo-nos impotentes diante de nossas próprias concupiscências, tíbios em nosso amor a Deus (que deveríamos amar “acima de todas as coisas”, segundo o mandamento), medíocres (ineficazes) em nossos esforços de santificação. Vemos isto muito claramente no filme que acabamos de assistir, nas hesitações e divagações às vezes quase banais que os monges fazem ao considerarem o risco de continuarem na Argélia. E mais ainda, esta é uma mentalidade que pervade não somente indivíduos, mas sociedades. Vemos isto um pouco em toda parte, a ponto da santidade vir a se tornar, cada vez mais, um conceito que causa estranheza no mundo de hoje.

Somos, assim, duplamente imperfeitos: por nascermos sob a égide do pecado original e por não reconhecermos objetivamente (à primeira vista) a santidade como nossa vocação original. A boa nova é que parece que Deus está ciente disto, pois alguém certa vez disse que “fraqueza compartilhada é a linguagem do Deus encarnado”. (7) E para citar as palavras de um outro monge de Tibhirine, o Pe. Christophe, que era o mestre de noviços: “Sei que não somos melhores que os outros, nem heróis, nem nada de extraordinário. Sinto isto muito fortemente aqui em Tibhirine. Mas ainda assim, há algo de especial, em nosso modo de ser Igreja: como reagimos às situações, como as aguardamos e as vivemos na prática. Tem que ver com uma certa consciência de que somos responsáveis não em fazer algo, mas em ser algo, em resposta ao Amor e à Verdade”. (8)

Evolução do amor

Com estas palavras, Pe. Christophe fez uma ligação entre a primeira característica do caminho espiritual – a constatação de nossa imperfeição – e a segunda, que é a evolução do amor, da sua presença, em nossas vidas, sobretudo naquilo que concerne à radicalidade deste amor. Esta etapa intermediária é, sem sombra de dúvida, a mais longa de nossas vidas. Porque, depois de fazer as pazes com a ideia de nossa imperfeição (que por si só costuma tomar bastante tempo), descobrimos que temos muito que consertar dentro de nós, de configurar a Jesus. É neste momento que descobrimos que nossa imperfeição não justifica uma vida distante da espiritualidade, e passamos então a concentrar nossos esforços a viver segundo o mandamento do amor. Como disse, trata-se de uma fase de muita vicissitude. Acabamos de assistir no filme, como os irmãos de Tibhirine hesitavam em perseverar na Argélia, diante da ameaça de morte. Poucos dias após a primeira visita do GIA, eles tiveram uma reunião, na qual a maioria era em favor de deixar o país imediatamente (por um prazo mais ou menos prolongado). Alguns cogitaram a hipótese de deixarem a vida monástica por completo, inclusive. Mas acho que, aquilo que os ajudava neste momento, era esta consciência da responsabilidade que eles atribuíam à sua vocação (“minha vida não é só minha”) e também o fato de que a provação, quando vivida com amor, gera comunidade. Acho que todos nós conhecemos a frase de Tertuliano: “O sangue dos mártires é a semente dos cristãos”. (9) Com isto, Tertuliano queria dizer que o amor e a coragem dos mártires não somente servia de exemplo, mas que o seu testemunho atraía mais e mais pessoas para o seio da Igreja. E penso que foi um amor radical assim que atuou com poder na vida de nossos irmãos de Tibhirine e que os levou a ver não somente nos membros de sua própria comunidade, de sua própria Igreja, mas em cada membro do povo argelino, em cada fiel muçulmano e até mesmo nos terroristas que os assassinaram não apenas um irmão, mas um amigo. É com estas palavras que D. Christian encerra seu testamento espiritual: “E também a ti, meu amigo do derradeiro instante, que não terá sabido aquilo que estava fazendo; sim, quero que este ‘OBRIGADO’ e este ‘A-DEUS’ sejam para ti também, porque na face de Deus vejo a tua face. Que possamos nos encontrar como ladrões felizes no Paraíso, se Deus quiser, Ele que é o Pai de nós dois”. (10)

Só o amor vence barreiras deste porte a ponto de gerar unidade. E nossas tribulações cotidianas, sobretudo quando vividas por causa do nosso amor a Deus, podem nos ajudar neste processo. Vimos no filme como as dificuldades experimentadas pela comunidade serviam para reuni-los todos na busca de um discernimento comum e de uma maneira comum de expressar seu amor a Deus e a todo próximo. Foi um mesmo amor a Deus e ao próximo que possibilitou à comunidade de Tibhirine encontrar uma única e mesma resposta ao desafio que enfrentavam, que solucionou de forma radical as várias divergências que existiam no seu grupo. Para eles, o Amor se tornou a única Verdade, a única verdade empírica, científica existente. Eles não podiam confiar mais nos seus instintos de sobrevivência, nem nos conselhos prudentes de profissionais especializados, nem em qualquer outro tipo de ajuda que proviesse meramente do engenho humano. No fim de tudo, eles tinham que fazer um ato de fé e reconhecer que o Amor é a única Verdade capaz de dar uma forma digna à liberdade do homem.

Acho que este é um grande desafio para todos nós. Alguns meses após o martírio dos irmãos de Atlas, D. Bernardo Olivera lançou um livro intitulado Até onde seguir?,(11) no qual descreve toda a trajetória dos monges de Tibhirine. Penso que a mensagem básica deste livro seja “não parar jamais”, uma versão espiritual do famoso adágio Never say never, “Nunca diga nunca”. Amar sempre, até o fim. Sabemos que todo o ensinamento de Jesus se reduz a este amor a Deus e ao próximo, que se expande até incluir os inimigos, os inamáveis, os que nos chocam e escandalizam. Penso que esta afirmação deva ser compreendida em toda a sua força, em toda a sua crueza. Pois é esta radicalidade que nos é pedida e que é a única capaz de transformar significativamente nossa visão da realidade, que é capaz de transformar nossa imperfeição numa oferta agradável a Deus.

Para dizer ainda de outro modo: não é tão difícil reconhecer e confessar nossa imperfeição. Mais difícil é reconhecer que esta imperfeição não constitui uma justificativa suficiente para não transcendermos nossas resistências interiores. Amar e “rezar é sempre possível”, nos recorda o Catecismo, (12) em todas as circunstâncias. Amar nem sempre é fácil, nem sempre é gostoso. Mas é o único caminho para uma verdadeira vida espiritual, para uma verdadeira união mística com Deus. Fui hospedeiro em nossa comunidade por três anos e às vezes as pessoas me perguntavam: “Como posso ter uma vida espiritual mais intensa?”. Minha resposta sempre era: “Procure perdoar seu próximo como você foi perdoado no seu Batismo e entregar-se completamente como Cristo se entrega a você na Eucaristia que você recebe todo domingo. Isto já é uma vida profundamente mística”. O Pe. Christophe afirmava certamente isto ao dizer: “O amor tem o formato da Cruz”. (13) Assim, o testemunho dos mártires – e de todos os santos – deve servir de incentivo a nós nesta caminhada, de estímulo a não nos contentarmos com a resposta fácil do “não posso mais” e a abraçarmos a cada dia um novo recomeço.

O caminho pode ser difícil, mas é insubstituível, como nos lembra Jesus no Evangelho: “Ninguém vai ao Pai senão por mim” (14) e “Entrai pela porta estreita”. (15) E este caminho tem ainda uma outra função importantíssima (que também aparece no filme), uma função “hermenêutica” por assim dizer. É o caminho do martírio, o caminho do testemunho diário, que nos possibilita compreender corretamente o depósito da fé transmitido pela Revelação. É só o amor que é capaz de decodificar a fé numa mensagem compreensível aos homens. Aliás, esta é uma função – e também uma consequência – importantíssima da busca da santidade: a criação de uma cultura cristã, um modus cogitandi, um modo de pensar tipicamente cristão. E tenho certeza que foi isto, esta pedagogia lentamente apreendida durante muitos anos de vida monástica fiel, que fez com que os mártires de Atlas discernissem a vontade de Deus e a pusessem em prática quando necessário. Um bem-aventurado de nossa Ordem, Guilherme de St-Thierry, explicitou este raciocínio de forma lapidar ao dizer: Amor ipse intellectus est – o amor é a própria faculdade da intelecção.

Oblação perfeita

Assim, é na medida em que permitimo-nos ser transformados pelo amor – impactados em nosso dia, nas nossas decisões cotidianas (grandes e pequenas) – é que nossa vida vai se transformando, progredindo neste processo que é a vida espiritual até chegar um dia a se tornar uma oblação perfeita, que é como eu defini a última etapa deste processo no início desta conferência. O Pe. Christophe, de Tibhirine, disse em certa ocasião que sua comunidade, desde que se iniciaram as ameaças terroristas, vivia “em situação de epiclese” (16) (como sabemos, a epiclese é a invocação do Espírito Santo sobre as espécies do pão e do vinho que os transforma em Corpo e Sangue de Cristo durante a Eucaristia), em situação de constante transformação em oferenda, em Eucaristia, oferta humilde, simples, mas total de suas vidas em prol de todos – cristãos, muçulmanos, pouco importa. Irmão Luc, o médico ancião da comunidade, antes de morrer também deixou um testamento espiritual (escrito anos antes) no qual dizia: “Quando eu estiver morrendo, se não for de morte violenta, peço-lhes que me leiam a parábola do filho pródigo e rezem a oração de Jesus. E depois que me deem uma taça de champagne – se houver – a fim de que eu possa me despedir deste mundo (...) antes de beber do vinho novo”. (17)

Não somente ele bebeu, mas se transformou neste vinho novo. E não só ele, mas toda a sua comunidade. Eles foram se dando conta que o drama de suas vidas não era somente seu, mas de todo o povo argelino, que comungava daquela situação de aflição, de consternação e de profundo pesar por tantas vidas inocentes ceifadas. Eles se deram conta que de sua fidelidade ao Evangelho dependiam inclusive a segurança da população local. Enfim, que não existe uma busca da santidade meramente individual, mas que ela tem um alcance comunitário, social. Com o passar do tempo, os monges de Tibhirine foram percebendo que “ser santo” não tinha apenas que ver com sua fidelidade pessoal ao carisma trapista, com seu amor às observâncias monásticas ou sua capacidade de rezar com mais ou menos distrações. Ser santo tem que ver com o bem do meu próximo tanto quanto com o meu próprio. Há um pequeno conto judaico que diz que “o homem mundano diz: ‘tudo o que é meu é meu e tudo o que é teu é teu’; o homem piedoso diz: ‘tudo o que é meu é teu e tudo o que é teu é meu’; o tirano diz: ‘tudo o que é meu é meu e tudo o que é teu é meu também’; mas o homem santo diz: ‘tudo o que é meu é teu e tudo o que é teu é teu’”. (18) Acho a história interessante para ilustrar que uma santidade verdadeira pensa mais nos outros que em si mesmo. Assim também, os monges de Tibhirine perceberam que sua santidade dependia estritamente de seu amor ao povo argelino, de sua identificação com a espiritualidade muçulmana e até mesmo da aceitação, não como mera “possibilidade” mas quase como uma certeza, da morte violenta que os aguardava. Penso que foi assim que eles se deram conta que sua vocação não era simplesmente a de ser monges trapistas, mas a de ser Eucaristia, trigo moído e uva prensada consagrados, de ser um sacramento vivo da presença do amor de Cristo em meio a um contexto, a um ambiente, não necessariamente capaz de compreender ou apreciar o valor de toda esta entrega. E isto todos nós podemos fazer. Todos nós nos deparamos com o absurdo do amor no nosso dia a dia: o absurdo de ser católico praticante (ou muçulmano praticante, ou judeu praticante, etc.) no mundo secularizado de hoje; todos nós percebemos o absurdo que é não somente perdoar, mas amar os autores de crimes hediondos ou a horda de pessoas que provocam escândalos na Igreja; todos nós percebemos o absurdo que é permanecer fiel até o fim a alguém que viveu há 2000 anos e que, além da certeza que a fé nos dá, não se manifesta mais visivelmente e às vezes nos parece até mesmo conivente com o mal... Mas é este o único meio de santificação do qual dispomos – de nenhum outro. E é dele que Jesus dispôs para se fazer Eucaristia e deixar um exemplo para nós, para que nos tornemos Eucaristia com ele.

Gostaria de concluir esta fala com um texto do Pe. Christophe, escrito poucos dias antes do rapto por parte dos terroristas: “Vamos, Pai, vamos dar graças, vamos para o Cristo; vamos, Pai, vamos para a Igreja, vamos na fé, vamos no vento, dizer: ‘Eu te amo’, vamos na paz e no verdadeiro pão e na liberdade, pois é tempo de acabarmos com o Maligno através de um beijo teu, a fim de fazer novas e belas todas as coisas no amor. Vamos partir daqui, irmãos, oferecer um sacrifício de louvor a Deus”.

Que a exemplo dos mártires de Tibhirine, façamos das nossas imperfeições a motivação para um amor sempre maior, até nos transformarmos num “sacrifício vivo, para o louvor da Sua glória”. (19)

Notas:

1. OLIVERA, Bernardo. “How Far to Follow?”, Cistercian Publications, Kalamazoo, Michigan, 1997, p. 5.
2. Idem.
3. Cf. Mt 5,15.
4. Cf. Lc 6,40; Mt 10,24-25; Jo 13,16; 15,20.
5. Cf. 3º Sermão para a Epifania, nº4-6.
6. OLIVERA, Bernardo, op. cit., p. 127.
7. In OLIVERA, Bernardo, op. cit., p. 12.
8. OLIVERA, Bernardo, op. cit., p. 59.
9. Apologeticum, 50,13.
10. OLIVERA, Bernardo, op. cit., p. 129.
11. How Far to Follow?, por OLIVERA, Bernardo. Cistercian Publications, Kalamazoo, Michigan, 1997.
12. Catecismo da Igreja Católica, Eds. Vozes/ Loyola, São Paulo, 1999, § 2743-2745.
13. OLIVERA, Bernardo, op.cit., p. 60.
14. Cf. Jo 14,6.
15. Cf. Mt 7,13.
16. OLIVERA, Bernardo, op.cit., p. 58.
17. Idem, p. 7.
18. In, BUBER, Martin, Hassidische Erzählungen.
19. Cf. Ef 1,12 et alii.

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