Argentina. Três ex-generais, e um bispo morto

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28 Novembro 2011

O ditador Jorge Rafael Videla, seu ex-ministro Albano Harguindeguy e o ex-comandante do Terceiro Corpo de Exército, Luciano Benjamín Menéndez, foram formalmente acusados pelo assassinato do ex-bispo de La Rioja Enrique Angelelli, em 1976. O juiz federal de La Rioja, Daniel Herrera Piedrabuena, considerou que há provas suficientes para afirmar que o acidente que custou a vida de Angelelli foi um "acidente automobilístico provocado", em resposta às denúncias pelos assassinatos de religiosos na localidade de Chamical. O religioso tinha em seu poder, no momento do assassinato, documentos sobre crimes da ditadura que acabaram no escritório de Harguindeguy, então ministro do Interior, que, ao contrário de Videla e Menéndez, ainda não foi condenado em nenhum processo.

A reportagem está publicada no jornal argentino Página/12, 25-11-2011. A tradução é do Cepat.

A decisão do juiz federal de La Rioja incluiu, além disso, o ex-segundo chefe do esquadrão de tropas em Chamical, Luis Estrella, e o ex-comissário e então chefe do Serviço de Informações da polícia de La Rioja, Juan Carlos "a Bruxa" Romero. Pelos cargos hierárquicos que ocupavam na estrutura repressiva ilegal, os cinco processados foram considerados autores mediatos de homicídio qualificado e associação ilícita agravada.

O magistrado considerou provado que a ditadura espionou sacerdotes que trabalhavam com setores pobres e com camponeses que lutavam por suas terras e que o crime de Angelelli se dá no marco de "uma tentativa de evitar que as denúncias por violações aos direitos humanos e assassinatos viessem a público, sobretudo no exterior, já que o religioso cordobês tinha acesso a altas hierarquias da Igreja em diferentes lugares do mundo".

"Antes da morte de dom Enrique Angelelli existia um quadro de perseguição a certos setores da Igreja católica, que se exteriorizavam desde anos anteriores ao golpe de Estado de 24 de março de 1976, o que é corroborado por diferentes testemunhos e, como se assinalou anteriormente, acabaram nos homicídios de Longueville, Murias, Pedernera e de dom Angelelli", advertiu o juiz em uma extensa resolução de 120 páginas, ditada 35 anos depois dos fatos. Os sacerdotes Gabriel Longueville e Carlos de Dios Murias foram assassinados em Chamical em 18 de julho de 1976 junto com o leigo Wenceslao Pedernera. Angelelli tentava desentranhar os crimes e carregava consigo "um bloco de anotações com informações que havia recopilado", escreveu o juiz, e acrescentou que o bispo "temia por sua vida" porque "era perseguido pela polícia provincial".

O acidente provocado em que morreu Angelelli ocorreu no dia 04 de agosto de 1976. O veículo, um Fiat 125 que o próprio bispo dirigia, foi acidentado perto da localidade de Punta de los Llanos. Seu acompanhante, o ex-sacerdote Arturo Pinto, ficou ferido, mas sobreviveu. No mesmo ano, o primeiro da ditadura, a Justiça local arquivou o caso com a alegação de que se tratou de um acidente. O caso foi reaberto após o retorno da democracia, em 1984, quando começou a se investigar o homicídio, mas foi novamente arquivado devido à sanção das leis de ponto final e obediência devida.

Herrera Piedrabuena considerou provado, em base ao testemunho de Pinto, entre outros, que o carro Fiat 125 foi atingido por outro veículo. Testemunhas que acorreram ao local confirmaram a presença de policiais e pessoal civil da inteligência do Exército, que estava sob a órbita do processado Menéndez, que "apontavam com Itakas" para que os moradores se afastassem. O magistrado relatou também que, antes de partir de Chamical rumo a La Rioja, o sacerdote Pinto havia feito uma revisão no veículo, razão pela qual "o veículo estava em perfeitas condições para viajar". Partiram às 14h30 pela Ruta Nacional 38 e tomaram um "caminho antigo da estrada" para evitar ser "encomodados". Segundo o relato de Pinto, um veículo branco se aproximou na mesma direção de Angelelli e realizou uma manobra "intencionalmente brusca pelo lado esquerdo, provocando seu tombamento".

A acusação de Videla, Menéndez e Harguindeguy inclui uma reconstrução da obra pastoral de Angelelli, com citações de seus sermões e testemunhos sobre o trabalho realizado pelos sacerdotes provinciais para evitar que os camponeses fossem expropriados de suas terras por grandes empresas. Angelelli tinha viajado, em abril de 1976, para conversar com Harguindeguy em Buenos Aires e pedir a liberdade do pároco da localidade de Ota, Eduardo Ruiz, e mantinha reuniões com altas hierarquias da Igreja, para quem colocava uma e outra vez suas denúncias, como se pode comprovar pela correspondência com dom Vicente Zazpe. "Era clara a ameaça de que a repressão que se estava levando a cabo na Argentina obteria importância internacional", concluiu o juiz para explicar o motivo do crime.

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