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Teólogo alemão defende que divorciados em segunda união têm direito à Comunhão

Uma "reavaliação teológica" dos divorciados novamente casados e um novo modo de interagir com eles por parte a Igreja: o pedido veio do teólogo alemão Eberhard Schockenhoff (foto), professor de Teologia Moral da Universidade de Friburgo, por ocasião de uma jornada de estudo da Ação Católica Austríaca (Kao), realizada em Salzburgo, no dia 1º de fevereiro passado.

A reportagem é de Ludovica Eugenio, publicada na revista Adista Notizie n. 7, 20-02-2012. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

A Igreja, disse o teólogo, deve salientar a sua disposição à reconciliação no espírito das fontes bíblicas e da prática da Igreja primitiva, separando-se de uma atitude de "condenação moral" que provoca nos interessados um "sentimento de dolorosa exclusão".

"Os separados, os divorciados e aqueles que se casaram novamente não estão às margens da Igreja, mas pertencem a ela assim como muitos outros cristãos que imperfeitos ou que erraram", disse Schockenhoff, que, nos últimos anos, se ocupou muito do problema, a ponto de dedicar a ele um livro cujo título foi retomado como tema da jornada de estudo: "Oportunidade de reconciliação? A Igreja e os divorciados novamente casados".

A sua proposta é radical: a Igreja pode e deve conceder a Comunhão aos divorciados em segunda união. Em primeiro lugar, trata-se de uma "emergência pastoral": o número desses católicos, atualmente excluídos da vida sacramental, segue aumentando, e a problemática relacionada com a sua participação na vida eclesial não pode mais ser adiada. Em segundo lugar, não há nenhum motivo – tanto nas Escrituras, quanto na práxis da Igreja das origens – que impeça esse passo.

A referência às palavras de Jesus sobre a indissolubilidade do matrimônio diante de Deus, afirma o teólogo, não pode ser simplesmente equiparado a uma norma canônica, enquanto nos Evangelhos de Mateus e de Marcos, e nos textos de São Paulo havia "tendência contracorrente" e "circunstâncias excepcionais" nas quais o divórcio podia ser tolerado. E, se a indissolubilidade do matrimônio continua sendo "o único critério válido", isso não significa, argumenta Schockenhoff, que, de um ponto de vista bíblico, não possa haver "situações de emergência" como uma exceção a esse padrão. Essa "flexibilidade no rigor" também caracterizou a prática dos primeiros séculos da Igreja.

Posições semelhantes foram expressas, afirma o teólogo alemão, até por Joseph Ratzinger que, em um ensaio de 1972, escreveu que, segundo o magistério clássico, "sempre houve, na pastoral concreta, uma práxis mais elástica que nunca foi considerada totalmente conforme à verdadeira fé da Igreja, mas que nunca foi absolutamente excluída". Uma admissão regulada aos sacramentos das pessoas interessadas, afirmava Ratzinger, "está plenamente em linha com a tradição da Igreja".

Outro fato que fala em favor da admissão aos sacramentos, defende Schockenhoff, é que, mesmo em uma nova união civil, podem estar presentes "todos os elementos que, segundo a Igreja, são constitutivos do matrimônio": a fidelidade , a vontade de dedicação total ao/à parceiro/a, a abertura aos filhos etc. Consequentemente, um segundo casamento não reconhecido pelo direito canônico poderia não ser mais considerado um não matrimônio ou um concubinato. O discurso corrente de um "adultério contínuo" ou de um "estado de pecado grave" também é, à luz dessas considerações, "totalmente inaceitável".

A partir dessa reavaliação teológica de um novo casamento civil, afirmou ainda o teólogo de Friburgo, deriva "de modo vinculante o fato de que os divorciados em segunda união não estão excluídos da Comunhão permanente ou até a morte do seu próprio parceiro". "Em sinal de respeito pelo juízo de consciência formulado pelas pessoas interessadas", a Igreja deve convidar os divorciados novamente casados para participar da vida comunitária e da Comunhão eucarística. Só assim, de fato, ela pode oferecer uma autêntica "oportunidade de reconciliação". Tal passo, "pronunciado pela Igreja publicamente", representaria a correção de um "desvio catastrófico": isto é, o de uma Igreja impiedosa e desinteressada por essa categoria de pessoas.

Outra situação, outra dor

No estado atual, nem os casais regularmente casados mas pertencentes a confissões religiosas diferentes podem participar da Eucaristia juntos, e isso é fonte de grande dor, como foi revelado ao longo de um encontro ecumênico intitulado Ecumenismo: Encontro de pertencentes a tradições e confissões cristãs diferentes, realizado na Faculdade de Teologia Católica de Innsbruck, entre os dias 13 e 15 fevereiro.

Uma situação, a dos casais de confissões diferentes, muito difundida na Áustria, como destacou a superintendente da Igreja Evangélica Luterana, Louise Müller, que explicou como em algumas áreas do Tirol há até 95% de casais interconfessionais. Daí a necessidade de identificar soluções comuns.

Os bispos estão bem conscientes disso, afirmou, em entrevista à Kathpress, o bispo de Innsbruck, Dom Manfred Scheuer, responsável pelas questões ecumênicas da Conferência dos Bispos da Áustria, referindo-se ao Diretório Ecumênico do Vaticano de 1993, que sanciona que os não católicos podem, em casos individuais, ser admitidos aos sacramentos da Igreja Católica.

O cardeal Kurt Koch, presidente do Conselho Pontifício para a Promoção da Unidade dos Cristãos, também admitiu que a situação atual é "muito difícil e insatisfatória", porque "as convicções de fundo das diversas Igrejas se refletem aqui sobre pessoas concretas". A situação desses casais, disse o prelado, "sempre foi para mim um motivo para me comprometer com o ecumenismo". "São necessárias, definitivamente, soluções ao alcance das nossas mãos".

Para Elisabeth e Klemens Betz, da Arge Ökumene (comunidade de casais e famílias pertencentes a confissões religiosas diferentes), a "experiência comum de uma ceia eucarística comum" pode ser "um sinal de reconciliação" e pode tornar as Igrejas mais próximas. É preciso falar, afirmaram, sobre o sofrimento dos casais interconfessionais e da necessidade de uma prática que derive de normas bem claras e que não dependa da abertura ou não dos padres individuais, o que transformaria a partilha da Eucaristia em uma espécie de "contrabando".

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