"Falou meu coração’, afirma ator que interpreta monge de Tibhirine

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27 Mai 2011

Sentado no café do Hotel dos Inválidos, que frequenta costumeiramente, ao pé de seu apartamento que ele nunca deixou desde 1947, Michael Lonsdale faz suas anotações em seu caderninho. Uma nova proposta, mais de 140 filmes em toda a sua carreira... Nos últimos 10 anos, os jovens produtores franceses se apertam em torno desse monumento do cinema francês, cujo rosto e instinto de jogo se impõem nos filmes da nova onda, em Truffaut, Jean Eustache ou sua grande cúmplice Marguerite Duras. E cuja voz de gato, pacífica e fina, acentuada de agudos inesperados, trouxe para o teatro textos de Eugène Ionesco ou Samuel Beckett. No mundo do cinema, onde persegue incansavelmente seu caminho singular, ele nunca escondeu a fé que o anima e seu engajamento com a comunidade carismática de Emmanuel. Em Des hommes et des dieux (Homens e Deuses), de Xavier Beauvois, vencedor do Grand Prix no Festival de Cannes, em 2010, ele encarna, aos 79 anos, o irmão Luc, médico e cisterciense em terras muçulmanas, a quem ele empresta sua profundidade, sua malícia, seu resplendor tranquilo.

Michael Lonsdale nasceu em 24 de maio de 1931, em Paris. Em agosto de 1939, após alguns anos morando em Londres, muda-se para Casablanca, no Marrocos. Em 1947, volta para Paris, onde entra, em 1952, no curso de teatro da Tania Balachova. Em 1956, atua no seu primeiro filme, C’est arrivé à Aden, de Michael Boisrond. Outros filmes em que atuou: A noiva estava de preto (1967), India Song (1975), O nome da Rosa (1986), Munique (2006), entre muitos outros.

A entrevista é de Constance de Buor e está publicada na revista francesa La Vie, 02-09-2010. A tradução é do Cepat.

Eis a entrevista.

Você sempre teve uma queda pelas propostas radicais. Homens e deuses é uma dessas?

Irmão Luc é um dos mais belos papéis que eu já fiz. É um ser de pura generosidade. Eu penso que isso chocou em Cannes. As pessoas aplaudiram durante oito minutos, a gente não sabia mais onde se meter! Esse filme é um oásis de bondade.

Como você se impregnou do papel do irmão Luc?

Eu conhecia a história de Tibhirine. Certa noite, participei, na igreja de Saint-Sulpice, em Paris, de uma celebração em memória de Christian de Chergé, prior da comunidade, e tinha lido alguns de seus textos, entre eles o seu testamento. Sobre o irmão Luc, existe um filme, que eu só quis ver depois de rodado o filme. Ele fala muito pouco, ele não tinha muita vontade de se fazer conhecer... Homens e deuses não é um documentário: eu não queria, portanto, ser uma cópia. Mas o meu personagem não está tão longe! Entre os cistercienses, Luc decidiu ser irmão converso. Se fosse monge, teria que participar dos setes ofícios diários. Estando com seus doentes das 7h às 22h, não podia passar cinco horas por dia na capela. Era uma pessoa muito simples, consagrando toda a sua vida aos outros. Ele cuidava de todos os feridos, independentemente de onde viessem, quer fossem aldeões ou fellagas, não importando o costume. Ele era um pouco marabu, como se diz: um homem sábio, cujos conselhos eram muito apreciados. Com seu caráter de humor e uma grande liberdade interior.

Pode-se ver um outro lado desse papel de sábio, num magnífico diálogo com uma jovem que pergunta como saber quando se está apaixonado...

Bem, a cena foi inteiramente improvisada! Xavier Beauvois me disse: "Te joga. Diz o que tu pensas sobre o amor". Ele tinha confiança... Depois, ele me disse: "Foi muito melhor do que eu poderia ter escrito!". Foi meu coração quem falou!

Que visão você tem do destino desses monges?

Eles compreenderam que faziam a doação de suas vidas. Eles permaneceram para testemunhar a fraternidade, a partilha, o respeito e porque sua partida teria sido vivida como um abandono. Eles nunca tentaram converter ninguém. É por isso que eram tão queridos.

O que significa para você "encarnar" um personagem?

Nós somos encarregados, nós atores, de representar com o nosso corpo, nossa voz o que passa no fundo do coração de um homem. Cada papel tem seu potencial de vida. Minha querida professora de teatro, Tania Balachova, dizia que não é preciso representar as palavras, mas o que há por trás delas. A preocupação de Luc era cuidar, ajudar. Não há vocação mais rica que essa. Eu sei o que é cuidar com amor ou ser cuidado com negligência. Há uma maneira muito suave de se ocupar dos doentes.

Para entrar em seu papel, os atores passaram uma temporada entre os cistercienses da Abadia de Tamié [França]. Os mosteiros lhe são familiares?

Eu não pude acompanhá-los naquele momento, mas eu já tinha passado uma temporada entre os cistercienses. Também Lambert Wilson já conhecia a vida monástica. Mas os outros estavam muito assombrados. Eles não sabiam o que os aguardava. Eles ficaram emocionados com o fato de encontrarem homens fraternais, simples, acolhedores e não monges severos e chatos! Alguns continuam a trocar e-mails com os irmãos. Foi em Tamié que os atores aprenderam a cantar os salmos. Meu personagem não canta, porque ele não participa dos ofícios. Mas são realmente as vozes dos atores que podemos ouvir no filme.

O filme foi rodado no Marrocos, onde passou sua adolescência...

Nós fomos para as montanhas e eu só conhecia o litoral, mas morei no Marrocos a partir dos nove anos. Meu pai era inglês. Ele encontrou um trabalho por lá. Nós pegamos o navio no dia 15 de agosto de 1939. Em setembro, a guerra foi declarada. Ficamos ali até 1947. Eu reencontrei algumas impressões, mas eu não tinha vontade de voltar para ali onde morei porque os lugares de que eu gostava já não existem mais. Foi, em todo o caso, um prazer de trabalhar com os marroquinos.

Que conhecimento você tem do Islã?

A primeira pessoa que me falou de Deus quando eu estava no Marrocos foi um muçulmano. Meus pais o conheciam bem e nós o encontramos à noite no café. À mesa, ninguém falava de religião. E aí eu compreendi o que ele disse: ele foi um dos primeiros a mencionar Deus diante de mim de maneira clara, a me revelá-lo um pouco mais. No filme, os muçulmanos dizem que os terroristas traem o Corão ao matarem idosos, mulheres, crianças e que o fato de que eles reclamam Alá para si é uma mentira horrível. É importante dizer isso.

Quando você descobriu o teatro?

Depois da guerra, meus pais se separaram e eu vim morar com a minha família francesa. Eu fazia pintura e teatro. Depois de muito tempo, eu aterrissei no curso da maravilhosa Tania Balachova. Grande atriz, professora emérita, que enchia seus alunos de amor. Ela me fez sair da minha timidez. Ela me disse: "Você é muito gentil. Um dia, você terá que fazer papéis violentos. Mostre-me alguma coisa". Ela me deixou tão desesperado, que eu peguei uma cadeira e a quebrei. Fui com tudo. Para me recompor, tive que fazer um relaxamento que durou três horas. A violência era para mim inconcebível. Na minha infância, quando as crianças brigavam, eu ficava aterrorizado.

Você foi padre com Louis Malle (O sopro do coração, 1970), encarnou o abade de O Nome da Rosa, de Jean-Jacques Annaud. E muitos outros... Esses papéis de religiosos o cansam ou o divertem?

Depois do grande inquisidor (As sombras de Goya, de Milos Forman, 2006), eu disse a mim mesmo que não faria mais papéis de religiosos, mas me propuseram um sempre mais forte! Irmão Luc é o mais comovente de todos. Eu acredito que, se me oferecessem mais um belo, eu aceitaria de bom gosto. Quando se tem a alegria de ser crente, não se pode perder a ocasião de testemunhar. O personagem de Luc é um modelo. Penso que este homem, que consagrou a sua vida para se ocupar dos outros, vai tocar os corações. Mas eu aceito também encarnar personagens desagradáveis! E, através de alguns papéis, eu também seguramente me desafoguei!

Em que filme particularmente você está pensando?

Em India Song (1975), de Marguerite Duras, eu encarno o vice-cônsul de Lahore rejeitado por sua mulher. À noite, ele solta gritos dilacerantes. Na época, eu estava extremamente infeliz. Os alaridos do vice-cônsul foram uma saída. Eu gritei minha tristeza pessoal através desse personagem. É muito duro sofrer sem poder exprimi-lo. Acontece que a gente se cura através de um papel, que a gente se liberta.

Por que recusou um papel em Amém (2002), de Costa-Gavras?

Eu recusei, porque me parecia que não nos cabia julgar o que um papa fez ou deixou de fazer. Se Pio XII não denunciou mais diretamente o nazismo, penso que tinha suas razões. Quem sabe o que Hitler poderia ter feito? Deportaria todos os padres? A peça na qual ele se baseou para fazer o filme é um panfleto, não a verdade.

Você atuou, ao contrário, em muitos filmes de Jean-Pierre Mocky, diretor declaradamente anticlerical...

Mocky é um gozador, um anarquista. No clericalismo, nem tudo se pode tomar... E em Jeanne Moreau, uma mulher jovem que leva os peregrinos, em O ladrão de milagres (1987), eu acho isso engraçado!

Você é muito assediado pelos jovens diretores. Como você trabalha com eles?

Eu gosto de trabalhar com os novos. Eles são mais livres, menos precisos, talvez, que os mais velhos – Fred Zinnemann me enviava um telegrama quando queria mudar uma vírgula num texto! Hoje, há mais lugar para improvisação. Como com Xavier Beauvois, para quem o cenário é "um aprendizado". Ele inventou muitas coisas durante a filmagem. Eu gosto desta espontaneidade.

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