O que restará dos indignados da Europa. Artigo de Alain Touraine

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02 Agosto 2011

Protestos e movimentos em toda a Europa: "É indispensável compreender esses movimentos, que marcam uma profunda ruptura na vida política de inúmeros países".

A opinião é do sociólogo francês Alain Touraine, em artigo publicado no jornal La Repubblica, 30-07-2011. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Eis o texto.

Entre os movimentos que surgiram em vários países europeus, o mais importante é o dos indignados, do título do panfleto de Stephane Hessel, publicado na França com um sucesso excepcional, com milhões de cópias. O protesto deles não é dirigido contra a política de um governo, mas sim contra os sistemas políticos enquanto tais. Os jovens são se manifestam são principalmente estudantes: apoiados pela maioria da população, contestam os partidos e, em particular, os de esquerda, que, em sua opinião, não representam mais a opinião pública e, portanto, esvaziam a democracia de todo o seu significado.

Nesse grande movimento por uma ressurreição democrática, alguns grupos colocam em discussão até mesmo a própria democracia, como sempre ocorre nas alas mais radicais dos movimentos que se opõem às instituições políticas. Mas até agora é proeminente a vontade de dar vida a uma democracia direta, assembleísta, sob o emblema das assembleias gerais das universidades francesas em maio de 1968. Na Espanha, esse movimento provocou a derrota maciça dos socialistas nas eleições, sobretudo na Catalunha.

Na Grécia, a oposição nacionalista contestou com mais força os acordos propostos pela Europa e pelo FMI para evitar a falência do país. No fim, porém, esses acordos foram aprovados, evitando à Grécia uma situação catastrófica, que teria colocado em risco a existência do euro. Se é verdade que a opinião pública foi amplamente informada da sua existência, de fato, esses movimentos, que surgiram principalmente graças à comunicação direta através das redes sociais como o Facebook ou o Twitter, não foram definidos com clareza suficiente pela mídia e em particular pela televisão.

É indispensável, entretanto, compreender esses movimentos, que marcam uma profunda ruptura na vida política de inúmeros países. O que eles colocam em discussão é, sobretudo, o princípio da democracia representativa. Em outros termos, eles rejeitam a ideia, inerente à representação clássica da vida política na Europa, de que as reivindicações e os protestos sociais e culturais que surgiram dos grupos sociais encontram uma expressão mais ou menos completa nos partidos políticos, e se recusam a ver neles os representantes políticos dos interesses populares e dos conflitos sociais. Como prova disso, basta constatar que os sindicatos são contestados do mesmo modo que os partidos políticos.

Eis por que devemos fazer a pergunta mais geral suscitada por esses movimentos: qual pode ser hoje a base de legitimidade da ação política? Só a formulação dessa pergunta nos confunde e nos inquieta, até porque todos reconhecem que os partidos, os sindicatos e as outras organizações políticas perderam grande parte da sua legitimidade. A situação é particularmente inquietante em um país como a Espanha, que entrou na vida democrática só depois da morte de Franco, em 1975 – embora lá os temores não sejam do tipo clássico, já que ninguém imagina a preparação de um golpe de Estado militar ou qualquer outra ação antidemocrática.

Pode-se começar a compreender melhor a natureza e a importância desses movimentos vendo neles a revolta de uma juventude que se sente privada da sua própria qualidade de cidadãos por obra dos políticos, particularmente os de esquerda – que, por sua vez, se consideram penalizados por uma lógica econômica irresistível, enquanto global. Assim se explica a força da carga emocional desses movimentos e do compromisso dos participantes, que só em menor medida fazem referência ao conflito aberto de interesses entre os cidadãos e uma lógica econômica que rejeita qualquer intervenção dos atores, acusando-os de serem impotentes em nível mundial. Para todos os ideólogos da globalização, tudo – e de modo particular a vida política – deve se submeter à lógica do projeto econômico mundial.

Ao reconhecer sua própria impotência, os partidos traem os interesses e sobretudo as exigências e os projetos daqueles que perderam toda a confiança neles e nos mecanismos da democracia representativa. O racionalismo político que animava as ideias e as práticas da democracia representativa entrou em colapso. Os jovens já não acreditam mais na capacidade de ação das instituições políticas. É algo mais do que uma crise econômica e até política. Estamos diante de uma crise mais geral, de perda de sentido, não de uma política, mas da política em si mesma.

Essa crise da política põe em discussão mais particularmente os partidos de esquerda, que, por definição, se entendem como os defensores dos direitos e das liberdades da população. Além do problema, embora gravíssimo, dos altos níveis de desemprego entre os jovens, não estamos mais na ordem dos conflitos econômicos e sociais, mas sim no da contradição entre os direitos humanos fundamentais e a violência do domínio do lucro capitalista sobre qualquer outra finalidade do sistema social.

No caso italiano, a luta se concentra sobretudo em Silvio Berlusconi, quer como indivíduo, quer como chefe de governo. E isso explica o seu caráter menos radical, em comparação com o nível alcançado em um curto espaço de tempo pelo movimento espanhol. Mas, na Itália e na Espanha, o sentido geral da sublevação é o mesmo. É também é muito próximo ao das revoltas na Tunísia e no Egito, contra a destruição da vida política por obra dos ditadores, das suas famílias e dos ambientes corruptos mais diretamente ligados a um poder autoritário. Não falei de movimentos revolucionários: talvez me equivoquei?

Sabemos que uma crise política pode se tornar revolucionária se ocorrer um incidente, uma faísca, como nos casos dos manifestantes mortos pelas forças armadas ou pela polícia, ou daqueles que se imolaram para derrubar o poder estabelecido com as suas insuportáveis imposições.

De fato, porém, os movimentos atuais estão longe de ser revolucionários, dada a distância extrema entre as motivações dos participantes e as categorias das ações políticas possíveis. Mas vamos além: os movimentos atuais podem ter em si mesmos alguns elementos de fraqueza, senão até de autodestruição, dado que a rejeição da ação dos partidos pode reduzi-los a encontrar seu próprio dinamismo apenas no temor da repressão e das lutas internas. A ação baseada no medo pode induzir os movimentos a antepor sua própria unidade a qualquer outro objetivo, com a consequência do risco de cisão em cadeia ou, ao contrário, de uma nova orientação em sentido autoritário.

A primavera árabe pode fazer renascer naqueles países árabes a capacidade de ação política só se o que a animar não for o medo do inimigo, mas sim a vontade de afirmar os direitos de todos, acima de qualquer objetivo propriamente político.

Em geral, as revoluções levam muito rapidamente a novos regimes autoritários, impostos pela força. Uma solução democrática só pode vir de uma separação não só aceita, mas desejada, entre o movimento popular e as forças políticas reconstituídas. Quanto mais um movimento é força de libertação, maiores são as suas possibilidades de fazer renascer uma democracia política. A sua fraqueza no plano propriamente político o protege de um retorno daquele mesmo poder hegemônico que ele combateu.

Se os países ocidentais sonham em instituir no mundo árabe democracias de tipo ocidental, dando a prioridade aos partidos políticos, só irão contribuir para a decomposição dos movimentos. Ao contrário, só protegendo os movimentos de todos os ataques, e particularmente dos provenientes dos regimes autoritários, se poderão reforçar as oportunidades da democracia. Em outras palavras, aqui a prioridade deve ser dada aos movimentos, diante de qualquer tentativa de reconstrução de atores propriamente políticos.

Se também no futuro o movimento for animado pela vontade de fazer reconhecer as liberdades políticas, verá reforçadas as suas oportunidades de democratização, enquanto, ao contrário, quanto mais a sua luta tender a se politizar, ou até a se militarizar, mais o seu futuro será incerto e ameaçado. Na Líbia, a iniciativa europeia (e, em menor medida, a norte- americana) foi indispensável para frear a contraofensiva de Kadafi com as suas consequências previsíveis e brutais. Mas é urgente que ela se autoimponha limites, para não levar um movimento de libertação a se transformar em guerra ideológica e a se fazer instrumento de um novo poder autoritário.

O mesmo raciocínio leva a desejar o reforço do movimento dos indignados na Espanha e na Itália, e a sua transformação na Grécia como força de defesa da opinião pública e não como força propriamente política. Parece que os gregos entenderam isso, dado que o seu parlamento acabou decidindo não se lançar em uma ação de ruptura com o sistema europeu.

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