A metáfora da semente. Gérmens de ressurreição na Igreja

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12 Abril 2012

Declarar que a Igreja é uma semente implica indicar duas dinâmicas complementares: a disponibilidade de se esvaziar das suas aquisições para enriquecer-se através da comunhão vital com os outros, ou seja, "a disponibilidade de morrer para que a vida possa florescer".

A opinião é do teólogo italiano Carlo Molari, ex-professor das universidades Urbaniana, Lateranense e Gregoriana de Roma, em artigo publicado na revista Oreundici, de abril de 2012. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Eis o texto.

O Concílio Vaticano II, descrevendo a forma ideal de Igreja na Constituição Lumen Gentium, afirma que deve "constituir o germe e o princípio do Reino de Cristo e de Deus na terra" (LG n. 5), e que constitui para toda a humanidade "um germe mais firme de unidade, de esperança e de salvação" (n. 9). A metáfora do germe deve ser explicada. O germe ou semente não é autossuficiente, tem alguns componentes essenciais da realidade futura, mas, para desenvolvê-los, precisa ser completado pela água, pelos sais da terra, pelo calor e pela luz do sol. Esse completamento ocorre através de uma decomposição. Para desenvolver as potencialidades, ele deve, acima de tudo, se desfazer, se perder, se decompor.

Jesus insistiu sobre esse processo de aniquilação, porque é indicativo de atitudes e de dinâmicas essenciais da Igreja. "Se o grão de trigo não cai na terra e não morre, fica sozinho. Mas se morre, produz muito fruto" (Jo 12, 24). Paulo retoma a mensagem a propósito da ressurreição, indicando a morte como condição para a vida nova: "Aquilo que você semeia não volta à vida, a não ser que morra" (1Cor 15, 36).

Concretamente, declarar que a Igreja é uma semente implica indicar duas dinâmicas complementares: a disponibilidade de se esvaziar das suas aquisições para enriquecer-se através da comunhão vital com os outros, ou seja, "a disponibilidade de morrer para que a vida possa florescer".

Esse processo nunca é apenas individual, mas pressupõe e envolve ambientes vitais. O primeiro problema, por isso, é comunitário: que ambiente vital a comunidade é capaz de criar, de modo a fazer florescer e amadurecer os gérmens de ressurreição? É preciso um ambiente de vida teologal, de acolhida, de oração, de atenção aos sinais dos tempos. Neste tempo, existem muitos gérmens de ressurreição na Igreja, mas exigem o ambiente adequado para se expressar como sinais do Reino e para florescer como novidades de vida.

Se quisermos examinar alguns deles podemos lembrar: os muitos lugares de diálogo inter-religioso no mundo, as comunidades ecumênicas, as formas de voluntariado, os grupos de solidariedade. As comunidades de diálogo inter-religioso são pequenos lugares de fraternidade entre as pessoas de culturas e religiões diversas. O documento Diálogo e Anúncio (1991) os descreve de modo exato: "... pessoas radicadas nas próprias tradições religiosas compartilham as suas riquezas espirituais, por exemplo, no que se refere à oração e à contemplação, à fé e aos caminhos da busca de Deus e do Absoluto" (n. 42).

Esses centros modificam a partir de dentro a interioridade, oferecem uma contribuição notável no campo da teologia das religiões e acompanham o caminho da reflexão católica com intuições originais e com uma base experiencial muito ampla. O conhecimento a partir de dentro das respectivas religiões permite que se forneçam elementos que dificilmente podem ser encontrado nesse nível em outros autores.

O valor da teologia do diálogo entre as religiões está na sua base experiencial. Não partimos de categorias pré-constituídas, mas sim das experiências realizadas e do seu caminho espiritual, que certamente nem todos podem fazer, mas que amanhã se tornará obrigatório. Não haverá futuro se ficarmos fechados nas nossas pequenas experiências religiosas. O futuro pertence àqueles que serão capazes de falar mais linguagens e de entrar nos diferentes mundos religiosos. Os sinais estão nas inúmeras pessoas que praticam o diálogo e alimentam as relações.

A principal dificuldade está no fato de que não fomos educados para reconhecer as riquezas das outras culturas e das outras religiões. Ao contrário, era proibido pensar que houvesse, era proibido dialogar. Nos anos 1950, quando eu estudava teologia, os livros dos protestantes na biblioteca eram mantidos sob chave e, para lê-los, era necessária a autorização do Santo Ofício. Foram os modernistas que começaram a refletir sobre os elementos comuns das diversas religiões, mas o fizeram com uma atitude sincretista que depreciava o valor da religião cristã. Habitualmente, todas as culturas tendem a se considerar como únicas e a subestimar os outros. O pluralismo dá medo, porque implica a ideia de que toda tradição religiosa não é tudo, precisa ser confrontada, deve acolher os outros.

Por outro lado, as afirmações da unicidade da salvação em Jesus expressam, sem dúvida, a riqueza da experiência que os primeiros cristãos fizeram, mas pesaram notavelmente sobre a teologia das religiões em âmbito cristão. Aqueles que se dedicavam a ela eram logo postos em suspeita. Só depois do Concílio Vaticano II é que se rompeu o muro de separação, e o diálogo se tornou um componente essencial da missão. O relativismo ou o sincretismo são um risco, mas podem ser evitados, e é justamente esse aspecto que constitui um sinal de ressurreição: viver o diálogo como reconhecimento mútuo e aprofundamento da riqueza adquirida.

A humanidade mediante homens e mulheres espirituais está dando um passo à frente na acolhida recíproca. Como bem observa o missionário comboniano Giuseppe Scattolin, especialista em diálogo com o Islã: "Deve-se dizer que é justamente ao assumir a alteridade do outro com toda a seriedade e sem álibis que chegamos a compreender a própria identidade de modo cada vez mais profundo e verdadeiro. Alteridade e identidade não se excluem nem se anulam necessariamente, ao contrário, elas se requerem e se reforçam mutuamente. A compreensão de si mesmo não é cancelada, ao contrário, é amplificada e aprofundada através da abertura ao outro, ao diferente. É preciso, portanto, ter um olhar mais holístico da experiência religiosa, e não um preconceito relativista e reducionista dela" (Spiritualità in dialogo).

Um outro gérmen de ressurreição é constituído pelo voluntariado. Em um mundo em que as relações são cada vez mais condicionadas pelo interesse econômico, ganham espaço formas de atividade desinteressada e gratuita. São inúmeras iniciativas de fraternidade e de solidariedade que modificam desde a raiz as dinâmicas de relação.

Bento XVI, na encíclica Deus caritas est, escreve: "Nasceram e desenvolveram-se numerosas formas de colaboração entre as estruturas estatais e as eclesiais"; "um fenômeno importante do nosso tempo é a aparição e difusão de diversas formas de voluntariado, que se ocupam duma pluralidade de serviços. Desejo aqui deixar uma palavra de particular apreço e gratidão a todos aqueles que participam, de diversas formas, nestas atividades. Tal empenho generalizado constitui, para os jovens, uma escola de vida que educa para a solidariedade e a disponibilidade a darem não simplesmente qualquer coisa, mas darem-se a si próprios. À anticultura da morte, que se exprime por exemplo na droga, contrapõe-se deste modo o amor que não procura o próprio interesse, mas que, precisamente na disponibilidade a 'perder-se a si mesmo' pelo outro, se revela como cultura da vida" (n. 30).

Ligado a isso está o terceiro gérmen de ressurreição na Igreja: a difusão do espírito de misericórdia e a atenção pelos mais fracos da sociedade. Difunde-se cada vez mais a sensibilidade pelos marginalizados e as intervenções pela defesa das crianças, das mulheres solteiras, dos idosos abandonados.

Um quarto gérmen de ressurreição na Igreja é constituído pelo crescente interesse de muitos pela renovação da teologia. O teólogo é aquele que acompanha o caminho da comunidade eclesial estimulando a reflexão crítica sobre a experiência de fé de modo a saber traduzi-la em formas corretas e eficientes. O teólogo não é capaz por si só de formular a experiência de fé da Igreja, ele precisa da contribuição de todos: "A teologia cristã sempre existiu como elemento de um todo" (G. Ruggieri, Prima lezione di teologia, Ed. Laterza, 2011 p. 44).

A esse propósito, deve-se observar que, em certos ambientes eclesiais, dá-se excessiva importância à doutrina, enquanto que "a intenção principal da narrativa fundacional não está na determinação objetiva dos elementos, mas sim no alimento espiritual da experiência de fé, na sua legitimação profunda, além da preocupação apologética. A 'doutrina' continua sendo, portanto, elemento orgânico de um 'todo', isto é, de uma ordem entre diversas instâncias da vida da comunidade" (Ibid., p. 43).

De acordo com as fases da história e de acordo com o caminho da comunidade eclesial, a função do teólogo adquire maior ou menor importância, mas nos períodos de reviravolta cultural ele precisa da contribuição contínua da comunidade. A estrutura difusa e capilar do ensino teológica no Itália favoreceu o interesse pelos problemas da renovação do método e das pesquisas de teologia entre os fiéis. Espera-se que as respostas das estruturas oficiais também respondam a essa demanda de base.

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