Diálogo e reconciliação: Igreja alemã à prova

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07 Agosto 2011

Uma decisão pessoal: o presidente da Conferência Episcopal Alemã, o arcebispo de Friburgo, Dom Robert Zollitsch (foto), no encerramento da assembleia plenária da Conferência em setembro de 2010, anunciava um amplo "processo de diálogo e reflexão", que levaria a Igreja Católica da Alemanha a superar crise que estourou depois do episódio dos abusos, sem que antes houvesse, dentro do plenário, consultas ou escrutínios a respeito.

A reportagem é de Guido Horst, publicada no sítio Vatican Insider, 07-08-2011. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Muitos coirmãos do prelado friburguense, que primeiro haviam ficado desconcertados, mais tarde aderiram. Desde os tempos do Sínodo dos Würzburg, de 1971 a 1975, abandonado com desilusão pelo então teólogo Joseph Ratzinger, a Igreja Católica na terra de Lutero se encontra, pela primeira vez, em um processo sinodal: até 2015, os bispos e os expoentes das associações católicas leigas se propõem a realizar consultas para encontrar o modo de superar a crise de credibilidade e de confiança relacionada ao escândalo dos abusos que surgiu em janeiro de 2010.

O escândalo havia estourado depois das revelações de Klaus Mertes, diretor do colégio jesuíta de Berlim Canisius-Kolleg, que, em uma carta, exortava os ex-alunos do colégio a denunciar os casos de abuso sexual perpetrados por eclesiásticos mesmo que muito tempo atrás. A resposta midiática que havia se seguido havia sido forte, e assim, em diversas cidades, vítimas de abusos cometidos tanto em institutos escolares religiosos, quanto de outro gênero, se manifestaram. Naquele momento, a Conferência Episcopal aprovou diretrizes mais rigorosas para a avaliação e a prevenção dos casos de abusos sexuais nomeando, além disso, um encarregado especial da Conferência para todas as questões relacionadas a esses casos, o bispo Stephan Ackermann, de Trier.

Talvez Dom Zollitsch, superado pela pressão da campanha midiática contra escolas e sacerdotes católicos, sendo ele mesmo professor e educador, se viu forçado a empreender uma "fuga para a frente": do processo de diálogo que vai durar mais quatro anos. Zollitsch espera "começar a dar passos em direção a uma evolução e a uma consolidação interna, às quais podem contribuir, de modo particular, as disposições do Concílio Vaticano II a 50 anos da sua conclusão. Além disso, também devem ser valorizadas as experiências e os desenvolvimentos que, desde então, a Igreja na Alemanha amadureceu e assumiu".

Logo, surgiu de maneira inequívoca que a questão de fundo não eram os abusos. No dia 21 de janeiro de 2011, políticos católicos de primeiro plano, em uma carta aberta, solicitaram aos bispos alemães que os viri probati, ou seja, "homens casados, provados na fé", pudessem ter acesso ao sacerdócio. Apenas dez dias depois, ou seja, no dia 4 de fevereiro, mais de 150 professores de teologia da Alemanha, Áustria e Suíça assinaram um Memorando sobre as reformas que desejam para a Igreja. Na declaração, intitulada Igreja 2011: Uma virada necessária, eles defendiam, entre outras coisas, uma maior participação dos fiéis na nomeação dos altos cargos eclesiásticos, o sacerdócio também aos homens casados, uma melhor posição da mulher na Igreja e um maior respeito pelos casais homossexuais. Depois, na Páscoa, o canal ZDF (Zweites Deutsches Fernsehen, a segunda principal emissora alemã) publicou os resultados de uma pesquisa segundo a qual 80% dos católicos na Alemanha exigem reformas no aparato da Igreja, como a abolição do celibato e o acesso das mulheres ao sacerdócio. A crise dos abusos havia sido a ocasião para uma luta pelas chamadas "reformas" que a Igreja Protestante na Alemanha já implementou há muito tempo.

Processo de diálogo

Com base nessas premissas, ocorreu, nos dias 8 e 9 de junho, em Mannheim, a primeira rodada de consultas do processo de diálogo desejado pelo arcebispo Zollitsch. A convite dos bispos alemães, cerca de 300 participantes abordaram a questão das "perspectivas da Igreja do amanhã". Foi o Secretariado da Conferência Episcopal Alemã, sob a liderança do jesuíta Hans Langendörfer, homem de confiança de Klaus Mertes, seu coetâneo e coirmão, que fez a seleção dos participantes: representantes das associações católicas e da organização central do catolicismo alemão, o Comitê Central dos Católicos Alemães.

Os discursos versaram invariavelmente sobre as mesmas "reformas": matrimônio para os sacerdotes, sacerdócio feminino, comunhão/aproximação do catolicismo e protestantismo, admissão à Eucaristia de casais de segunda união ou que vivem juntos, reconhecimento dos casais homossexuais.

No dia 13 de agosto, Dom Zollitsch, o cardeal de Munique, Reinhard Marx, além dos bispos Franz-Josef Overbeck, de Essen, e Franz-Josef Bode, de Osnabrück, irão até Castel Gandolfo para informar o pontífice sobre o processo de diálogo em Mannheim. E, poucas semanas depois, Bento XVI, por sua vez, se dirigirá à Alemanha.

Se, nessa ocasião, ele não disser nada de fundamental sobre o processo quadrienal de diálogo da Igreja da Alemanha, a reação dos católicos reformistas será dura. Mas, ao contrário, mesmo que ele tome posição a respeito das instâncias propostas pelos reformistas, reafirmando a doutrina católica tradicional, ele irá atrair sobre si a sua ira.

Nunca antes Bento XVI havia se encontrado prestes a fazer uma viagem com a perspectiva de ter que fazer um duplo uso de todo o seu talento de diplomacia interna. A viagem que o espera poderá se revelar uma missão impossível.

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