Cadeia de mortes na ditadura argentina. Entrevista com padre Gonzalo Llorente

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Por: Jonas | 21 Agosto 2012

O julgamento ainda não começou. Na rua, entre aqueles que ainda não sabem que seu início foi prorrogado para o período da tarde está o padre Gonzalo Llorente, das Comunidades Eclesiais de Base. Quando tinha 19 anos, e ainda não era sacerdote, deixou a militância na JUP, em Buenos Aires, para fazer parte da primeira experiência de uso e propriedade coletiva da terra, criada em Vichigasta, pelo bispo Enrique Angelelli. Devido a essa experiência, primeiro se exilou na capital de La Rioja e, em seguida, em Buenos Aires, quando fuzilaram um de seus companheiros, o leigo Wenceslao Pederna, cinco dias depois de jogarem os cadáveres dos dois padres, Carlos Murias e Gabriel Longueville, num espiral – como certa vez o bispo o chamou – que acabou quinze dias mais tarde com a execução de Angelelli. A luta pela interpretação da sucessão destes casos é um dos eixos deste julgamento. Aqui, o homem que depois voltou para Buenos Aires, ordenou-se padre e agora é sacerdote de Chepes, volta compassadamente, da janela de um bar, a essa história que seguiu, no começo de agosto deste ano, com um encontro com seu bispo na região das planícies.

“Penso que em La Rioja as vozes de nosso povo foram caladas por meio de diferentes manobras, e o início do julgamento oral e público é como uma porta que se abre. É como se ficássemos calados diante de tanta impunidade, como que resignados. Sim, falta-nos, enquanto Igreja, não pregar a resignação, e a presença aqui como padres é a de encorajar. Este julgamento traz novas esperanças, por isso estamos aqui, porque não queremos que ele seja frustrado, e não queremos mais a resignação nem a impunidade. Começaremos com os padres, com Wenceslao e com o prelado (Angelelli). A sociedade civil deu muitas lições à sociedade religiosa, quem nos ensinou o perdão e o não esquecimento. A Igreja é muitas vezes cúmplice, em seu silêncio ou em suas atitudes, e isso é o que também nos foi dando essa falsa consciência, porque estou certo de que Deus não quer isto, menos ainda quando o outro não faz nenhum gesto de culpa ou arrependimento”.

A entrevista é de Alejandra Dandan, publicada no jornal Página/12, 17-08-2012. A tradução é do Cepat.

Eis a entrevista.

Em quem está pensando?

Em Videla, em Menéndez, em Estrella (comodoro Luis Fernando, acusado no julgamento), em Vera (ex-comissário Domingo Benito, também acusado), naqueles que mataram Wenceslao com furor e ódio diante da sua família, e nós nos calamos. Sente-se culpa nos silêncios.

Conviveu com Wenceslao?

Vivi bastante. Trabalhamos juntos num campo, na luta pela terra, pela qual se estava na zona rural porque se sentia inclinado vocacionalmente por estes setores do nosso povo, porque carrega a terra no coração. Estivemos juntos um ano e meio na luta, junto com dom Angelelli, na região de Vichigasta, em um campo que se chamava La Buena Estrella. Aí trabalhamos com Carlos, Rafael e Wences, do movimento rural, com Coca, sua esposa, e seus filhos. Isto começou depois do fracasso político que ocorreu diante das traições de Carlos Menem em seu primeiro governo, e de setores justicialistas e radicais, que nesse momento não quiseram expropriar o latifúndio em Salinas, que ficava em outro lugar.

Em que ano foi isso? O que aconteceu?

Foi em 1972, 1973. Dom [Angelelli] chegou a La Rioja em 1968. Com seu ouvido atento, uma das realidades que descobriu foi a de que a situação do homem do campo era das mais esquecidas: era tudo informal, as pessoas que estavam empregadas recebiam uma miséria ou apenas viviam porque as deixavam ficar no campo, não pagavam salários para elas, deixando com que tivessem suas galinhazinhas e algumas cabritas. Tudo isso tocou a consciência de dom [Angelelli] e da Igreja. Quis dar uma resposta a essa realidade e trouxe o Movimento Rural Diocesano, semelhante à Juventude Operária Católica, mas da zona rural. Estava preocupado com o senso de justiça, devido às estruturas de pecado que os camponeses sofriam. Nesse momento, havia um latifúndio improdutivo e dom Angelelli fez uma proposta de cooperativa. Algo que foi muito rejeitado e acredito que a sua morte pode ser interpretada na relação com os conflitos de terra. O conflito mais virulento que teve com os empresários e com a oligarquia de La Rioja foi por conta da questão da propriedade da terra, devido a um sistema muito injusto e autoritário do manejo da terra.

O que aconteceu com a proposta de cooperativa?

Sua ideia era expropriar esse latifúndio, que seus donos tinham tomado de uma forma muito injusta, despejando as pessoas, e buscava formar uma cooperativa de trabalho que beneficiaria cerca de 70 famílias. A proposta era apoiada pelo trabalho das irmãzinhas que ali estavam e pelas pessoas do movimento rural. Carlos Menem, durante a campanha eleitoral, primeiro disse sim, mas quando ele assumiu, no Congresso desatou-se uma luta pela expropriação e os deputados opuseram-se a entregá-la à cooperativa. Queriam fazer lotes individuais. E o bispo sentiu isso como uma traição muito dura.

O que Angelelli disse?

Angelelli manifestou-se em missas pelo rádio (o que ele fazia todos os domingos, até que o proibiram após o golpe). Ao final, nada foi feito. Nunca foi expropriado, mas foi um golpe duro porque ele [dom Angelelli] tinha muita afeição pelo trabalho das pessoas no campo. Ao mesmo tempo porque via também que isso poderia ter um efeito multiplicador sobre o uso e a propriedade da terra.

Aí começou a perseguição
.

Ainda não. Com uma doação das Irmãs da Assunção, em Palermo, foram compradas algumas terras. Aí, eu vim de Buenos Aires para La Rioja na intenção de me juntar a essa experiência, com Wenceslao, Carlos e Rafael. Formamos uma cooperativa, integramos a economia. Existia um trabalho em 340 hectares, com irrigação. Em fins de 1975, vieram todas as ameaças da Triple A. Angelelli nos disse: ‘Rapazes, eu vou pedir para que saiam daqui, pois não posso garantir a segurança de vocês’. Foi aí que Wenceslao foi com sua família para Sañogasta, que ficava próximo do primeiro lugar. Nesse momento, uma amiga de um padre francês comprou uma terra onde pudessem morar. Nós viemos para a capital de La Rioja. E no dia 25 de julho de 1976, eles o mataram, baleando-o violentamente diante da sua família.

Quanto tempo fazia que tinham saído?

Nós saímos no final de 1975, ou seja, aconteceu meio ano depois. Eu vim para La Rioja, e quando eles o mataram, voltei para Buenos Aires. Eu estava sozinho, tinha 19 anos quando cheguei, em 1973. Tinha uma militância política em alguns bairros, mas também na juventude universitária peronista, depois entrei no seminário, em 1978.

A pastoral dos mártires.


Aqui – disse Gonzalo –, quem liderava o projeto de construção de vida e popular era dom Angelelli. Acredito que era ele quem aglutinava todas as forças, diríamos, revolucionárias desse tempo: de transformação da sociedade, de um modelo mais social, socialista. Parece-me que estava bem identificado com a construção do reino, mas um reino de vida para todos, onde todos tivessem lugar. A partir desta militância, eu descobri o rosto do pobre, da situação de opressão e por isso eu vim para cá. Deixei o peronismo para me envolver numa militância a partir da Igreja, que possuía muitas afinidades com o projeto peronista, com alguns leigos e muitos outros que compartilhavam a visão do projeto. Quem conduzia os sonhos e a construção de organizações de bairro, de trabalhos comunitários, de um modelo diferente no uso da terra e de sua propriedade, partindo das orientações de Medellín e de San Miguel, era Angelelli. As pessoas que viveram essa Igreja eram de Deus, e estamos convencidos de que eles são mártires: se eles os mataram foi para calar uma Igreja, para calar uma voz, e por isso é uma memória que nos interpela, nos compromete, e seríamos muito incoerentes se não resgatássemos esse compromisso e essa luta que chegou até a derramar sangue.

Houve um ato no último dia 18 de julho. O bispo não falou em mártires, mas em supostos mártires, como se a Igreja ainda custasse a reconhecer.

É verdade. A estrutura da Igreja é uma estrutura pesada que vamos fazendo caminhar, e temos a esperança de estar fazendo isso. A sentença do juiz, de declarar a morte de Angelelli como premeditada, de que não foi um acidente, mas um assassinato, ajudou. O Episcopado apenas agora disse que foi isso que aconteceu. No último dia 5 de agosto, celebramos uma missa campal com o bispo daqui. Nessa região continuamos alimentando esse espírito da pastoral, talvez porque o martírio nos tocou mais de perto. Mas, veio o bispo para presidir a eucaristia e leu a carta do Episcopado, que expressa e faz sua a sentença da Justiça civil, a mesma que até agora tinha silenciado. Uma coisa que nos dói profundamente é que ainda não se pôde iniciar a causa de beatificação, pois não havia a sentença, que agora já existe.

O que fariam eles, caso estivessem aqui?

Carlos era jovem e tinha muitas expressões interessantes. Em cada dia 18 de julho se faz uma peregrinação juvenil e vai se fazendo a memória, resgatando o que eles viveram e buscando fazer com que continuem a nos interpelar ainda hoje. Imagino-os na luta de hoje, que é a questão do campesinato. Angelelli animava a organização popular. Agora, muitas terras estão sendo vendidas. Como aconteceu com a fronteira agrícola, valem mais para a criação de gado, e quem chega já não possui relação com os vizinhos. Então, ficam sem campo para que suas cabras possam andar. Porque é muito difícil viver no campo, na nossa região. Temos 300 milímetros de água no ano e a prece do nosso povo sempre é a chuva. Começamos, agora, em agosto, continuamos em setembro e outubro: as missas todas para que chova. Se não chove tem que trazer água do povoado ou vender os animais e, neste tempo, estamos com uma grande seca. Não é fácil. E o sentido da vida é quando existem desafios e sonhos, que são feitos da construção e da escuta, e não em esperar que o outro se resigne a me dar alguma coisa ou me traga água.

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