Surpresa, escândalo e tristeza". Entrevista com Andrés Torres Queiruga

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Por: André | 03 Abril 2012

Os bispos acabam de condená-lo “sem diálogo prévio sério” e Andrés Torres Queiruga diz sentir-se “surpreso, escandalizado e triste”. Surpreso “pelo procedimento inusitado”. Escandalizado, porque os problemas que colocam à sua obra “passariam com muita dificuldade por um exame de Teologia”. E triste, pelo “duríssimo golpe” que o caso representa “para a credibilidade da Igreja”. Profundamente agradecido pelas demonstrações de solidariedade, que “são um rio que não para”, o teólogo galego pede “diálogo público” com os promotores de sua condenação e garante que continuará refletindo, publicando e “repensando a fé em categorias atuais; é minha vocação e minha paixão”.

A entrevista é de José Manuel Vidal e está publicada no sítio espanhol Religión Digital, 31-03-2012. A tradução é do Cepat.

Eis a entrevista.

Como se sente após a nota?

No fundo, tranquilo, pois definitivamente trata-se de um “acidente de trabalho”. Um trabalho feito com a melhor das intenções e creio que com refinada responsabilidade e espírito de diálogo. Não nego que neste momento se acrescentem os três sentimentos que me brotaram de forma espontânea quando da primeira tentativa de “censura”: surpresa, escândalo e tristeza.

Poderia explicar melhor?

Não me é agradável, mas creio que a clareza o exige. A surpresa é pelo procedimento inusitado, sem diálogo prévio teologicamente sério comigo. E neste sentido me dói o fato de que a nota diga algo que não corresponde à verdade: “a Comissão Episcopal para a Doutrina da Fé manteve um longo e intenso diálogo com o Autor”. A única coisa que houve foi um encontro, cordial isso sim, mas sem as mínimas condições de estudo prévio e tempo necessário para uma elucidação teológica, como eu havia pedido ao Presidente da Comissão. Em todo o caso, o único teólogo que participou, nomeado de comum acordo, reconheceu expressamente a legitimidade teológica das minhas obras.

Escândalo, por isso mesmo, porque não se pode fazer um julgamento público sobre algo tão sério, sem diálogo prévio e sem essa mínima tentativa de compreensão cordial que o próprio Papa pede para seus escritos teológicos. Realmente, creio que a melhor defesa da minha teologia é uma leitura atenta das citações literais de meus escritos trazidos pela mesma comunicação. Elas representam o que hoje diz qualquer teologia medianamente autorizada. Ao contrário, as interpretações que se dão no documento penso sinceramente que passariam com muita dificuldade em um exame sério de teologia. A rigor, com os critérios hermenêuticos que usa, nem sequer os livros do Papa sobre Jesus de Nazaré passariam pelo filtro.

E, também tristeza. Porque este tipo de atuação, afora criar uma injustificada inquietude em muitos crentes, representa um duríssimo golpe para a credibilidade da Igreja. Acima de tudo, isto não responde à totalidade dos bispos da Espanha e, menos ainda, dos teólogos. O espírito do Evangelho é outra coisa, boa nova e criatividade, frente a intransigência e o imobilismo.

É uma nota de advertência mais do que de condenação formal?

Não, não é uma condenação, como se diz explicitamente. Mas para uma grande parte do público, neste tipo de documentos, o de menos é o que dizem, mas o fato mesmo de dizê-lo, que acaba soando como condenação. Por isso, também neste sentido, recomendaria a leitura atenta da condenação... e talvez aproveitar para estudar um pouco melhor estes temas, que são verdadeiramente interessantes.

No seu caso, seguiu-se o procedimento canônico previsto? Os bispos insinuam que ouviram você.

Não me meto na legislação canônica, que conheço muito pouco. Eclesialmente, creio que foi um pequeno desastre. Graças à insistência de meu arcebispo, na última hora aconteceu o encontro aludido, e devo dizer que neste sentido a minha relação pessoal com o Presidente da Comissão da Fé foi verdadeiramente amigável e cordial. Mas o que ficou claro para mim é que a decisão estava firmemente tomada de antemão, e se pretendia apenas que eu fizesse alguns esclarecimentos que pudessem suavizar algum ponto. As perguntas feitas, e que são aquelas que aparecem no final do documento, demonstram um desconhecimento e má interpretação da minha teologia de tal calibre que suporiam entrar em um jogo teologicamente estéril e mesmo triste. Por isso, me neguei a respondê-las, remetendo às explicações que dou na minha obra. Responder suporia aceitar um procedimento eclesialmente carente de espírito fraterno e teologicamente de uma falta de fundamentação que não me parece digna de um documento oficial deste porte.

A nota é assinada por um dos poucos bispos teólogos e ex-companheiro seu.

Não é propriamente companheiro, mas colega, no sentido de que ambos fomos professores de Teologia Fundamental. A verdade é que tenho a impressão de que ele se encontrou com um processo que já estava em andamento e que se sentiu obrigado a continuá-lo. Não posso entrar no mérito de se em consciência era para ele legítimo ou não consentir nessa decisão.

Quem são aqueles que há anos vem pedindo sua cabeça ou sua condenação?

Desde já, me consta que não foi o meu atual arcebispo. Creio ter motivos muito sólidos para pensar que os principais promotores se encontram na hierarquia e no assessoramento teológico. Mas, tratando-se de nomes próprios e não tendo evidência total, prefiro não dá-los a conhecer. Eles poderão fazê-lo em um diálogo público e buscando unicamente o bem da fé.

Trata-se de uma desqualificação da sua obra e da sua forma de ser e de fazer Igreja?

Assim como reza o texto, não desqualifica a minha obra em sua totalidade, embora deforme muito gravemente sua apresentação; quanto à minha forma de ser de fazer Igreja, o documento se mostra respeitoso, característica que agradeço.

Está recebendo muitas demonstrações de solidariedade?

É um rio que não para. Isso já havia ocorrido na ameaça anterior em 2009, e está se multiplicando neste momento. Com testemunhos, agora como na época, do muito que lhes está ajudando a minha teologia para manter a fé em uma circunstância e uma cultura que não o tornam fácil. Por isso considero injusto o começo da nota: “Em repetidas ocasiões chegaram à Conferência Episcopal Espanhola consultas sobre a conformidade dos escritos do Prof. Rvdo. Andrés Torres Queiruga com o ensinamento da Igreja católica”. Não digo que isso não seja verdade, mas seria bom que tivessem em conta os testemunhos em sentido contrário, às vezes comoventes e que me enchem de esperança, dos quais talvez algum dia valha a pena fazer uma pequena antologia. Porque, além disso, há sempre uma diferença notável entre o tom daqueles que escrevem acusando, que ordinariamente é obscuro, e daqueles que o fazem comentando e agradecendo, quase sempre cheio de clareza evangélica e fraternidade construtiva.

Vai continuar refletindo, publicando e repensando a fé em categorias atuais?

Evidentemente, essa é a minha vocação e minha paixão. É, sobretudo, meu modo de servir à comunidade eclesial e de fazer uma oferta fraternalmente cordial a todas aquelas pessoas que buscam a verdade, para além destas batalhas, no final das contas secundárias e muitas vezes frustrantes. Neste sentido, sinto que este episódio interrompe o meu trabalho de um livro que, recolhendo escritos anteriores, quer mostra o que indica o provável título: Alguém assim é o Deus em quem eu creio.

Por outro lado, está para aparecer o volume de homenagem que pessoas amigas me dedicaram por ocasião da minha aposentadoria: Repensar a teologia. Recuperar o cristianismo (Galaxia), que, embora tenha título em galego, tem também trabalhos em castelhano, português e italiano. Penso que o diálogo crítico que nele se estabelece sobre os pontos fundamentais da minha teologia, contando com minhas respostas, representa o verdadeiro proceder do encontro teológico. É pena que este tipo de iniciativa não se deixe ver mais e que também não tenha sido o estilo utilizado na elaboração do comunicado da Comissão.

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