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09 Outubro 2012

Compreender a irracionalidade da violência para entender o humano em sua problemática mais fundamental, que é, justamente, a violência. Com essa temática o teólogo Carlos Mendoza iniciou sua conferência na tarde de segunda-feira, 07-10-2012, dentro da programação do Congresso Continental de Teologia, sediado pelo Instituto Humanitas Unisinos – IHU. Como deter a espiral da violência, perguntou-se? Pensadores como Emmanuel Levinas e sua ideia de ética do outro, o problema do mal em Paul Ricouer, Andres Torres Queiruga e René Girard, que aborda a violência e o sagrado e o bode expiatório são fundamentais para pensarmos esse mundo pós-moderno e a religião nele.

A reportagem é de Márcia Junges.


Mendoza
destacou que o tempo messiânico é um de seus principais objetos de estudo hoje, bem como o sofrimento dos inocentes e a esperança em um mundo diferente, ideias originadas no judaísmo e uma crítica à pós-modernidade. Assim, abordou diversos aspectos em sua fala:

I. O retorno do sagrado

O século XIX foi anunciado como século do ateísmo, que implantaria a razão como única guia da civilização moderna. A ilustração é organizada um grande projeto de autonomia e emancipação. Já o século XXI não seria religioso, destaca Mendoza. Na América Latina vimos o ressurgimento das culturas originárias, como a Pacha Mama, e o ano de 1992 foi simbólico para afirmar a força das culturas originárias. O sagrado foi descrito no pensamento filosófico moderno como uma experiência limite do sujeito, a saber R. Otto, Levinas, Ricoeur, D. Tracy, R. Girard e F. Hinkelammert e E. Dussel.

II. No início do século XXI o pensamento hebraico se propõe como uma primeira alternativa para superar a modernidade instrumental.

Atenas                Jerusalem       Extra muros
Deus trágico          Deus Santo      Deus unitário
Mesmidade            alteridade         comunidade
Eu                        tu                   nós
Narciso                  Abrahão          Jesus de Nazaré
Prometeu              Abel               Crucificado que vive

Vários filósofos criticavam a razão instrumental e técnica, focada numa matriz cartesiana. Porque voltar a Jerusalém, então? É preciso pensar nas categorias acima, disse Mendoza. A racionalidade hebraica implica que o messianismo Deus de Israel se envolve na história de um povo oprimido. Segundo a tríade fundamental do único ato divino (Rosenzweig): revelação, criação e redenção.


A lógica de Jerusalém


Para Carlos Mendoza, a lógica hebraica se baseia em:

- postular o desmantelamento por parte de Deus do sagrado violento desde as origens da história;

- promover a crítica dos ídolos de morte que suplantam ao Deus da vida. Trata-se de um Deus que atua para todos, mas sempre a partir dos excluídos: a viúva, o pobre, o órfão e o estrangeiro, por exemplo.

- Tal é o anúncio messiânico dos tempos novos.


III. A teologia cristã pós-moderna é uma crítica da modernidade instrumental


1. Em continuidade com o judaísmo liberal moderno

- propõe uma radicalização da experiência hebreia de Deus compassivo

- assume o monoteísmo e a universalidade do próximo segundo a regra de ouro

- leva ao extremo esvaziamento divino de Deus


2. Em sua novidade e diferença o cristianismo pós-moderno tem quatro caraterísticas próprias

(i) é um anti-messianismo (Ch. Duquoc, R. Girard, I. Ellacuría, J. Alison). Propõe um Jesus que é diferente, “queer”.

(ii) o cristianismo pós-moderno é a inteligência da vítima não ressentida que supera o círculo fatal da rivalidade (Alison e Girard). A exclusão tem muitos rostos. Como compreender que por essas experiências pode se revelar o rosto de Deus?

(iii) como anúncio escatológico de outro mundo possível e real desde a imaginação de Deus em chronos e kairós. O tempo de Atenas e de Jerusalém é totalmente diferente, observou Mendoza.

(iv) a lógica da gratuidade absoluta como dimensão do amor

- não recíproco

- a-simétrico e

- incondicional

Um Deus mestiço

Valendo-se de ideias de James Alison, Mendoza acentua que a vergonha é o primeiro lugar teológico. Só quando se vive o colapso dos sonhos de onipotência juvenil é que se pode conhecer o Cristo. A perspectiva pós-moderna trata de falar a partir das margens, ponto crucial para entender o enfoque pós-moderno da teologia.

Mendoza aponta, ainda, as questões sugeridas do modelo emergente da pós-modernidade:

- a insuficiência da racionalidade objetivante (J. L. Nancy, F. Hinkelammert);

- a possibilidade de uma ética mundial não violenta a partir do consenso entre as religiões (H. Küng e L. Boff);

- O descentramento do sujeito moderno: o giro do giro copernicano para incluir o cosmos e a Deus (R. Pannikar e I. Gebara);

- a crítica dos reducionismos.

O cenário da teologia na América Latina é a diversidade, a pentecostalidade. Tal diversidade é uma benção no horizonte religioso. A Igreja Católica não deveria ser mais kenótica para compreender essa diversidade?, perguntou Mendoza. Deus é mestiço, híbrido, não é puro, não tem uma raça única, senão que está encarnado por toda parte. A Europa está dentro de nossas veias assim como o nosso sangue corre na deles. Toda a literatura latino americana está em parte ligada à cultura europeia, como propõe João Cezar de Castro Rocha – UERJ.

Na pós-modernidade é preciso fazer teologia a partir das vítimas, porque só elas tem o poder de perdoar. Contudo, algumas pessoas, pouquíssimas vítimas, exercem essa função. Elas tendem a se articular em revanche. Como, então, acompanhar e escutar o grito das vítimas em algo que possa, verdadeiramente, salvar, e não humilhar? O perdão é o horizonte último. A reconciliação nacional deveria ser incluída como agenda política nacional.

O perdão não é esquecimento, mas imaginar desde a memória perigosa, subversiva dos inocentes sacrificados as mudanças necessárias.  Somos todos sobreviventes de algum tipo de sacrifício, apontou Mendoza.  Trata-se de uma tarefa ético política pensar algo que seja mais do que uma religião, mas uma ética de compromisso com os excluídos.

Quem é Carlos Mendoza?

Carlos Mendoza-Alvarez se formou em Filosofia, pela Universidade Autônoma do México, e fez doutorado em Teologia, em Paris e Friburgo (Suíça). Em sua tese de doutorado procurou tecer um diálogo com o pensamento hermenêutico de Paul Ricoeur, a ética da alteridade de Emmanuel Levinas e a teoria mimética de René Girard. Dentre seus escritos, destaca-se o livro O Deus escondido da pós-modernidade: desejo, memória e imaginação escatológica. Ensaio de teologia fundamental pós-moderna (São Paulo: É Realizações, 2011). 

Momentos após sua conferência na tarde de 07-10-2012, Mendoza concedeu uma entrevista pessoalmente à IHU On-Line, que poderá ser conferida em breve.

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