Em busca da autoridade perdida. Entrevista com Alain Touraine

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13 Novembro 2011

Na busca da autoridade perdida, estamos nos deixando guiar pela importância dos nossos companheiros de viagem. O que também é difícil de definir, mas é imediatamente perceptível, por exemplo, quando você está cara a cara com Alain Touraine, estrela de primeira grandeza da sociologia contemporânea, um imponente octogenário com dois belíssimos olhos azuis e um rosto adunco, vagamente beckettiano.

A reportagem é de Franco Marcoaldi, publicada no jornal La Repubblica, 07-11-2011. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

"Deixe-me dizer: falar de desaparecimento da autoridade, sic et simpliciter, é muito vago e confuso. Em vez disso, é muito mais claro e preciso dizer que desapareceu aquela autoridade, exercida nas escolas ou nos tribunais, nas empresas ou na vida política, com base em uma lei absoluta. De natureza religiosa. Essa lei, que se conforma à palavra de Deus ou à lei natural entendida como prolongamento da religião, não funciona mais. Portanto, são as bases transcendentes para autoridade que não têm mais aderência. E isso pela simples razão de que vivemos em um mundo que já não é mais governado por princípios absolutos, mas móveis, em transformação: como ocorre na ciência, na tecnologia, na comunicação".

Eis a entrevista.

Mas toda a autoridade, enquanto tal, precisa de um fundamento.

Vivendo em um mundo regido pelos princípios da secularização, da racionalização, da laicização, os fundamentos não positivos da autoridade e do poder estão em processo de desaparecimento. E o que resta no fronte do direito natural é bastante vago. Poderíamos dizer que, com o ingresso na modernidade, 90% da experiência humana estão ligados às invenções humanas, enquanto só os restantes 10% descendem da natureza. E é exatamente por isso que o retorno a uma autoridade tradicional não faz nenhum sentido.

Com isso, não subestimo a influência religiosa. Simplesmente observo que caímos irreversivelmente em um mundo secularizado, fundado na ciência e na técnica. E, pelo menos em certa medida, na pluralidade das culturas. Portanto, na impossibilidade de regras morais, e acima de tudo religiosas, válidas para todos. Os católicos pensam de um modo, os protestantes de outro, os muçulmanos de outro ainda. Assim, tiramos do meio do caminho o primeiro equívoco: a nostalgia de um excesso de autoridade, ou pior, de repressão.

Mas autoridade não é sinônimo de autoritarismo.

Certamente, mas também é verdade que, na ideia tradicional, sempre há um fundamento transcendente: de ordem política, religiosa. Ou da filosofia da história, como no caso do progresso pregado na época soviética.

Restam, no entanto, as crescentes lacunas da autoridade secularizada e democrática. Basta observar a política.

Talvez não os aplicamos com a necessária constância, mas dispomos de dois princípios fundamentais. O primeiro é a ciência, a razão: não se pode dizer que um litro de água pesa 50 gramas. Não se pode dizer isso porque não é verdade. E o princípio racional e científica tem efeitos imediatos sobre a moral e a política: pense-se na questão da raça, sobre a qual não faz nem sentido falar, visto que não tem uma base científica.

O segundo princípio, e ainda mais importante, que herdamos ao mesmo do cristianismo e do século das Luzes é o dos direitos humanos fundamentais. Esse é o único e verdadeiro fundamento da autoridade moderna. Cada um tem o direito de ser um indivíduo reconhecido como tal, assim como todos os outros. E, nas situações políticas, econômicas, sociais e educacionais dadas, ele se beneficia, ao mesmo tempo, com direitos tanto individuais quanto coletivos. A autoridade, portanto, não deriva mais do alto, mas amadurece embaixo, em cada indivíduo.

Vejamos: nesse esquema, como se concretiza o exercício da autoridade por parte de um magistrado, de um professor, de um pai de família.

A autoridade de cada uma dessas figuras se ligará à sua capacidade de combinar leis, códigos e normas com os direitos individuais. No mundo do trabalho, por exemplo, consistirá em combinar as regras gerais da organização com as condições de aceitabilidade que essas regras tem para quem, individualmente, as deve colocar em ação depois. Ou, com relação à escola: um professor terá autoridade na medida em que consiga obter, com a persuasão, o respeito das regras, até mesmo daqueles que se mostram refratários.

O caso da escola é um dos que é mais usado como exemplo por aqueles que lamentam uma crise de autoridade.

Sabe-se que o resultado escolar tem muito a ver com a origem social. Mas algumas pesquisas sociológicas têm mostrado que a qualidade da relação professor-aluno é ainda mais importante. Digamos que a origem social influencia em 30%; os outros 70% referem-se a essa relação. Na minha opinião, um bom professor é o que consegue se relacionar tanto com a classe, entendida como grupo, quanto com a soma dos casos individuais singulares. Enquanto que um mau professor é aquele que se preocupa apenas com a sua própria disciplina: eu sou um professor de história, de química ou de física, e ponto final. Sim, mas essas diversas disciplinas devem ser ensinadas em condições dadas.

Ensinar uma certa matéria a um jovem imigrante que não domina bem a língua do país anfitrião implica um reconhecimento do seu caso específico, a menos que não se queria encontrá-lo, 20 depois, em um hospital psiquiátrico. Esse é um caso típico em que se revelam tanto a diferença entre as culturas, quanto a questão dos direitos universais. O bom professor, o professor com autoridade, deve ser capaz de realizar este pequeno milagre: as regras são iguais e comum, mas a diferença deve ser respeitada, porque cada um tem a sua própria história.

Outro problema ligado ao desaparecimento da velha autoridade é a relação com o passado: cada vez mais instável, cada vez mais flébil.

Sou historiador de formação e, portanto, sou muito sensível a essa questão. Meu coração sangra quando vejo pessoas que não sabem quem veio antes: Napoleão ou Joana d"Arc. Poder-se-ia dizer que hoje a história foi substituída pela geografia. Ignora-se cada vez mais o passado, enquanto, graças à Internet e a deslocamentos cada vez mais frequentes, tem-se uma familiaridade diferente com o que acontece em escala planetária.

O passado, porém, não é apenas história pública: também é história privada.

E aqui as coisas estão indo melhor do que se pensa. Por exemplo, se compararmos a Europa com os Estados Unidos. Há um teste muito simples: a vitalidade dos nossos cemitérios, a relação com os nossos mortos. Talvez haja um pano de fundo animista, mas, mesmo assim, é um indicativo de relações fortes, de laços profundos. Neste caso, deveríamos pensar por que o vínculo entre passado e futuro é muito mais intenso no plano privado do que no público.

A tendência que o senhor vê é em termos de interiorização da autoridade?

Tudo o que interioriza a autoridade é positivo; tudo o que a exterioriza é condenável. Um indivíduo que não reconhece nenhuma autoridade está totalmente desorientado, é incapaz de distinguir o bem do mal. Mas, como afirmava Arendt justamente, o que define o ser humano é o direito a ter direitos. E isso corresponde, de fato, à absoluta interiorização da autoridade.


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