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19 Setembro 2011

Não é apenas uma parte da Igreja alemã que pede ao Vaticano, como demonstra a recente entrevista publicada pela revista Die Zeit com o presidente dos bispos Robert Zollitsch, um repensamento acerca das normas adotadas há algum tempo com relação aos divorciados em segunda união. Há também os jesuítas norte-americanos que sugerem em Roma contínuas reformas, chegando a teorizar, com mais de um artigo publicado na prestigiosa revista mensal Theological Studies, com sede em Milwaukee, a possibilidade de que a Igreja reveja inteiramente a doutrina acerca da indissolubilidade do casamento.

A reportagem é de Paolo Rodari, publicada no jornal Il Foglio, 15-09-2011. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Os signatários dos artigos que estão fazendo com que grande parte da Igreja Católica norte-americana discuta, são dois convidados de exceção da revista: o franciscano Kenneth Himes, presidente da faculdade de teologia do Boston College, ex-presidente da Sociedade Teológica Católica dos Estados Unidos (CTSA), e o canonista James Coriden, professor da Washington Theological Union, que, entre as inúmeras honrarias, recebeu, em junho passado, justamente da CTSA, o prestigioso Prêmio John Courtney Murray para a Teologia.

"Já pioneiros na questão da readmissão à Eucaristia para os divorciados em segunda união", como definiu recentemente a agência católica progressista Adista, os dois defendem que toda doutrina, por si só, pode ser revista e rediscutida e que, no entanto, um debate aberto e não preconceituoso só pode fazer bem não só à teologia, mas também para a Igreja como um todo.

Como no caso da recente declaração de Zollitsch, logo redimensionada pelas duas intervenções em rápida sucessão do cardeal Joachim Meisner, arcebispo de Colônia, e de Jean-Claude Périsset, núncio apostólico em Berlim (em essência, os dois prelados insistiram sobre o fato de que o presidente do bispos alemães falava a título pessoal), as afirmações da dupla Himes e Coriden também recebeu uma resposta particularmente dura por parte da Santa Sé.

A mídia norte-americana tem falado muito sobre isso nestas horas, incluindo o National Catholic Reporter, que explica como a Theological Studies foi "obrigada pela Congregação para a Doutrina da Fé a publicar, com uma prática bastante incomum", um artigo dedicado justamente à insolubilidade do casamento, assinado pelos teólogos morais, Peter F. Ryan, presidente da Associação Filosófica Jesuíta, dos EUA, e Germain Grisez, teólogo moral da Universidade Mount Saint Mary, em Emmitsburg, Maryland. O "artigo reparatório" tem um título bastante explícito: "Matrimônio indissolúvel: Uma resposta a Kenneth Himes e Coriden James", e assevera a "absoluta impossibilidade de corrigir a doutrina do matrimônio indissolúvel". São muitos os ventos de reforma dentro da galáxia católica, que dão muito o que pensar e preocupam o Vaticano.

Polêmica e inimizade

Mas é com os jesuítas norte-americanos que a polêmica à distância parece ser caracterizada por uma longa inimizade. Foi em 2006 que a Theological Studies publicou um artigo sobre ética sexual católica assinado pelos teólogos Todd Salzman e Michael Lawler. Os dois autores – que no ano passado já haviam recebido uma reprimenda formal por parte da Conferência Episcopal Norte-Americana pelo seu livro The Sexual Person, em que incorrem em "erros doutrinais inerentes à avaliação dos atos homossexuais, das relações pré-matrimoniais, da contracepção e da fecundação artificial" – foram assinalados ao ex-Santo Ofício e em particular à atenção do cardeal William Joseph Levada, que há poucos meses havia tomado posse do cargo que era de Joseph Ratzinger.

Levada e seus colaboradores começaram a instar o diretor da Theological Studies, David G. Schultenover, que, em um editorial de dezembro de 2010 sobre cujos conteúdos o Vaticano havia incidido fortemente, tinha comentado assim a publicação de Salzman e Lawler: "gostaria de esclarecer que esse artigo, na medida em que não adere aos ensinamentos oficiais da Igreja, não representa a opinião dos editores e dos promotores da Theological Studies. Ao mesmo tempo em que a revista, atendendo aos mandatos dos últimos papas de fazer teologia "nas fronteiras", promove a teologia profissional para teólogos profissionais, ela não promove teses que contrariam o ensino oficial da Igreja, mesmo que – embora muito raramente – tais teses encontrem um lugar em nossas páginas. Se e quando o fazem, a nossa política será a de alertar os leitores e afirmar claramente o atual ensino oficial da Igreja sobre a questão específica abordada".

Um comentário do diretor, desta vez mais escasso, também acompanhou a última edição da Theological Studies sobre o matrimônio contra Himes e Coriden que, diz-se, foi "ordenado" por Roma. Uma breve nota do diretor explica que, "com exceção de pequenas alterações estilísticas, o artigo foi publicado como foi recebido". Uma pontualização atípica que irritou muito tanto Coriden quanto Himes, que esperavam que o diretor gastasse pelo menos uma palavra em sua defesa.

Análises

Trata-se de um "precedente terrível", disse Coriden. Para o presidente da CTSA, John Tiel, o Vaticano "errou três vezes": em primeiro lugar, quando presume que a direção de uma revista não é capaz de fazer sua própria avaliação sobre as posições teológicas; segundo, quando quer afirmar que a teologia é uma repetição da doutrina; terceiro, quando faz publicar um artigo violando o processo editorial.

Charles Curran, professor de Teologia da Southern Methodist University, de Dallas, condenado pelo Vaticano em 1986 por causa de sua discordância teológica em matéria de moral, definiu a medida do Vaticano contra Coriden e Himes de "o ataque mais grave possível contra a teologia católica dos EUA, porque a Theological Studies é a nossa revista acadêmica de maior prestígio". Os teólogos "de fronteira", disse, agora poderiam ser levados "a escrever em outros lugares, privando assim a revista de contribuições importantes".

Mais diplomática foi a reação do presidente da Conferência dos Jesuítas dos EUA, padre Thomas H. Smolich: "A Companhia de Jesus tem uma relação boa e cordial com o cardeal William Levada, moderador da Congregação para a Doutrina da Fé"; a Companhia "apoia plenamente a Theological Studies e sua missão de investigação e pesquisa teológica. Sou grato pelo bom trabalho que o Pe. Schultenover tem feito como seu editor-chefe".

A interferência do Vaticano entre os jesuítas

Há anos o Vaticano intervém para corrigir algumas posições consideradas muito de fronteira do mundo jesuíta dos EUA. Antes de Levada, Ratzinger já havia feito com que a sua voz fosse ouvida. Seu último discurso antes de subir ao trono de Pedro ocorreu em 2004. No dia 13 de dezembro desse ano, a Doutrina da Fé emitiu uma notificação de condenação contra o teólogo jesuíta Roger Haight, porque no seu livro Jesus, Símbolo de Deus, a figura de Jesus estava muito distante da professada no Credo.

Haight teve que abandonar a cátedra junto à Weston School of Theology, de Cambridge, em Massachusetts, dirigida pelos jesuítas. Ele passou para o Union Theological Seminar, de Nova York, uma instituição não católica, fundada por presbiterianos em 1836, em que lecionaram teólogos protestantes de primeira grandeza como Reinhold Niebuhr e Paul Tillich, hoje independente do controle de denominações cristãs individuais. E continuou publicando livros de teologia que repropunham as suas teses de fundo. Dois livros em especial: Christian Community in History, em três volumes, e The Future of Christology.

Sobre esses dois livros, a Doutrina da Fé governada por Levada interveio mais uma vez, não sem antes ter informado Bento XVI. As razões dadas em apoio da condenação de Haight não eram triviais. A notificação de 2004 as elencava meticulosamente. Na opinião das autoridades vaticanas, Haight usa um método teológico que subordina os conteúdos da fé à sua aceitabilidade por parte da cultura pós-moderna. E substitui as realidades objetivas definidas pelos artigos do Credo por símbolos.

É longa lista dos jesuítas que caíram na censura do ex-Santo Ofício. Entre os últimos, nem todos, obviamente, são norte-americanos: Anthony De Mello é indiano, Jacques Dupuis é belga, enquanto Jon Sobrino, expoente de destaque da teologia da libertação, é espanhol. Entre os norte-americanos, ainda há um nome que merece ser observado, o da Irmã Elizabeth A. Johnson, ainda hoje, nos Estados Unidos, um caso editorial.

Em 2007, foi publicado o seu Quest for the Living God, um livro que vende e que provoca o debate. A Ir. Elizabeth leciona teologia sistemática na universidade dos jesuítas de Nova York, a Fordham University, apesar de a comissão de doutrina do episcopado norte-americano, presidida pelo arcebispo de Washington, o cardeal Donald Wuerl, a ter censurado amplamente.

Wuerl, em um comunicado divulgado recentemente, explicou que a primeira preocupação dos bispos da comissão de doutrina era de advertir "os estudantes que, lendo esse livro, podem ser induzidos a pensar que esse também é o ensinamento autêntico da Igreja". Porque, escreveu o vaticanista Sandro Magister, "são pelo menos sete os pontos sobre os quais a tese da Ir. Elizabeth se destacam da doutrina da igreja. O que estaria em perigo seriam os dogmas da trindade de Deus e da criação, em benefício de uma ideia do divino imanente ao mundo, muito embebida de ceticismo iluminista. Não só. A Ir. Elizabeth negaria que Jesus Cristo é o único salvador de todos, porque, em sua opinião, só a soma entre o cristianismo, o hinduísmo, o budismo, o islã etc. permitiria conhecer a verdade de Deus". Tudo isso apesar de, "em 2008, o livro da Ir. Elizabeth ter recebido nos Estados Unidos o primeiro prêmio da Catholic Press Association, na categoria das obras de teologia".

O caso Reese

Mas, no fim das contas, o ataque do Vaticano mais difícil de digerir por parte dos jesuítas norte-americanos continua sendo a medida de seis anos atrás contra o ex-editor da revista semanal nova-iorquina America, o padre Thomas Reese. Uma investida que sangra ainda hoje.

Em 2005, Reese renunciou da America depois de sete anos de direção. Todos, nos Estados Unidos, escreveram que ele foi afastado pelo Vaticano por causa da posição muito liberal da sua revista, particularmente sobre assuntos como os casamentos gays, as relações com o Islã, a atitude que os políticos devem ter sobre o aborto.

O atrito de Reese com Roma nasceu no ano 2000, quando foi publicado o documento Dominus Jesus, que reiterava a visão do catolicismo como a principal estrada para a salvação do homem e a sua substancial supremacia, por isso, sobre as outras religiões. Reese criticou o documento colocando-se contra o então cardeal Ratzinger. O então diretor do National Catholic Repoter, Tom Roberts, definiu a renúncia de Reese de "uma tragédia absoluta, uma afronta terrível para a discussão inteligente". "Se é verdade que essa é uma decisão do Vaticano – disse o teólogo Stephen Pope, do Boston College –, essa história terá um efeito congelante. Os teólogos católicos que querem fazer perguntas decisivas não as publicarão mais em revistas católicas".

Depois da eleição de Bento XVI, em um editorial, a revista America afirmou que uma Igreja "que não pode discutir as questões abertamente é uma Igreja destinada a um gueto intelectual". Uma vez demitido, Reese se retirou por algum tempo na Califórnia. Lá, ele começou a dialogar por e-mail com um pequeno círculo de amigos teólogos. Um dia, ele lhes sugeriu que lessem um artigo que explicava, melhor do que outros, o porquê da severidade do atual pontífice contra ele. O artigo foi publicado na Commonweal, prestigiada revista quinzenal de católicos progressistas dos EUA, que tem entre as suas assinaturas William Pfaff, Paul Baumann, Margaret e Peter Steinfels.

Magister diz: "O seu autor era Joseph A. Komonchak, padre da arquidiocese de Nova York, professor da Catholic University of America, de Washington, e colaborador de destaque da História do Concílio Vaticano II, em cinco volumes, dirigida por Giuseppe Alberigo. Komonchak identificava em Ratzinger, desde seus estudos juvenis, uma constante aversão ao pensamento de São Tomás de Aquino e uma preferência marcada por Santo Agostinho e pelo seu seguidor medieval São Boaventura.

Entre os contemporâneos, Ratzinger sempre se colocou perto de figuras como Henri de Lubac e Jean Daniélou, defensores de um retorno às fontes bíblicas, patrísticas e litúrgicas, e distante de teólogos de inspiração mais tomista, como Marie-Dominique Chenu, Karl Rahner, Bernard Lonergan, Edward Schillebeeckx.

No início do Vaticano II, essas duas correntes trabalhavam juntas, mas quando se chegou à constituição Gaudium et Spes sobre a Igreja no mundo contemporâneo, elas se dividiram. Ratzinger criticou fortemente o esboço inspirado pelo tomista Chenu, considerando-a muito otimista e complacente com relação ao pensamento moderno.

Segundo Komonchak, Ratzinger não se desviou mais dessa posição. Ele acredita que a Igreja se rendeu ao mundo, perdendo identidade e impulso missionário. Nesse estado de crise, a sua única resposta é a reproposição integral da mensagem cristã como verdadeira força libertadora. Para Ratzinger, não haveria nada de positivo nas culturas que se afirmaram hoje fora da igreja, quase sempre antitéticas ao especificamente cristão.

Na sua primeira homilia como papa na Praça de São Pedro (24-04-2005, por ocasião da missa de início do seu ministério), Bento XVI descreveu o mundo moderno como um "deserto" e como "águas de morte", dos quais só a Igreja pode trazer a salvação para todos os homens. E é a igreja unida na fé, não os teólogos divididos pelas disputas, que deve cumprir essa tarefa.

"Daí surge – escreveu ainda Komonchak – a severidade mostrada por Ratzinger como prefeito da Congregação para a Doutrina da Fé, como indica um de seus últimos atos, a remoção do padre Thomas Reese como editor da America".

 

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