Ocaso sem glória para o Cardeal Bertone

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Por: Jonas | 09 Fevereiro 2012

A fuga de cartas acusatórias. A falida operação do hospital São Rafael. O secretário de Estado está cada vez mais isolado, numa Cúria que não governa e com um Papa que não ajuda.

A reportagem é de Sandro Magister e está publicada no sítio Chiesa, 02-02-2012. A tradução é do Cepat.

As procissões dos “indignados” não desfilam no Vaticano, mas aí se combate a golpes de documentos. No sábado, 28 de janeiro, o conselho de ministros da Cúria romana, com a presença do Papa, dedicou uma parte de sua reunião para estudar meios de acabar com o vazamento de documentos. Haviam passado apenas três dias desde o último e ruidoso vazamento: um pacote de cartas confidenciais escritas a Bento XVI e ao cardeal secretário de Estado, Tarcisio Bertone, pelo então secretário de Governo da Cidade do Vaticano, hoje núncio em Washington, o arcebispo Carlo Maria Viganò.

Essas cartas – com outros documentos abrasivos, que também ameaçam vir à tona na imprensa ou na TV – são um ato de acusação contra uma pessoa acima de todas as outras: contra esse cardeal Bertone que começou a citada reunião dos chefes de Dicastérios da Cúria, explicando como elaborar e publicar os documentos da Santa Sé, sem os infortúnios que apareceram na história recente. Queremos, disse ele, mais competência, mais colaboração, mais confiança recíproca e mais reserva.

Bento XVI escutava em silêncio. Veio à sua mente a pior prova do mau governo na Cúria, sofrido por ele, desde quando se tornou Papa: a avalanche de protestos que o envolveram no começo de 2009, não por culpa sua, após a revogação da excomunhão de quatro bispos lefebvrianos, dentre os quais um negou o Holocausto. Pouco depois desse incidente, numa carta aberta aos bispos do mundo todo, o Papa Ratzinger não hesitou em escrever que recebeu mais apoio dos “amigos judeus” que de muitos homens da Igreja e da Cúria, mais interessados em arrasar a terra ao redor do Papa. E ao final citou essa terrível advertência do apóstolo Paulo: “Se vocês se mordem e se devoram uns aos outros, tomem cuidado! Vocês vão acabar destruindo-se mutuamente”.

Nas cartas de Viganò há mordidas em abundância. Primeiro como diretor do pessoal da cúria vaticana, em seguida como secretário de Governo, este septuagenário prelado lombardo atacou muitas coisas que não funcionavam e ganhou um grande número de inimigos. Para começar, quando impôs a todos da Cúria um cartão eletrônico de identificação e localização, a revolta em defesa da vida privada se levantou majoritariamente, mas ele se manteve firme. Nesse momento, Bertone estava do seu lado. E mais ainda, assegurou a Viganò, uma vez que chegou ao Governo, que seria proximamente promovido a Governador de Estado da Cidade do Vaticano e a cardeal.

São nomeações que só o Papa pode fazer, mas que Bertone costuma administrar pessoalmente com desenvoltura, como se fossem assunto seu. Certa vez, por exemplo, garantiu com sólida segurança a dom Rino Fisichella sua promoção a número dois da Congregação para a Doutrina da Fé. Este, por sua vez, preparou a mudança e despediu seu próprio secretário, para depois descobrir que o nomeado pelo Papa era outro.

A invasão de campo é uma característica constante da ação do cardeal Bertone, grande amador do futebol.

No outono de 2006, logo após ter sido nomeado secretário de Estado, colocou-se rapidamente em ação para refazer, a seu modo, a cúpula da Conferência Episcopal Italiana [CEI]. Para impedir que o cardeal Angelo Bagnasco fosse o sucessor de Camillo Ruini, na presidência, Bertone promoveu a candidatura de um homem de segunda linha, dócil a ele: o arcebispo de Taranto, o frade capuchinho Benigno Papa. Tanto martelou o tema que a imprensa nacional a considerou como um fato. Faltava somente o “placet” de Bento XVI, o único a quem correspondia fazer a nomeação, e que, ao contrário, nomeou o arcebispo de Gênova, Angelo Bagnasco.

Mesmo assim, Bertone não aprendeu. No dia do anúncio do novo presidente da CEI, no dia 25 de março de 2007, ele dirigiu a Bagnasco uma mensagem de saudação – escrita totalmente por sua conta, também às escondidas do Papa – em que reivindicava para si, como secretário de Estado, a “condução” da Igreja italiana no que se refere às relações com as instituições políticas. Entre os bispos foi um escândalo. Desde então, eles jamais abandonaram a suspeita de que Bertone poderia voltar a invadir seu próprio campo. A oposição entre a secretaria de Estado e a CEI, agora, é o bordão de todas as análises da ação política da Igreja na Itália.

Também em relação a Bento XVI, Bertone frequentemente passa da linha. Ratzinger percebeu seus talentos quando ambos trabalhavam na Congregação para a Doutrina da Fé. Este encarregou o dinâmico salesiano de livrar-se das questões mais complicadas: desde o segredo de Fátima até as extravagâncias do bispo africano Emmanuel Milingo. Em ambos os casos, pareceu que Bertone as enfrentava com êxito, embora a longo prazo lhe explodissem na mão: no caso de Fátima, com a acusação sempre implícita de haver mantido oculta uma parte do segredo, e no caso de Milingo, com a fuga rocambolesca do personagem do confinamento a que Bertone o havia relegado.

É fato que ao nomear Bertone como secretário de Estado, Bento XVI pensou em aproveitar sua sincera devoção e sua incansável atividade para levar a cabo essas tarefas práticas da gestão, de que ele, o Papa teólogo e doutor, queria manter-se afastado. Bertone aceitou entusiasmado, mas interpretou a tarefa da sua maneira. O Papa viajava pouco? Ele pôs-se a percorrer o mundo em seu lugar. O Papa estava ensimesmado em seus livros? Ele pôs-se freneticamente a cortar fitas, a encontrar-se com ministros, a bendizer multidões, a pronunciar discursos em todas as partes e sobre todos os temas.

Disso resultou que a secretaria de Estado trabalha mais para a agenda de Bertone do que para a do Papa. E na sua agenda o cardeal também perfila, sempre a partir de sua cabeça, realizações muito ambiciosas e perigosas.

A última teve por objetivo a conquista do São Rafael, o pólo hospitalar em excelência, criado em Milão pelo controvertido sacerdote Luigi Verzé e afundado em uma dívida de um milhão e meio de euros.

Para salvá-lo e anexá-lo às propriedades da Santa Sé, Bertone executou a partir do começo do verão passado um forte movimento. Lançou uma oferta de 250 milhões de euros, postos à disposição pelo Instituto para as Obras de Religião [IOR], no banco vaticano, e por um empresário, seu amigo de Gênova, Vittorio Malacalza. Durante muitos meses essa foi a única oferta, sem competidores, obrigando o Vaticano a mantê-la.

Entretanto, no Vaticano o Papa não estava nenhum pouco de acordo. São Rafael é um hospital em que se praticam e se projetam biotecnologias contrárias ao magistério da Igreja. Sem falar da anexa Universidade Vita-Salute, que mantém cátedras de docentes que dissentem claramente da visão católica, desde Roberta De Monticelli a Vito Mancuso, de Emanuele Severino a Massimo Cacciari, de Edoardo Boncinelli a Luica Cavalli-Sforza, todos já em pé de guerra para defender sua liberdade de ensinar.

A ordem de Bento XVI foi, consequentemente, imediata: não comprar. Foi, porém, como se falasse a surdos. Bertone deixava agir seu representante, o diretor do hospital, Giuseppe Profiti, que era o verdadeiro estrategista da operação e que não queria em hipótese alguma renunciar ao São Rafael. Providencialmente, ao fim do ano, apareceu outra oferta, mais alta, de 405 milhões de euros, por parte de um grupo hospitalar competidor, o de Giuseppe Rotelli, e o Vaticano pôde retirar-se do jogo.

No entanto, com muitos escombros ao redor de Bertone. Alguns que têm sido muito próximos dele já não o seguem. Malacalza está enfurecido com o que considera um giro contra ele. Ettore Giotti Tedeschi, o banqueiro que o próprio Bertone queria como o chefe do IOR, depois de sua inicial disponibilidade apresentou barreiras contra a aquisição do São Rafael, assumindo na sua totalidade as reservas feitas pelo Papa.

No Vaticano se redesenham os poderes, assentando-se nos aspectos administrativos e financeiros. A nova estrela é o especialista e reservado cardeal Attilio Nicora, na qualidade de presidente da Autoridade Financeira de Informação do Vaticano [AIF], criada na cúria há um ano, para permitir o ingresso do Vaticano na “white list” [lista branca] dos Estados, com os mais altos padrões de correção e transparência nas operações.

Em novembro passado, o Vaticano teve a visita de sete inspetores do Moneyval, organismo internacional de controle nas medidas contra a lavagem de dinheiro. A vistoria impôs modificações ainda mais restritivas às leis vaticanas, introduzidas imediatamente pelo cardeal Nicora, mas ainda não públicas. Entre elas, está a permissão para a AIF não somente inspecionar todas as operações de qualquer entidade vinculada à Santa Sé, incluindo o IOR e o Governo, como também em punir qualquer violação particular com multas de até dois milhões de euros.

Bertone fez de tudo para que o Papa não nomeasse para a direção da AIF Nicora, mas um administrador seu, um dos pouquíssimos que permanece próximo a ele, o professor Giovanni Maria Flick. Nem isto conseguiu. Sua trajetória chega ao fim.

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