Holanda. A bomba da pedofilia

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17 Janeiro 2012

1.259 páginas. A publicação, na sexta-feira 16 de dezembro, do relatório da Comissão Deetman sobre os inumeráveis casos de abuso sexual contra menores na Igreja Católica da Holanda é um novo golpe para a instituição.

A análise é de Hendro Munsterman, diretor do Instituto Pastoral de Estudos Religiosos da Universidade Católica de Lyon.

O artigo foi publicado na revista Témoignage Chrétien, 12-01-2012. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Eis o texto.

Tudo começou em fevereiro de 2010, quando dois jornalistas holandeses atraíram a atenção para um caso de abuso sexual contra um menino em um antigo colégio dos salesianos de Dom Bosco, nos anos 1950. Essa revelação, que ocorria depois de outras na Alemanha, na Irlanda e nos Estados Unidos, trouxe de volta à tona as recordações no país. Bispos e responsáveis de congregações e de ordens religiosas se viram obrigados, então, a pedir que um político protestante, ex-prefeito de Haia, Wim Deetman, formasse e presidisse uma comissão independente constituída por ele e por outros cinco membros, todos professores universitários.

Depois de um apelo às vítimas, a comissão reuniu 1.795 denúncias de abusos sexuais de menores ao longo do período de 1945-1981, cometidos em um total de sete dioceses e em 68 ordens e congregações religiosas. Ela elaborou uma lista de 800 padres e irmãos que teriam cometido atos de pedofilia; 105 ainda estão vivos, e alguns ainda estão em atividade pastoral. A comissão avaliou, então, entre 10 mil e 20 mil o número de vítimas, na sua juventude, de abusos sexuais por parte de um membro do clero católico.

Segundo as mesmas pesquisas, um em cada dez holandeses de mais de 40 anos foi vítima de abusos sexuais ao longo da infância por parte de um adulto não membro de sua família. O problema ultrapassa amplamente, portanto, a Igreja Católica. Mas, como dizia  um bispo holandês, "não é porque a estrada do vizinho está suja que a nossa é mais limpa".

Desvio de poder

Então, qual é a particularidade do abuso sexual de menores cometidos por um padre ou por um religioso? Acima de tudo, a comissão constatou que a organização eclesial fragmentada favoreceu uma cultura do silêncio. Cada congregação tem o seu próprio grau de autonomia, cada diocese funciona em seu próprio canto, e não se tem consciência dos problemas estruturais. Além disso, a partir do momento em que o número de seminaristas começou a diminuir, nos anos 1960, a problemática foi considerada, sob a pressão romana, como individual e não estrutural.

A opinião pública muitas vezes coloca o celibato eclesiástico no primeiro lugar entre as causas desses abusos, mas a comissão demonstrou que não existe uma relação simples e direta entre esses dois elementos. Se o recrutamento nos seminários menores favoreceu escolhas pelo celibato não suficientemente amadurecidas e, portanto, em risco, a partir dos anos 1960 essa escolha se tornou mais livre e consciente.

Hoje, nos damos conta de que se trata sobretudo de um desvio devido a uma relação de poder e de dependência da vítima com relação ao autor do abuso. Mas a hierarquia católica, considerando o abuso sexual de um menor como um problema sexual, também a colocou em relação com o voto de castidade. As autoridades católicas se concentraram, então, no não respeito do celibato pelos autores, pouco se preocuparam em desenvolver uma verdadeira política de atenção individual pelas vítimas.

Os desafios da Igreja

Como interpretar o resultado dessas investigações? Uma viva discussão se desenvolveu, particularmente em fóruns e redes sociais na Internet, entre conservadores e progressistas, fruto amargo do caminho da bipolarização que a Igreja holandesa reencontrou nos últimos anos. Para os primeiros, é culpa da revolução sexual e das consequências do Concílio Vaticano II – o que não é verdade, porque 42,1% dos casos registrados ocorreram nos anos 1950, quando a Igreja Católica holandesa ainda era muito marcada por uma atitude fiel a Roma. Para os segundos, é culpa do celibato e da moral sexual católicos muito rígidos – o que a comissão desmascara como muito simplista.

De um ponto de vista teológico, a partir da leitura das 1259 páginas do relatório, podem-se considerar três desafios para o futuro da Igreja Católica. O primeiro diz respeito à relação entre o ministro ordenado e os fiéis leigos. No passado, essa relação foi considerada como uma relação de subordinação, que pode ser reforçada pela imagem projetada pelo celibato, considerado às vezes como mais eminente do que a vida conjugal. Hoje, somos chamados a redescobrir a singularidade do ministério ordenado, através de uma relação em que ministros e leigos se reconheçam sobretudo como irmãos e irmãs. Depois dos escândalos dos abusos sexuais na Irlanda, Dom Diarmid Martin, arcebispo de Dublin, se preocupava diante do surgimento de uma "nova cultura de clericalismo" e defendia a importância da formação de padres, diáconos e leigos em instituições comuns.

Combater as tendências de fechamento interno

Segundo desafio: a simplificação necessária da organização eclesial. Durante séculos, a Igreja Católica forjou uma estrutura complexa, na qual até mesmo os católicos não se reencontravam mais. Essa complexidade leva a paradoxos: de um lado, a Igreja de um país afirma a autonomia das dioceses e dos bispos locais, mas, de outro, se entrincheira atrás de diretrizes romanas.

Da mesma forma, no contexto irlandês, o Vaticano se considerava às vezes como a autoridade eclesial suprema, mas, em outros momentos, queria ser tratado como um Estado soberano. Um último exemplo é a existência do direito canônico em um Estado de direito civil. Alguns bispos até consideraram que era inútil apelar ao direito civil em certos casos de abusos sexuais e que era suficiente um tratamento canônico. Os não iniciados em matérias eclesiásticas já não entendem mais nada e concluem que a Igreja busca simplesmente dissimular os escândalos.

Terceiro desafio: a atitude da Igreja Católica com relação ao mundo exterior. A maior parte dos casos de abusos sexuais ocorreu em uma época em que a Igreja Católica na Holanda funcionava como uma sociedade fechada dentro da sociedade holandesa. Hoje, reencontramos tendências na Igreja Católica de fechamento interno, às vezes acompanhadas de desconfiança com relação ao mundo exterior. Essa não é apenas uma reação justificada perante a perda de visibilidade nas nossas sociedades contemporâneas, mas às vezes também é uma tentativa de fuga das questões críticas que vem de fora – em especial, das ciências humanas.

O Concílio Vaticano II, que neste ano celebramos o 50º aniversário, dizia que a Igreja é "ao mesmo tempo santa e sempre chamada a se purificar". O relatório devastador mas pertinente da Comissão Deetman é um chamado para que a Igreja continue "constantemente o seu esforço de penitência e de renovação" (Lumen gentium, 8).

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