"É preciso um novo humanismo cristão aberto às outras religiões"

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21 Junho 2011

A "mestiçagem" de civilizações e culturas é uma perspectiva já "muito concreta" perante as ondas migratórias da África subsaariana, que tendem a aumentar e provocadas por "condições de vida insuportáveis". Diante do que está acontecendo, os cristãos, sem "renegar nada do Evangelho", devem estar "entre os outros homens com simpatia", redescobrindo um humanismo cristão aberto "às outras religiões".

A reportagem é de Andrea Tornielli, publicada no jornal La Stampa, 21-06-2011. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Essa é a perspectiva oferecida pelo cardeal Angelo Scola (foto) no discurso inaugural dos trabalhos do encontro anual da revista internacional Oasis, na ilha veneziana de San Servolo, do qual participam bispos do Oriente Médio e estudiosos, para se interrogarem e discutirem sobre a "nova laicidade" e sobre o "imprevisto" das revoltas no norte da África. Uma perspectiva de encontro, de diálogo, de escuta, para tentar compreender profundamente os fenômenos emergentes nessas sociedades e os reflexos inevitáveis sobre a vida do Ocidente.

Uma abordagem habitual para Scola, que, desde 2004, deu origem à revista e a esse grupo de trabalho, mas que assume um significado particular nestes dias de espera pelo anúncio do nome do novo arcebispo de Milão, previsto para a próxima semana.

Com toda a probabilidade, de fato, será justamente o patriarca de Veneza que irá suceder o cardeal Dionigi Tettamanzi na cátedra de Santo Ambrósio, e essa eventualidade já foi retratada por alguns com tintas foscas, como uma espécie de "normalização", uma mudança epocal com relação aos episcopados de Carlo Maria Martini e do próprio Tettamanzi.

O arcebispo prestes a sair voou mais alto no domingo, nas colunas do jornal La Repubblica. Apontando para a necessidade de prosseguir no diálogo inter-religioso e na integração, remeteu-se à "sensibilidade do novo pastor". Ontem de manhã, em San Servolo, Scola tomou a palavra do patriarca de Veneza, sem se referir de nenhum modo à boataria midiática que se refere a ele. Mas seu discurso é esclarecedor também na perspectiva da eventual sucessão em Milão.

Referindo-se às revoltas no norte da África, o cardeal observou como elas surgiram em contextos de pobreza, "em âmbito juvenil", com o pedido recorrente de trabalho. Ele parecia compartilhar a análise daqueles estudiosos que afirmam que a grande "onda de choque" dos fluxos migratórios ainda está por vir: "Por trás das populações do Magrebe – disse ele –, as subsaarianas estão empurrando, com os jovens que veem seus coetâneos imigrantes na Europa ganhando 500 euros por mês, uma quantia que, em seus respectivos países, eles não conseguem juntar em um ano".

Eis porque Scola, em nome do realismo, afirma que não se pode continuar assim, "sem intervir radicalmente sobre o atual sistema econômico". "Não é apenas uma questão ética – acrescenta – como se costuma repetir em alguns ambientes. É uma impossibilidade prática". Precisamente por isso, Bento XVI dedicou uma encíclica, a Caritas in Veritate, à elaboração de uma "nova razão econômica".

O cardeal, assim, lembrou que foi ridicularizado há sete anos, quando, na sequência das interrogações abertas depois do 11 de setembro, ele lançou a provocação sobre a "mestiçagem" de culturas e de civilizações como perspectiva para o próximo futuro. Agora, "a demografia sugere que o fenômeno poderia assumir também características muito concretas e, como a história nos recorda, muito dolorosas".

Eis, portanto, a necessidade de "conhecer os processos para tentar orientá-los", chamando o Ocidente às suas responsabilidades, dado que – observa – a Tunísia, com a qual "devemos aprender", está acolhendo "muito mais refugiados do que a nossa cansada, passiva e velha Europa".

Scola convida a olhar para as revoltas do norte de África para além dos velhos clichês, também aqueles sobre a laicidade, que não deve ser interpretada como "categoria absoluta do espírito do qual se espera a manifestação (finalmente) também nas civilizações não europeias". E, portanto, sem considerar a relação com o Islã da mesma forma que os Estados europeus gerenciam suas relações com a Igreja. É preciso uma "nova laicidade", como busca "de um critério para regular o espaço da convivência possível".

O cardeal não considera as revoltas do norte da África como a queda do comunismo em 1989. Ao contrário, acrescenta, "talvez possam ser comparadas ao 1968" e, como naquele caso, existe o risco de serem hegemonizadas e instrumentalizadas.

Mas é a parte final da fala de Scola que contém uma indicação de método, atual embora antiquíssima. O cardeal a retira do antiga Carta a Diogneto, que ecoou há um mês por meio do Papa Bento XVI durante a sua visita a Veneza: "Não reneguem nada do Evangelho em que vocês acreditam, mas fiquem em meio aos homens com simpatia, comunicando no seu próprio estilo de vida aquele humanismo que funda as suas raízes no cristianismo, estendidas a construir, juntamente com todos os homens de boa vontade, uma cidade mais humana, mais justa e solidária".

Uma ênfase muito significativa, que prevê, "como sua dimensão intrínseca, a abertura às outras religiões e aos homens de boa vontade". Tendo sempre como horizonte "o testemunho", aquele que foi oferecido, pagando com o seu sangue, por duas figuras extraordinárias que Scola lembrou concluindo seu discurso: o bispo Luigi Padovese, assassinado na Turquia há um ano, e o ministro paquistanês Shahbaz Bhatti, "mártir de Cristo e grande paladino da luta contra a iníqua lei da blasfêmia".

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