Crianças indianas colhem os frutos amargos do endosulfan

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23 Fevereiro 2012

Em alguns vilarejos de Kerala, metade das famílias têm uma criança com deficiência grave: legado, dizem os moradores, da pulverização de pesticidas.

A reportagem é do sítio do jornal The Guardian, 11-02-2012. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Os moradores do vilarejo veem a poeira subindo da pista e sabem que o Dr. Mohammed Asheel está a caminho.

Em uma pequena casa afastada de uma estrada principal cercada por plantações de castanhas de caju, Chandika Rai pega seu filho de 11 anos, Kaushiq, e o carrega para a sala da frente da casa.

Por 30 minutos, enquanto o médico, uma enfermeira e um fisioterapeuta estão lá, a sua vida é um pouco mais fácil. Depois que a equipe médica vai embora – para uma casa vizinha, onde outra criança seriamente incapacitada está esperando –, Chandika fica sozinha novamente.

O Dr. Asheel tem uma grande demanda no Kattuka, um amontoado de casas de cimento e madeira em uma encosta de terra vermelha e luxuriantes árvores verdes no extremo norte do estado indiano de Kerala. Em 50% das casas do vilarejo, há uma criança ou um adulto com sérias deficiências.

O médico de 29 anos, funcionário do departamento de saúde pública, e os moradores culpam o endosulfan, um pesticida desenvolvido nos anos 1950 e pulverizado sobre as plantações de caju vizinhas nos anos 1980 e 1990.

Os ativistas dizem que a situação das milhares de pessoas como Chandika e Kaushiq significa que o envenenamento por endosulfan no sul da Índia é um dos desastres mais graves desse tipo no mundo – e um dos menos conhecidos.

Em setembro, a Suprema Corte indiana deu continuidade à proibição do uso de endosulfan que havia sido imposta no início deste ano. Rejeitando os argumentos de dezenas de produtores, que dizem que não há ligação entre o pesticida e as deficiências observadas em Kerala e no estado vizinho de Karnataka, os juízes mantiveram a moratória sobre o uso do produto químico na Índia.

Eles, no entanto, permitem que as empresas indianas vendam os estoques existentes para o exterior, para os raros lugares onde o produto ainda é legal. A decisão não conseguiu aplacar a crescente raiva dos moradores de lugares como Kattuka.

"Fiquei muito feliz quando ouvi sobre a proibição", disse Rai, de 35 anos, enquanto amamentava seu filho. "Nós sofremos muito, e eu não quero que ninguém sofra no futuro como nós. Mas por que demoraram tanto? E por que ninguém foi punido?".

Histórico de dor

Durante 20 anos, os helicópteros eram uma visão frequente no céu ao longo dos distritos de Kasagod, em Kerala, e de Dakshina Kannada, em Karnataka.

Duas ou três vezes por ano, eles faziam rasantes para pulverizar produtos químicos sobre os cajueiros plantados em fazendas recentemente desmatadas. Muitos dos moradores jamais haviam visto um helicóptero antes e não tinham ideia do que eles estavam fazendo.

Havia 60 comunidades no entorno das plantações de caju, que produzem castanhas para o mercado indiano ou para exportação, e, depois de alguns anos, os moradores se acostumaram com a pulverização.

Depois, no fim dos anos 1980, os médicos visitantes começaram a perceber uma grande variedade de problemas de saúde, particularmente entre as crianças, e começaram a suspeitar que a culpa era do endosulfan.

Estudos subsequentes – contestados pela indústria – relacionaram o endosulfan a danos no sistema nervoso central e a alterações hormonais em mães e bebês.

Quando os pesquisadores compararam crianças e adolescentes dos vilarejos onde o endosulfan havia sido pulverizado com populações daqueles em que o produto químico não tinha sido utilizado recentemente, eles constataram que os primeiros sofriam níveis muito mais elevados de problemas de pele, epilepsia e paralisia cerebral.

O Dr. Ravindranath Shanbhag, de 61 anos, um farmacologista que foi um dos primeiros a começar a ver o problema e a exigir a proibição do endosulfan, disse ao The Guardian que cerca de 6.000 pessoas foram afetadas no norte de Kerala e no sul de Karnataka.

"Os fabricantes dizem que as preocupações com a saúde são propaganda veiculadas por empresas ocidentais que querem que as nações do mundo em desenvolvimento mudem para produtos novos e mais caros para os quais eles ainda detêm a patente", disse Shanbhag. "Mas eu sei a verdade. Eu a vi com os meus próprios olhos por muitos anos".

Problemas futuros

Há muitas provas nos relatos também. Rai, assim como muitas outras mulheres, disse que se expôs a uma forte pulverização aérea de endosulfan ao longo de sua gravidez de Kaushiq.

"Eu via os helicópteros, e vivíamos quase dentro da plantação. Mas eu nunca pensei que poderia prejudicar o meu bebê", contou.

Testes realizados no ano passado encontraram altos níveis de endosulfan ainda no solo, e Shanbhag se preocupa porque dezenas de milhares de crianças não nascidas podem ser afetadas e porque mais problemas virão com as gerações futuras.

"Há centenas de milhares de pessoas que agora estão chegando à idade adulta e que podem ter sido expostas", disse. "O que vai acontecer com os filhos que eles pretendem ter? Nós simplesmente não sabemos".

Custos

O fardo financeiro que as vítimas colocam sobre suas famílias é significativo. Muitas das famílias já são pobres, geralmente de trabalhadores manuais que ganham menos de 5 libras esterlinas [cerca de 13 reais] por dia, quando há trabalho.

Ramesh Kartagea, 28 anos, está severamente incapacitado e é cuidado pelas suas duas irmãs e sua mãe. Seu pai trabalha no campo. As mulheres trabalham como costureiras. Eles foram obrigados a vender sua pequena casa para pagar as contas médicas.

Desde o início deste ano, eles receberam benefícios do governo estadual de Kerala no valor de cerca de 25 libras esterlinas [cerca de 67 reais] por mês. Isso ajudou um pouco.

Eles deram as boas-vindas à proibição – em parte. "É uma coisa boa, mas há muitas pessoas que já sofrem com isso", disse Shalini Kartagea, 30 anos.

O Dr. Asheel disse que a decisão da Suprema Corte havia se deparado com um poderoso lobby de políticos relacionados com a indústria dos pesticidas.

Um dos resultado foi o investimento em uma série de novos centros de reabilitação no distrito Kasagod. Embora rudimentares, eles são "melhor do que nada", disse o médico.

Em um desses centros, no vilarejo de Perla Enkanakaje, os nomes dos 27 pacientes estão listados em um quadro negro. "Identificamos 70 moradores que precisam de ajuda", disse o Dr. Asheel. "Quase todos nasceram entre 1980 e 2002, os anos de pico da pulverização no distrito. Não podemos atender a todos eles, mas fazemos o que podemos".

A fisioterapia que Kaushiq Rai recebe agora ajuda ao menos "um pouco", disse sua mãe. "Ele gosta de viajar. Nós o levamos aos templos, e ele fica feliz", contou. "Eu penso em todo o sofrimento, mas, embora eu esteja com raiva, estou desamparada".

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