19J em Barcelona. Não há dúvidas: A rua é nossa

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27 Junho 2011

O 19J passou pelo teste de legitimidade nas ruas e não deixa dúvidas sobre a força do movimento iniciado em 15M.   O comentario é de Josep Maria Antentas e Esther Vivas em artigo para o El País, 27-06-2011. A tradução é do Cepat.

Josep Maria Antentas é professor de sociologia da Universidade Autônoma de Barcelona (UAB) e Esther Vivas, membro do Centro de Estudos sobre Movimentos Sociais (CEMS) da Universidade Pompeu Fabra (UPF). Ambos são autores do livro Resistências Globais. De Seattle à Crise de Wall Street [sem edição em portugués].

Eis o artigo.

O 19J apresentou-se como um teste decisivo para o movimento nascido no 15M. O objetivo inicial da jornada era traduzir em mobilização a simpatia popular que o movimento conseguiu despertar durante semanas. Depois da jornada do 15J diante do Parlamento da Catalunha, entretanto, a manifestação do domingo 19 era uma prova de força frente aos adversarios do movimento. Após o 15J o movimento se viu envolvido em uma batalha pela legitimidade e necessitava exibir músculos e uma mobilização de massas que colocasse fim as dúvidas.

O resultado não deixa dúvidas. Não vale a pena entrar na guerra de cifras, mas na jornada de 19J centenas de milhares de pessoas sairam às ruas. 150 mil se manifestaram em Madri em uma espetacular marcha organizada por colunas desde os bairros até o centro. 275 mil (segundo dados a partir de fotos feitas por satélite pelo google) sairam em Barcelona, congestionando o centro da cidade. E o mesmo em mais de 50 cidades do Estado espanhol.

O tom e o perfil da convocatória se caracterizou pela combinação do ambiente festivo e lúdico com a radicalidade de suas demandas. "A rua é nossa. Não pagaremos a conta" era o lema geral da convocatória de Barcelona acompanhada de três sub-slogans: "Chega de cortes", "Felip Puig [ministro do Interior] demita-se" e "Greve geral". As críticas ao Pacto do Euro, os recentes cortes sociais, a banca, a proposta de uma greve geral… foram alguns dos slogans mais recorrentes. Na memória de muitos sobreveio a enorme manifestação "contra a Europa do Capital e a Guerra" de 16 de março de 2002 durante o encontro da União Europeia na cidade, um hit então do movimento "antiglobalização".

No 19J verificou-se a ampliação quantitativa e qualitativa do movimento em relação ao 15M. Num mês a base social do mesmo se ampliou, diversificando-se social e generacionalmente, estabelecendo-se social e territorialmente. Termina assim a primeira fase aberta com o 15M e os acampamentos e começa outra, ainda por se definir.

Esta primeira sacudida social refletiu a profundidade e a dinâmica em curso e a consistência da indignação social do movimento em marcha que sobreviveu ao feroz ataque posterior ao 15J. A operação de criminalização posta em marcha após o  bloqueio do Parlamento da Catalunha não funcionou. Encurralado midiaticamente na quarta 15, o movimento demonstrou pouco depois que continua gozando de amplo apoio popular.

Na Catalunha, com o 15J em pleno turbilhão midiático, alguns setores sociais simpatizantes com as e os indignados chegaram a pensar que o movimento "tinha ido longe demais" e que "não é assim que se fazem as coisas", porém, a maioria deles progressivamente se aproximou de novo do movimento durante os dias posteriores. Parece claro que o governo conservador de CiU errou de novo em seus cálculos táticos e moveu um ataque brutal contra o movimento que foi percebido como excessivo para boa parte da opinião pública. As denúncias de "kale borroka de baja intensidad" ["guerrilha de rua" de baixa intensidade] e de ações de "extrema violência" relacionadas à ação diante do Parlamento soaram exageradas à luz das imagens vistas.

A ameaça grosseira do Ministro do Interior em apresentar uma ação contra Arcadi Oliveres, presidente da Justiça e Paz e cuja popularidade na Catalunha é enorme, por suas insinuações de que poderia haver policiais infiltrados provocando brigas diante do Parlamento, apenas serviu para dar mais popularidade aos vídeos circulando pela internet que denunciavam infiltração policial. E confirmou, sem dúvidas, a vontade do governo da CiU de utilizar a mobilização diante do Parlamento para criminalizar os movimentos sociais em geral. Da mesma forma, o ataque direto à Federação de Vizinhos de Barcelona (FAVB) que convocou um panelaço diante do Parlamento (mas não o bloqueio) foi visto como uma tentativa em desacreditar uma das organizações sociais mais representativs da cidade, que joga um papel chave na oposição municipal ao novo prefeito conservador Xavier Trías.

Na criminalização ao 15J, como em outras ocasiões, ficou evidente a existência de uma distância e uma dissonância notória entre o discurso dos meios de comunicação e o sentimento social majoritário. A verborréia sobre o "ataque a democracia", "sequestro do parlamento"…, demonstrou a opinião de alguns frente a maioria dos cidadãos. A sacralização das instituições e de seus representantes feita pelos meios de comunicação não se fez sentir nas ruas. Muitos meios de comunicação perguntaram ao movimento se fazia "autocrítica" pela mobilização diante do Parlamento. À vista da manifestação do 19J muitos profissionais honestos do jornalismo e que demonstram simpatia ao movimento das e dos indignados e não entenderam o 15J, deveriam fazer a si a mesma pergunta.

O movimento, além disso, conseguir reagir apesar das dificuldades de forjar consensos e de problemas de funcionamento interno com um discurso inteligente frente as tentativas de criminalização. Reafirmou a legitimidade da ação do "bloqueio" ao Parlamento, reafirmou sua petição de uma convocação de referendum sobre os cortes sociais, insistiu no exagero midiático dos incidentes "violentos" acontecidos na jornada, reiteirou as suspeitas de provovaççao policial, denunciou a violência policial e as prisões durante o protesto, e desmacarou (sem entrar em condenações criminalizadoras) aquelas ações que durante a mobilização não se adequavam ao critério de "ação massiva, não violenta e determinada" consensuada na preparação da jornada.

Nesse cenário parte da esquerda moderada catalã que no 15J jogou um lamentável papel confrontando-se com o movimento e atuando sob o redil da direita, acabou compreendendo que na manifestação do 19J não apenas se jogava o futuro e a credibilidade do movimento. De forma discreta, partidos como ICV-EUiA mostraram seu apoio a manifestação e assim o fizeram indiretamente também alguns dos meios de comunicação. De sua parte, os sindicatos majoritários, CCOO e UGT, num segundo plano desde o ascenso do movimento, fizeram um chamado à participação na manifestação e estiveram presentes nela (com discrição para evitar susceptibilidades.

O sucesso do 19J mostra a amplitude da simpatia popular pelo movimento e do mal estar social que expressa. Por detrás da massiva participação houve também uma reação defensiva de boa parte da base social do movimento que entendeu a excepcionalidade da convocatória, sua importância crucial e a necessidade de uma resposta contundente à tentativa de criminalizá-lo e destrui-lo.

As declarações de todos os dirigentes políticos catalães depois do 19J, começando pela declaração do presidente da Generalitat, Artur Mas, que afirmava "compreender" os e as indignadas, e do Ministro do Interior, Felip Puig, que "felicitou" os organizadores da manifestação, são a melhor prova do sucesso rotundo do 19J em Barcelona.

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