O horror curial perante o anúncio do Concílio de João XXIII

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08 Fevereiro 2012

No dia 11 de outubro de 2012, completam-se os 50 anos de abertura do Concílio Vaticano II. E o que mais surpreendeu os cardeais da Cúria foi que um papa que ninguém esperava que produziria qualquer surpresa tomou uma decisão tão importante.

Publicamos aqui o primeiro de uma série de artigos sobre o Concílio Vaticano II, de autoria de Desmond Fisher, ex-editor do jornal britânico The Catholic Herald. O artigo foi publicado no sítio National Catholic Reporter, 25-01-2012. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Eis o texto.

No dia 25 de janeiro passado, a Igreja Católica deveria ter celebrado – mas não celebrou – um importante aniversário, o dia em que, há 53 anos, o Papa João XXIII convidou 18 cardeais da Cúria para acompanhá-lo a uma cerimônia em São Paulo Fora dos Muros. Era o dia da festa de São Paulo, que se acredita ter sido executado em Roma cerca do ano 67 d.C. e enterrado onde a basílica que leva seu nome se encontra agora.

Era também o último dia da Semana de Orações pela Unidade dos Cristãos, um objetivo próximo do coração do papa. Presumivelmente por causa da participação de tantos superiores vaticanos, a cerimônia durou mais tempo do que o habitual. O resultado foi que o conteúdo do anúncio cuidadosamente programado que o papa fez aos cardeais havia sido divulgado para a mídia antes que os cardeais fossem informados.

O que eles ouviram os surpreendeu. O novo papa – ele havia sido eleito apenas três meses antes – lhes disse que pretendia convocar um concílio ecumênico e lhes pedia o favor de lhe darem as suas opiniões a respeito.

Não era preciso estar no Vaticano muito tempo antes para saber o que os cardeais pensariam sobre um concílio ecumênico. Se tivessem sido convidados a votar a respeito, eles poderiam ter voltado os seus polegares firmemente para baixo.

Ao contrário, eles olharam para o papa, primeiro com espanto e depois com horror. Em qualquer tempo a Cúria desfavorece concílios ecumênicos. Os concílios denotam mudança; e, para a Cúria, a mudança é um anátema. Eles também sugerem que a situação existente não é perfeita; e, para a Cúria, a Igreja é perfeita. Um concílio também sugere que o papa precisa que os bispos lhe aconselhem. A visão da Cúria, especialmente desde 1870, quando a infalibilidade papal foi promulgada, é que o próprio papa pode tomar qualquer decisão necessária, de forma que não há mais necessidade de concílios. E qualquer indicação de que as pessoas do lado de fora dos muros vaticanos precisavam ser consultadas era um insulto contra a Cúria, que gostava de se considerar como uma participante daquela progressiva infalibilidade papal.

O que mais surpreendeu os cardeais foi que um papa que ninguém esperava que produziria qualquer surpresa tomou uma decisão tão importante. O cardeal Angelo Giuseppe Roncalli estava longe de ser contado entre os papáveis, os principais concorrentes no conclave de outubro de 1958 para eleger um sucessor para Pio XII. Foi apenas no terceiro dia do conclave, quando a votação se tornou um impasse, que seu nome foi mencionado. Ele mesmo ficou pasmo. Ele tinha ido a Roma com uma passagem de ida e volta de trem e com apenas uma mala para pernoite, esperando estar de volta em Veneza depois de dois dias. Ele não esperava ser papa. E não queria ser.

Os cardeais que o apoiaram tinham votado em um homem que eles consideravam que seria um papa interino, sem criar ondas em uma Igreja que se recuperava do frenético pontificado de Pio XII. Em seus 19 anos no trono de São Pedro, Pio XII não tinha pensado ser necessário convocar um concílio ecumênico. Por que, então, pensavam os cardeais em São Paulo naquela manhã de 1959, esse velho homem – ele tinha 77 anos naquela época – quer agitar as coisas quando tudo o que eles queriam era alguns anos de paz para deixar as coisas acalmarem? Não admira que eles tenham ficado mudos quando o novo homem deixou cair a sua granada.

João XXIII alegou mais tarde que ele esperava que os cardeais, "depois de terem ouvido a nossa alocução, se reunissem em torno a nós para expressar aprovação e bons votos". No entanto, acrescentou, "houve um silêncio devoto e impressionante. As explicações para isso vieram apenas nos dias seguintes". Esta avaliação da reação dos cardeais é ou muito caridosa ou, mais provavelmente, uma observação um pouco magoada de um velho homem do campo que não era nada bobo.

Ele manteve essa atitude até o fim. Quase três anos depois, no dia 11 de outubro de 1962, quando ele formalmente abriu o concílio, ele disse que a decisão de convocá-lo "foi concebida na mente, quase de improviso". E, lembrando a reação silenciosa dos cardeais, ele acrescentou serenamente, senão até implausivelmente: "Os ânimos dos presentes logo ficaram repentinamente comovidos, como se brilhasse um raio de luz sobrenatural, e todos o transpareceram suavemente no rosto e nos olhos".

Os relatos dos historiadores do concílio não apoiam tal benevolente retrato da contribuição da Cúria para o trabalho do Concílio Vaticano II. Desde o início, ela trabalhou para se antecipar ao concílio. Ela propôs 10 comissões, cada uma com 24 membros, para guiar o concílio, com pessoas nomeadas pela Cúria para a maior parte das posições. Ela apresentou 70 documentos para a apreciação do concílio. E confiava que o concílio poderia ser concluído em uma única sessão.

O lance peremptório da Cúria de assumir o controle do concílio de um só golpe suave foi detido bruscamente. Em pouco tempo, dois cardeais europeus, Achille Liénart, de Lille, França, e Josef Frings, de Munique, Alemanha, protestaram. Bispos dos quatro cantos do mundo – 2.500 deles – foram a Roma para o concílio. Eles não tiveram uma chance para conhecer uns aos outros. Como poderiam decidir quem seria o melhor para cada comissão? Eles precisavam de alguns dias para considerar as opções.

Os bispos do concílio – alguns dos quais nunca tinham se visto antes nos opressivos arredores de São Pedro, e a maioria dos quais ficou perplexa com a enormidade e a complexidade do que tinha pela frente – reagiram com prazer. As propostas da Cúria, incluindo os membros das comissões e os 70 projetos de decretos foram postos de lado. A emenda para postergar a abertura do concílio em dois dias foi aprovada com uma massiva maioria.

Os bispos saíram em fluxo de São Pedro para se reunirem do lado de fora da vasta praça em grupos animados para discutir o que tinha acontecido. O primeiro encontro do Vaticano II, que deveria se reunir em sessões de três meses ao longo dos próximos quatro anos, estava encerrado. Ele durou cerca de 17 minutos.

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