A teoria do papa sobre os abusos sexuais por parte do clero

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18 Junho 2011

Em um ambiente, como o australiano, em que muitos cristãos estão entre aqueles que não veem nenhum problema moral no tráfico de pessoas para a Malásia para alcançar fins políticos, acho que a insistência do papa sobre valores morais absolutos são muito bem-vindos. Mas, no caso do abuso sexual clerical, sua análise não é pertinente.

A análise é de Andrew Hamilton, publicada no sítio Eureka Street, revista eletrônica dos jesuítas da Austrália, 15-06-2011. A tradução é de Moisés Sbardelotto e revisada pela IHU On-Line.

Eis o texto.

Uma das intrigantes qualidades do Papa Bento XVI é o seu estilo intelectual.

Ele sempre usa grandes construções teóricas, como o secularismo, para refletir sobre a condição tanto das sociedades ocidentais quanto da Igreja. Ele também atribui regularmente os aspectos disfuncionais tanto da Igreja quanto da sociedade à adoção de falsas teorias. Ele regularmente tem atribuído o abuso sexual por parte do clero católico a uma má teoria moral.

A força dessa forma de ver o mundo é que ela simplifica realidades complexas e fornece um foco para a reflexão e a conversa com aqueles que têm uma visão diferente. Particularmente a durante sua visita à Inglaterra no início deste ano, o Papa provocou úteis debates sobre o lugar da religião na sociedade. Seu estilo intelectual engajou seus ouvintes e ofereceu uma perspectiva diferente, mesmo não os tendo persuadido.

A amplitude e a abstração desse estilo intelectual também deixa espaço para a liderança confiante. Se você acredita que pode identificar as causas da fraqueza na sociedade e na Igreja, você também pode ser capaz de exercer o controle sobre elas. Se a raiz da corrupção está na falsa teoria, você pode trabalhar para converter as pessoas para a verdadeira teoria. Em uma Igreja, você também pode ser capaz de proscrever a má teoria, prescrevendo a verdadeira teoria e, assim, erradicar a corrupção.

Os pontos fortes desse estilo intelectual também são suas fraquezas potenciais. Quando você pensa a partir de grandes termos teóricos, é fácil omitir as relações sutis que são crucialmente importantes. Também é muito fácil omitir as formas pelas quais a sua própria perspectiva pode fazer parte do problema, e não simplesmente um guia de autoridade para a sua solução. Se o seu diagnóstico for impreciso, o seu remédio será, na melhor das hipóteses, infrutífero e, na pior, contraproducente.

Quando Bento XVI acusa a má teoria moral pelo abuso sexual por parte do clero, ele pode oferecer um exemplo das fraquezas desse estilo intelectual. Seu julgamento é sustentado firmemente: ele fez isso em pelo menos três lugares. Em si mesmo, o seu argumento não é isento de plausibilidade.

O proporcionalismo, a teoria moral que ele tem em mente, é complexo. Poderia ser mal entendido como a proposta de um relativismo moral, no qual não poderíamos falar de ações em si mesmas como certas ou erradas sem nos referirmos às nossas intenções, às nossas circunstâncias ou às consequências percebidas. Alguém que sustentasse esse ponto de vista poderia, então, ser capaz de argumentar que, em suas circunstâncias, a pedofilia seria moralmente aceitável.

O papa também poderia argumentar que, embora diferentes teorias morais possam ter pouca circulação entre os católicos em geral, elas são significativas porque influenciam o pensamento moral dos futuros padres. E o pensamento moral influencia, sim, a ação. Finalmente, a teoria que ele critica gozou de alguma circulação entre os teóricos da moral católicos nos anos 1970, época em que o abuso clerical começou a aumentar acentuadamente.

O relatório John Jay argumenta contra a influência dessa teoria, pelo menos nos EUA. Ele sugere que a maioria dos infratores receberam uma teologia moral tradicional, que enfatizava o bem e o mal das ações, independentemente das circunstâncias ou da intenção. O clero transgressor, também, reconheceu a pecaminosidade das suas ações e deu peso ao fato de confessá-las e serem perdoados por Deus. Sua espiritualidade centrou-se na relação do indivíduo com Deus.

As raízes do abuso, então, estabeleceram-se sobre o modo pelo qual a vida católica e a vida clerical eram interpretadas antes do Vaticano II, e não em teorias morais que surgiram depois dele.

Essas conclusões convidam à reflexão que pode levar a uma teoria explicativa. Mas qualquer teoria satisfatória pouco provavelmente será simples ou poderá ser colocada em termos de grandes movimentos intelectuais.

Ela terá que refletir sobre as relações entre os aspectos interligados da vida católica nos diferentes períodos e culturas. Ela poderia questionar como o poder, a sexualidade, o celibato, o status clerical, o pecado, a confissão e Deus estavam inter-relacionados na metade do século XX, e que mudanças nessa relação ocorreram a partir da década de 1960 e posteriormente.

Tal reflexão, inevitavelmente, irá se voltar para as maneiras pelas quais o entrelaçamento desses elementos moldou o pensamento católico sobre Deus e a Igreja. Teorias morais farão parte da trama dessa tapeçaria, mas focar-se sobre eles apenas implica em perder muito do que é saliente.

Esse tipo de perguntas são suscetíveis a um paciente e intuitivo desemaranhamento do pensamento, da história, da experiência e das imagens. Elas envolvem uma boa dose de autorreflexão e uma disponibilidade para a mudança. Elas são menos suscetíveis a uma análise teórica em termos preconcebidos.

Isso não é para minimizar o estilo intelectual do papa e sua insistência sobre os padrões morais objetivos. Em um ambiente australiano em que muitos cristãos estão entre aqueles que não veem nenhum problema moral no tráfico de pessoas para a Malásia para alcançar fins políticos, acho que a insistência do papa sobre valores morais absolutos são muito bem-vindos.

Mas, no caso do abuso sexual clerical, sua análise não é pertinente. É importante para a Igreja que ele guie e, para as vítimas de abuso, que ela seja buscada mais profundamente.

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