“Nós estamos afogando!” O grito exemplar dos pobres em Manaus

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Por: Jonas | 05 Maio 2012

O bairro Arthur Bernardes fica no centro da cidade de Manaus, na junção de duas principais avenidas: São Jorge e Constantino Nery. É um bairro de palafitas, à margem do Igarapé (arroio que, em tupi-guarani significa: “caminho da canoa”) da Cachoeira Grande (cascata grande), que desemboca no rio Negro, afluente do Amazonas. Nele vivem 550 famílias, que, em sua maioria, vieram do interior buscando melhoras de vida (saúde, educação, trabalho, etc.). São famílias pobres, sem recursos econômicos para comprar um terreno num lugar seguro e que acabaram se instalando nesta área de risco, que ocupam sem ter que pagar por ela.

A reportagem é de Anizete Miranda, Fernando López e Luiz Delgado, da Equipe Itinerante, que atua no Amazonas. A tradução é do Cepat.

Neste bairro, em duas de suas casas palafitas, vive a Comunidade Itinerante de Manaus, já há vários anos. Com estas famílias compartilhamos lágrimas e sorrisos, dores e alegrias, derrotas e conquistas, lutas e esperanças... Baseado aqui, em Manaus, foi que começou a Equipe Itinerante, em 1998.

A vida sobre tábuas é dura: todas as casas e as pontes que ligam umas com as outras são de madeira. Por debaixo das casas passa a água que arrasta o lixo de toda a cidade e que, também, recebe os dejetos do bairro, já que não existe uma infraestrutura de saneamento. As águas dos chuveiros e dos banheiros vão diretamente para o arroio. A luz e a água da maioria das casas são “gatos”, ou seja, ligadas diretamente da rede de distribuição urbana, de maneira irregular. Com muita criatividade e bom humor, toda a vida das pessoas (velhos, jovens e crianças) e animais (cachorros, gatos, ratos) transcorre sobre a estreiteza das tábuas. Não há como escapar do relacionamento de uns com outros: nas passarelas estreitas, nas casas grudadas, parede com parede, nas conversas de janela a janela e de porta a porta. Tudo é um exigente ensaio de convivência.

Em 2009, houve a maior cheia do rio Amazonas, registrada na história. O bairro ficou totalmente inundado. A água do rio entrou em todas as casas e tiveram que montar “marombas”, um falso piso sobre o qual se pode ficar até que as águas voltem ao seu curso normal. Para que o Governo ajudasse a comunidade, nesta situação de emergência, foi preciso chamar a imprensa e fazer muita pressão com manifestações, fechando as avenidas principais que dão acesso ao centro da cidade, etc. Lamentavelmente, somente por pressão social é que as ajudas governamentais chegaram.

Graças ao esforço e luta da Associação de Moradores Arthur Bernardes, cuja sede-palafita foi construída com o apoio da Cáritas Tenerife (Espanha), foi alcançado o compromisso do Governo em urbanizar a área. Inicialmente, o projeto governamental só previa indenizar, com uma pequena quantidade, as famílias do bairro. Sob o pretexto de “sanear os rios de Manaus”, o governo aproveitava para fazer uma “limpeza social”, tirando todos os pobres do centro da cidade. A Associação Arthur Bernardes denunciou esta injustiça e conquistou este espaço habitacional para todos os moradores do bairro. Muitas famílias querem continuar vivendo nesta área central estar próxima de seus trabalhos. Com a ajuda da Associação, o esforço e a união das famílias, o espaço e o direito de uma vida digna para todos foi garantido. Embora o projeto de urbanização, com início previsto para dezembro de 2011, segundo as placas do governo, ainda não tenha começado, e já estamos em maio de 2012.

Neste ano, um novo recorde histórico de cheia do rio Amazonas está se repetindo. Nos mais de 30 anos em que vivem nessa área, os moradores mais antigos do bairro não se lembram de algo parecido. Eles dizem que isto é “a mudança climática”. De fato, o desequilíbrio climático e ambiental do planeta já é sentido de maneira muito forte em toda a região amazônica.

Com a cheia das últimas semanas e as fortes chuvas dos últimos dias (abril), muitas casas já se encontram sob a água. E ainda restam dois meses de cheia do rio (maio e junho). Os moradores já tiveram que levantar o piso (“marombas”), colocando madeiras para ter um espaço seco e seguro para colocarem suas coisas e poderem “viver encurvados”, com a cabeça encostando-se ao teto. Muitos banheiros já não podem ser utilizados... Solidariamente, os vizinhos se ajudam carregando as coisas e emprestando suas precárias instalações.

A história se repete mais uma vez: as ações do governo chegam muito tarde! Há meses, sabia-se o prognóstico da cheia do rio e a Associação Arthur Bernardes alertou várias vezes as autoridades para que agilizassem as ações de emergência antes que fossem alagadas as casas e passarelas do bairro. Porém, o pessoal da Defesa Civil só chegou depois da inundação de grande parte do bairro, devido à pressão dos vizinhos e da imprensa, para construir uma passarela sobre o caminho principal (“ponte sobre ponte”) do bairro. Isto resolve a questão do acesso ao bairro, mas não o problema das casas, que seguem alagadas e não está prevista nenhuma solução até o momento.

Frente a desesperadora situação e nervosismo das pessoas, a Associação fez uma convocação das famílias para se mobilizarem, num protesto pacífico, fechando a avenida São Jorge, que dá acesso ao centro da cidade. O objetivo era que comparecesse algum representante do governo para atender, com urgência, a situação do bairro.

Os moradores, organizados com faixas e um grande alto-falante, rapidamente fecharam a rua com dois troncos e outras coisas como pneus, uma televisão, um colchão, etc. Os primeiros carros dão a volta, enquanto as crianças jogam futebol no meio da avenida... Primeiramente, aparece a polícia local e tenta organizar o tráfego, desviando-o pela primeira saída de rua... As pessoas avançam até esse ponto, tornando conhecido, para as pessoas que passam, o motivo da manifestação e do fechamento da avenida... Chegam os primeiros meios de comunicação e começam as declarações dos líderes de bairros e dos moradores... Então, chega a polícia militar e o batalhão de choque... A tensão cresce. Os manifestantes insistem que se trata de uma manifestação pacífica, reivindicando respeito à sua dignidade e atenção ao caso de emergência em que vive todo o bairro e muitos outros de Manaus.

Após algumas manifestações, foi chamado um representante do governo para comparecer ao local, as pessoas retornam até a entrada do bairro, fechando somente um lado da avenida. Insiste-se que não se trata de um ato de vandalismo, mas de uma ação reivindicatória e é pedido desculpas pelos incômodos causados, embora os moradores do bairro não tenham outra forma para serem escutados pelas autoridades.

Finalmente, após mais de cinco horas de manifestação, chega o representante do Governo. Ele promete realizar um cadastro e buscar as soluções mais imediatas possíveis, devido a essa situação de emergência...

Durante dois meses, a água continuará subindo e, a cada dia, a situação no bairro se agrava. Se o governo não cumprir satisfatoriamente com as justas reivindicações dos vizinhos, na próxima semana as manifestações continuarão, fechando-se as duas avenidas próximas ao bairro, que dão acesso ao centro da cidade...

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