Escutar as vítimas, aquelas contra quem se pecou

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25 Junho 2011

Um simpósio proposto pelo Vaticano reunirá especialistas e pessoas com experiência pastoral no campo do auxílio às vítimas dos abusos sexuais clericais. Até agora não há planos para incluir as próprias vítimas, o que seria uma pena.

Publicamos aqui o editorial da revista católica britânica The Tablet, 25-06-2011. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Eis o texto.

Um tema subjacente à vergonhosa história dos abusos sexuais clericais na Igreja Católica tem sido a negligência às vítimas. Finalmente isso está mudando, e o intenso estudo do próximo ano sobre toda a questão que está sendo organizado pela Universidade Gregoriana de Roma será um divisor de águas na forma como esse aspecto é tratado.

O simpósio proposto tem o apoio do prefeito da Congregação para a Doutrina da Fé, o cardeal William Levada, e reunirá especialistas e pessoas com experiência pastoral nesse campo.

Até agora não há planos para incluir as próprias vítimas, o que seria uma pena. Não é simplesmente pelo fato de que elas precisam ser ouvidas como parte de um possível processo de cura. A marginalização das vítimas representou uma mentalidade cujas origens jazem nas tradições da espiritualidade católica que enfatizavam como evitar o pecado e a recuperação dos pecadores por meio da penitência e do arrependimento.

Essa mentalidade implicou em que a verdadeira tragédia de um ato de abuso sexual por um padre fosse a profanação do ofício sacerdotal pelo cometimento de um ato de não castidade, ao invés de um dano psicológico grave e possivelmente permanente infligido sobre uma criança inocente e indefesa.

Aqueles que tinham essa mentalidade, cegados pelo mal menor, não podiam ver o maior. Isso significava que a Igreja, em resposta aos atos de abuso que chegavam ao conhecimento oficial, dava prioridade ao tratamento do transgressor e esquecia do transgredido. Essa foi a verdadeira essência da deformidade clericalista das formas de pensar e de agir na Igreja que prepararam o caminho para todos os escândalos de encobrimento, negação e engano.

De forma alguma todos na Igreja aprenderam essa lição. A ordem rosminiana fracassou em responder adequadamente às revelações de abuso sexual em uma de suas instituições na África. Um padre envolvido era um dos sacerdotes católicos mais conhecidos em Londres, o falecido Pe. Kit Cunningham, da paróquia St. Etheldreda, em Ely Place. Antes de morrer, ele até devolveu o seu prêmio MBE ao Palácio de Buckingham, porque sentia que havia sido homenageado sob falsos pretextos.

Aquelas pessoas a quem ele serviu e que o amavam em Londres descobriram que era difícil acreditar que ele fosse capaz de tais crimes: talvez, o conhecimento de sua própria depravação poderia ter somado à sua sensibilidade como pároco; e quase certamente tinha sua origem em seu grave alcoolismo. Foi somente a revelação de algumas de suas vítimas anos depois, no entanto, que expôs sua verdadeira história aos olhos do público. O caso de Cunningham confirma o serviço único e essencial que as vítimas fazem à Igreja, embora seja um serviço que a Igreja pouco reconhece.

Um dos principais oradores no evento na Gregoriana será a Baronesa (Sheila) Hollins, ex-presidente do Royal College of Psychiatrists, que participou da visitação pontifícia à Igreja Católica irlandesa. Ela tem desempenhado um papel central em colocar as vítimas no centro da preocupação da Igreja. Ela disse que, em sua experiência profissional, os homens que se tornam abusadores de crianças foram invariavelmente abusadas quando crianças.

Isso levanta a questão, que pede urgentemente novas pesquisas, sobre quantos padres abusadores foram, eles mesmos, abusados na infância (mas não necessariamente por sacerdotes). Se esse importante elo na cadeia da causalidade for negligenciado, essa será mais uma consequência prejudicial para a marginalização das vítimas.

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