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03 Dezembro 2011

"Os verdadeiros inimigos da Bolívia no século XXI são os neocolonizadores, os plantadores de coca com roupagem de camponeses. Em cima de povos indígenas originários, atropelando a vontade da maioria mestiça do país que se esforça para se dedicar a atividades legais, destroem as bases de um incipiente desenvolvimento industrial no setor agropecuário, florestal, ecoturístico, e introduzem o confronto e a violência como arma para exercer e impor o seu poder". A reflexão é do jornalista boliviano Daniel Pasquier Rivero, em artigo publicado no jornal boliviano El Día, 24-11-2011. A tradução é doCepat.

Eis o artigo.

O monstro da "direita" aparece em todas as partes na acalorada interpretação oficial dos conflitos vividos no país. Com cenários diferentes, a milhares de quilômetros, com atores de todas as raças, classes e cores, com diversas reivindicações, mas todas com a característica de sua crescente radicalização e sem a resposta de um governo, que não aparece. Tudo são pretextos, argumentos esquivos ou falsos. E reclamam não ser responsáveis por nada. A resposta é obrigatória: há seis anos, vocês são responsáveis pela condução da administração do Estado. Se o fizeram bem ou mal, é outra história.

O complô da direita não se sustenta. Em Potosí são civis, população rural e da capital. Todos desenganados pelas promessas não cumpridas e que foram arrancadas a contragosto, porque o Evo Morales não cede nada em base à racionalidade, mas pela força. Outra vez os bloqueios e as greves. Eles têm experiência. Conhecem bem o MAS, votaram nele e suas principais autoridades pertencem ao partido. Seguem sendo um dos povos mais pobres deste país pobre.

Em Oruro jogam a "tuja"; hoje com os irmãos de Potosí, amanhã não, preferimos com o ministro da Presidência, esse é mais esperto; sabe como olhar com um olho para um lado e com o outro para o lado contrário. Criará comissões, fará mesas de trabalho, enrolará o assunto e no final fará constar o esforço ao ministro convocando para o diálogo, ao qual as partes não responderam. Enquanto segue o contrabando à sua vontade, distraídos pelo problema de limites, talvez já nem se lembrem mais das promessas do novo aeroporto, das estradas e do museu em Orinoca.

Tarija teve uma vez um plano visionário para desenvolver, em base à autonomia departamental, a indústria do gás e dos hidrocarbonetos; converter as regalias em cultivos para mudar a paisagem de suas terras áridas e acolher a migração com vocação para o trabalho. O governo caiu nas mãos do MAS após a traição de alguns ambiciosos e uma manobra judicial contra o governador legitimamente eleito pelo voto direto e popular. De tudo isso fica apenas a rivalidade por conta da distribuição das regalias, rivalidades internas estendidas também a Chuquisaca, outro governo em poder do MAS.

Em Cochabamba, as autoridades em flagrante crime de "conspiração" organizam a resistência à Lei Curta que protege o TIPNIS. O mais aberrante: o presidente do Estado falta com suas principais atribuições constitucionais, Art. 172 da CPE: "1. Cumprir e fazer cumprir a Constituição e as leis; 2. Manter e preservar a unidade do Estado boliviano". Seu discurso e seu frenético agir das últimas semanas chama para desobedecer a Constituição e as leis em relação aos direitos dos povos indígenas, e coloca em risco de enfrentamento os bolivianos. Todas são autoridades do MAS. O conflito camponês-indígenas é provocado pelo próprio governo.

Será que todo o governo está infiltrado pela direita e pelos neoliberais? Segundo o Vice, tudo responde a uma estratégia com vistas a derrubar o "índio". Ninguém acredita nisso, apenas ele. Pertencendo ao primeiro círculo de poder, aqueles que tomam as decisões junto com os cocaleiros, estarão também às ordens da USAID ou do imperialismo? Isso não se sustenta. Os antecedentes do presidente, como presidente das federações de cocaleiros, e do Vice, K’ananchiri seu nome de guerra, não referendam a tese. É mais coerente interpretar que todos os conflitos no território nacional respondem ao descontentamento acumulado da população diante da falta de gestão deste governo. Gente que apoiou o partido do governo no começo, e que pode continuar a apoiar o "processo de mudança", vê e questiona os resultados, longe da habitual matemática do Vice. Os 53% de recusa da população à gestão são demonstrativos; rechaço que se mantém por quase um ano, especialmente desde dezembro de 2010, com o "gasolinazo", ainda pendente. Objetivo e quantificável é o apoio massivo à causa indígena na defesa do TIPNIS e a vitória com 60% dos votos nulos e brancos, afora o alto índice de abstenção na "inédita" convocação para a eleição de magistrados "pré-selecionados" pelo governo para o novo Órgão Judicial.

Não servem as referências nem as diatribes contra os colonizadores do século XV. Nem afirmar que HuascarAtahuallpa brigaram entre si por intriga dos espanhóis. Os verdadeiros inimigos da Bolívia no século XXI são os neocolonizadores, os plantadores de coca com roupagem de camponeses. Em cima de povos indígenas originários, atropelando a vontade da maioria mestiça do país que se esforça para se dedicar a atividades legais, destroem as bases de um incipiente desenvolvimento industrial no setor agropecuário, florestal, ecoturístico, e introduzem o confronto e a violência como arma para exercer e impor o seu poder. As chamadas "tensões" da revolução são contos; são conhecidos instrumentos de máfias em outras latitudes desde há muito tempo. São as tensões na construção do novo império do narcotráfico.

O que diz o Evo sobre Misicuni? Nada. Um projeto vital para os habitantes de Cochabamba: água potável, o bem mais escasso nessas regiões; risco nos vales, energia. Há também o projeto para a produção de ureia em Entre Ríos; a desejada industrialização de nossos recursos naturais. Mas o governo de Evo Morales só se interessa pela expansão dos cocaleiros, e direciona todo o aparelho do Estado e sua energia pessoal para destruir o TIPNIS.

Pergunta obrigatória: quem manda no Estado Oligonacional? Resposta obvia: os cocaleiros e seus interesses. O resto não é competência do Estado, ou não são responsabilidades de suas autoridades; não interessam, embora por trás de tanto conflito espreite a morte premeditada ou por descuido. A Bolívia, o que dela resta, contempla atordoada a implantação do Estado ilegal. O TIPNIS verde converteu-se no símbolo da luta contra o TIPNIS branco, o do estabelecimento e consolidação de um Estado a serviço do narcotráfico.

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