Rumo a um cisma chinês?

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16 Julho 2011

Entre tensões, incompreensões e desconfianças, com canais de comunicação intermitentes ou inexistentes, preparam-se as condições ideais para acender a faísca da divisão. Uma análise histórica e cultural da difícil situação.

A reportagem é de Gianni Valente, publicada no sítio Vatican Insider, 15-07-2011. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Nem mesmo o nada ritual apelo do cardeal Joseph Zen ao presidente Hu Jintao e ao primeiro-ministro Wen Jiabao para que detivessem seus "funcionários canalhas" que ajudam "a escória da Igreja" serviu para esconjurar mais uma anunciada ordenação ilegítima do novo bispo católico de Shanthou, na província de Guandong.

Nesta manhã, às 9h, como programado, Joseph Huang Binzhuang, de 44 anos, foi consagrado bispo com a aprovação do governo, mas sem o consentimento do papa e contra as indicações provenientes da Santa Sé. Para ele também já está pronta a nota vaticana que proclama a sua excomunhão automática. Os oito bispos que participaram da consagração são todos reconhecidos pelo papa e até agora estavam em plena comunhão com a Sé Apostólica de Roma.

Nos últimos dias, alguns deles haviam sido removidos de suas sedes respectivas pelos aparatos que administram a polícia religiosa do regime, para induzi-los a participar do rito contrário às leis canônicas da Igreja Católica.

Enquanto isso, depois de Shantou, os funcionários da polícia religiosa seguem adiante segundo um roteiro e já preparam o próximo movimento. Em alguns dias, caberá com toda a probabilidade à diocese de Harbin. Lá, na capital de Heilongjiang, já começaram os preparativos para celebrar a próxima ordenação episcopal sem o consentimento do Vaticano. O candidato que irá se tornar o novo bispo ilegítimo da Igreja Católica chinesa é Joseph Yue Fu Sheng, de 47 anos, um padre que, há alguns anos, esteve envolvido em uma briga e perdeu uma orelha. Ele foi nomeado por meio da habitual eleição pseudodemocrática dos representantes da diocese, sob estrito controle dos órgãos governamentais. Mas não receberá o mandato apostólico, ou seja, a aprovação do papa. Em vez disso, de Roma, também poderá chegar para ele a certificação de ter incorrido na imediata e automática pena canônica da excomunhão. A mesma pena já proclamada para Paolo Lei Shiyin, o novo bispo ilegítimo consagrada em Leshan no dia 29 de junho.

As três ordenações episcopais ilegítimas impostas pelo regime chinês nos últimos nove meses (antes dos casos de Leshan e Shantou, houve uma que ocorreu em Chengde, no dia 20 de novembro passado) e as que já aparecem no horizonte parecem ser, neste momento, o início de um tsunami político-eclesial de resultados potencialmente devastadores.

Estado de espera

Alguns fatores condicionantes determinam um cenário em que cada movimento piora a crise. Os dirigentes políticos chineses já entraram na fase preparatória para a sucessão da cúpula do regime. Tudo está bloqueado à espera dos novos dirigentes, todas as energias estão concentradas na definição das correntes de poder, e, nessa fase de instabilidade, ninguém quer assumir publicamente a responsabilidade de reabrir canais oficiais de diálogo com o Vaticano, depois que as intensas negociações dos últimos anos anos encalharam sem a assinatura de um acordo.

Nesse estado de espera, os funcionários de nível médio que gerem a polícia religiosa voltam a aplicar burocraticamente os protocolos de sempre, os que presidem às ordenações episcopais organizadas sem "interferências" vaticanas, em deferência aos slogans consumados da independência "patriótica" à qual as diversas realidades religiosas do país devem se ater.

O roteiro a ser seguido é a atribuição progressiva das 40 sedes episcopais católicas vacantes. Em Roma, não se pode imaginar como superar o blecaute comunicativo dos canais reservados de contato que, no passado, haviam sido abertos entre a embaixada chinesa na Itália e os Palácios Vaticanos, e que haviam sido utilizados para facilitar as numerosas nomeações ocorridos nos últimos tempos, com o consentimento paralelo de Pequim e da Sé Apostólica.

Ao contrário, com relação à comunicação intraeclesial, abundaram as indicações enviadas pela Santa Sé aos pastores da Igreja chinesa neste momento traumático. Com o comunicado vaticano após a ordenação episcopal ilegítima de Leshan, pela primeira vez a Santa Sé declarou publicamente a excomunhão latae sententiae acplicada a um bispo ilegítimo da Igreja da China, desde os tempos das primeiras ordenações "independentes" e autogeridas impostas pelos maoístas em 1958.

Como já mencionado, a mesma medida deverá ser adotada para o bispo ilegítimo de Shantou, para o de Harbin e para todos os próximos consagrados sem a aprovação papal.

Crescimento exponencial de bispos ilegítimos

Anteontem, um novo blog em chinês e inglês inaugurado pela agência Fides – órgão da Congregação para a Evangelização dos Povos – publicou uma lista de perguntas e respostas em chinês e inglês para esclarecer em detalhes as implicações canônicas dos recentes pronunciamentos vaticanos sobre as ordenações ilícitas.

Segundo o texto emitido pela Fides, os bispos em comunhão com Roma que participaram como consagrantes de ordenações ilegítimas também estariam, neste momento, suspensos a uma "suposta imputabilidade" e não lhes seria permitido nem administrar legitimamente os sacramentos entre os seus fiéis, até que suas posições e seus eventuais atenuantes não sejam avaliado pelos escritórios vaticanos. Uma interpretação que não encontra consenso entre os canonistas, nem no Vaticano.

O efeito presumível do mecanismo posto em movimento é um crescimento exponencial e rápido do número de bispos chineses ilegítimos aos olhos da Santa Sé. Em 1962, depois dos primeiros anos de ordenações "independentes" celebradas pelo regime em ritmos industriais, houve na China apenas cerca de 20 bispos nomeados por Roma antes do advento dos comunistas, enquanto os bispos nomeados pelos órgãos patrióticos com a aprovação do governo mas sem a do papa eram 42.

Depois dos anos atrozes da Revolução Cultural, aquela vasta área de ilegitimidade episcopal havia sido lentamente reabsorvida, também graças à via escolhida da "sanatio" concedido a muitos bispos que declaravam jamais ter renegado em seus corações o desejo de comunhão com o sucessor de Pedro. Em novembro passado, entre os bispos chineses com aprovação do governo, os que não eram reconhecidos por Roma eram apenas cinco de cerca de 80. Todos eleitos nos últimos anos, durante outras fases conturbadas recentes do episódio sino-vaticano.

Agora, o número dos bispos ilegítimos – alguns dos quais foram excomungados coram populo pela Sé Apostólica – volta a crescer em ritmos mais rápidos. Em pouco tempo, poderão em breve alcançar a cifra 15-20 unidades. E também poderia crescer rapidamente o número de bispos "suspeitos", chamados a justificar diante das instâncias vaticanas sua própria condescendência com relação às pressões e às coações usadas pelo regime para convencê-los ou obrigá-los a participar com consagrantes das liturgias de ordenação ilegítima.

Cisma iminente

Em uma situação tão confusa, cheia de tensões, sofrimentos, incompreensões e crescentes desconfianças, com canais de comunicação intermitentes ou inexistentes também entre a Santa Sé e grande parte da Igreja da China, vão sendo preparadas as condições ideais para acender a faísca do cisma.

Nos anos 1950, diante dos preâmbulos virulentos da política religiosa maoísta, Pio XII, na encíclica Ad Apostolorum Principis (1958), reiterara que, para "consagração abusiva, que é um gravíssimo atentado contra a própria a unidade da Igreja, é estabelecida a excomunhão reservada de modo muito especial à Sé Apostólica". Mas o Papa Pacelli nunca havia aplicado a categoria de cisma à dolorosa história do catolicismo chinês. Quem o havia feito, embora em termos hipotéticos, foi seu sucessor, João XXIII. A poucas semanas da sua eleição, em um discurso aos cardeais no dia 15 de dezembro de 1958, o Papa Roncalli, abordando a questão chinesa, havia se dirigido "àqueles que se mostram fracos, vacilantes e hesitantes e expressamente àqueles que, tendo ocupado ilegitimamente o posto dos sagrados pastores, infelizmente abriram caminho para um funesto cisma. Essa palavra "cisma", enquanto a pronunciamos, é como se queimasse os nossos lábios e angustia o nosso coração".

Nos anos posteriores, diversos missionários expulsos da China – incluindo o grande Lorenzo Bianchi, missionário do PIME e bispo de Hong Kong – haviam falado ao papa sobre os reais sentimentos e sofrimentos suportados pelos cristãos chineses pela sua fé, convidando-o a usar expressões mais calibradas: "Eu pedi ao papa", escreve em uma carta o bispo Karl Van Melckebeke, durante 30 anos missionário nas províncias chinesas, "que a palavra cisma jamais fosse usada novamente no caso em que o Vaticano tivesse que mostrar sua própria desaprovação com relação às palavras ou aos atos do episcopado da China. João XXIII me prometeu isso. Depois, pelo que eu sei, o Vaticano não usou mais essa expressão".

Seria um paradoxo amargo se a sombra de um cisma chinês voltasse a incumbir durante o pontificado de Bento XVI, o papa que tanto fez para reabsorver todas as feridas do cisma lefebvriano.

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