Abundância frugal: receita anticrise. Entrevista com Serge Latouche

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24 Fevereiro 2012

"Conta-se que o grande economista de Yale, Irving Fisher (1867-1947), tinha um papagaio que ele tinha amestrado para responder a todas as perguntas dos estudantes repetindo: 'É a lei da oferta e da procura'. Assim começa o último livro de Serge Latouche (Per una decrescita frugale. Malintesi e controversie sulla decrescita [Por um decrescimento frugal. Mal-entendidos e controvérsias sobre o decrescimento], publicado pela Bollati Boringhieri), que – segundo o autor – retoma e sistematiza os "mal-entendidos" e as "controvérsias" que surgiram com a publicação dos livros anteriores.

A reportagem é de Davide Gianluca Bianchi, publicada no jornal dos bispos italianos, Avvenire, 15-02-2012. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Um livro que coloca em suas páginas as respostas-padrão das quais Latouche se serviu nos últimos anos para as entrevistas e que agora – admite – ele também usou "para satisfazer as respostas cada vez mais numerosas de improváveis discussões que me chegam por e-mail".

Latouche é uma celebridade: respondendo às nossas perguntas, ele nos diz que "há três semanas concedo ao menos uma entrevista por dia". Professor emérito de Ciências Econômicas da Universidade de Paris-Sul, autor extremamente prolífico, que desde 2007 publica nada menos do que dois livros por ano, Latouche é o principal teórico do "decrescimento feliz", associado com a "abundância frugal", dos quais lhe pedimos para nos oferecer uma versão "divulgativa".

Eis a entrevista.

Professor Latouche, se você tivesse o papagaio de Fischer à disposição, nestes dias, o que você lhe pediria para repetir sistematicamente a cada possível interrogação?


Boa pergunta! Mas não há uma resposta, porque a lei do mercado, efetivamente, tem uma resposta para tudo, enquanto as coisas estão de modo completamente diferente no universo antieconômico do decrescimento. Explicar o que é o decrescimento e responder às objeções que ele levanta supera a capacidade de pássaros falantes.

Tentemos...

O decrescimento é uma" função performativa" ou uma "utopia concreta". Dito em termos mais simples, é um projeto de construção de uma sociedade de abundância frugal para sair das aporias da sociedade de consumo. Eu me dou conta de que o projeto de que falo é um desafio provocador, até mesmo blasfemo com relação aos dogmas econômicos aos quais estamos acostumados. Mas, assim como as árvores não podem crescer até o céu, assim também não existe – e não pode existir – o crescimento infinito. Particularmente para o Ocidente daqui em diante.

Em outros lugares sim?

Eu não quero dizer isso, mas sim outra coisa. É natural que a África tenha margens de crescimento, e talvez não seja o caso de nos admirarmos (como alguns fazem) com as taxas de crescimento que, nos últimos anos, são expressas por alguns países desse continente, que de fato nunca cresceu e só agora começam a fazê-lo. E, mutatis mutandis, o mesmo poderia ser dito sobre os chamados países do Bric: Brasil, Rússia, Índia e China. Mas o Ocidente cresce há séculos: é claro que haverá um limite, ao qual – a meu ver – nos aproximamos nos últimos anos. É o nosso modelo cultural – aliás: é sempre a cultura que rege a economia, não o contrário – que entrou em crise. É a "sociedade de consumo" como a conhecemos até hoje que não funciona mais.

Concordo. Permita-me então fazer-lhe a pergunta do homem comum (e talvez não apenas): o que está acontecendo?


Como eu dizia antes, as árvores não chegam ao céu: elas crescem até um certo ponto e depois param. Agora, encontramo-nos nesse ponto, com um agravante: viemos de 30 anos de crescimento ilusório. No segundo pós-guerra, tivemos 30 anos de crescimento real – aqueles que na França chamamos de os "30 gloriosos" (1945-1975) – aos quais se seguiram 30 anos de crescimento virtual: o da gigantesca expansão do crédito e dos produtos financeiros . Segundo os adeptos aos trabalhos, o dinheiro virtual em circulação (dotado, portanto, de efeitos "reais") seria de 600 trilhões de dólares [mais de 1 quatrilhão de reais], segundo os mais prudentes, ou até de um quatrilhão de dólares [ceca de 1,7 quatrilhão de reais], segundo outras estimativas. Esses números superam o PIB mundial de 15 a 20 vezes! É uma enorme bolha especulativa (imobiliária, além de financeira) que só poderia explodir, com os efeitos que temos debaixo dos nossos olhos.

O futuro do euro está marcado, em sua opinião?

Temo que sim, porque o único ator que poderia realmente mudar as coisas é a China: se amanhã os fundos soberanos chineses decidissem comprar títulos da dívida pública europeia, em vez da norte-americana, nós resolveríamos os nossos problemas. Mas, com toda a probabilidade, eles não vão fazer isso, porque os norte-americanos disseram claramente que a desvinculação da sua dívida seria considerada um ato politicamente tão hostil quanto (ou quase) um ataque militar. Então, hoje, não vejo outras saídas. Devemos aprender a viver no decrescimento, o que não significa necessariamente recessão. É uma "prosperidade sem crescimento".

É uma ideia diferente de sociedade?

Eu diria que sim. Como dizia o antropólogo Marcel Mauss, a cola do tecido social está no espírito do dom, e certamente não no utilitarismo. E isso abre a possibilidade de que se olhe para o outro – para o "próximo", como diz a ética cristã – com olhos diferentes. Sob esse aspecto, a crise é uma grande oportunidade.

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