"A árvore da vida"; um filme como meditação

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09 Junho 2011

"A árvore da vida e Homens e deuses são os únicos dois filmes do ano passado que me forçaram a rezar a partir deles. Ambos, penso eu, são obras-primas e irão – ou deverão – durar tanto quanto o cinema. Ou enquanto alguém fizer perguntas sobre Deus."

A análise é de James Martin, SJ, editor de cultura da revista dos jesuítas dos EUA, America, 06-06-2011. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Eis o texto.

Aqui vai uma confissão: fui ver predisposto o novo e surpreendente filme de Terrence Malick A Árvore da Vida. Muito predisposto.

Por uma coisa: eu sou um grande fã da (vou usar a palavra, pois ela se encaixa) oeuvre do diretor. Uma das primeiras coisas que eu li sobre Malick, um polímata um pouco privado, foi uma descrição da cinematografia em um dos seus primeiros filmes, Days of Heaven (1978).

Malick preferiu filmar a maioria das cenas externas iluminado apenas pelo brilho da "hora mágica", o momento laranja-dourado imediatamente antes do anoitecer. Muitas cenas do filme, sobre agricultores pobres do início do século XX, parecem ter sido mergulhadas no mel. A iluminação lança um tom elegíaco sobre a história, tanto quanto a luz solar que desvanece pode deixar alguém saudoso ou melancólico no final do dia. Por alguma razão eu achei essa técnica extremamente fascinante e, desde então, sempre que estou ao ar livre durante essas horas, eu penso no diretor e me lembro de Days of Heaven. Em certo sentido, ele me ensinou a ver esse momento de uma maneira nova.

Vinte anos depois de Days of Heaven, Malick lançou Além da linha vermelha, baseado no romance de James Jones sobre soldados no palco do Pacífico durante a Segunda Guerra Mundial, que foi, apesar do tema, igualmente sublime. Se um filme sobre os horrores da guerra pode ser chamado de "bonito", esse foi. E O Novo Mundo (2005), sobre John Smith e Pocahontas (os verdadeiros, não os personagens da Disney), é uma obra de arte magnífica, que prima pela mistura de natureza e música, e é um filme ao qual retorno constantemente.

Mais parcialidades sobre o seu mais recente trabalho: eu sou muito religioso (um eufemismo) e havia lido que A arvore da vida abordava às vezes aquelas que são abominavelmente chamadas de "As Grandes Questões" sobre a religião.

Mas estava despreparado para o poder do filme, que é como viver dentro de uma oração.

Essencialmente, o filme trabalha em (pelo menos) dois níveis: como uma história e como uma meditação. A história, contada elipticamente, é bastante simples. Um casal médio de Waco, Texas, na década de 1950, tem três filhos meninos, que crescem. O pai (Brad Pitt) revela-se gradualmente como um severo disciplinador no limite de ser um pai abusivo. A mãe (Jessica Chastain) é, ao longo do filme, uma força gentil (como Roger Ebert mencionou em sua incisiva análise [disponível aqui, em inglês], no entanto, poucas das duras ações do pai pareceriam estranhas para aquela época ou lugar; nem a sua esposa protesta muito).

Perto do começo do filme, ouvimos a esposa confidenciando uma lição que sua mãe lhe havia ensinado. Como muitas das narrações, ela é feita em um tom sussurrante, que faz com que você se senta bisbilhotando a alma de alguém. As duas formas opostas de vida, diz a mãe, são "o caminho da natureza" e "o caminho da graça". O pai (isto é, Pitt) parece representar a natureza (batalhador, agressivo, avarento), e a mãe, a graça (tolerante, sensível, exultante). Mais tarde (ou, mais precisamente, às vezes), Sean Penn aparece como um dos filhos, agora um adulto que contempla a sua infância e pensa sobre o seu futuro.

Francamente, eu prefiro não dar muito pelo enredo, que é, como eu disse, revelado elipticamente, impressionisticamente. Talvez muito elipticamente: um amigo fez uma pergunta coerente sobre a continuidade, que só foi resolvida quando eu falei com alguém que tinha, por acaso, trabalhado no filme. Engraçado, eu sou uma espécie de literalista quando se trata de livros ou filmes: eu gosto que as coisas sejam apresentadas em sequência. Mas, uma vez que eu me entreguei à visão de Malick, assim como se faria a um poema ou a uma sinfonia ou a uma pintura ou a uma oração, ele era perfeitamente lógico. E qual oração não é elíptica às vezes? Quais meditações são sempre lineares?

Filme como meditação

Mas eu prefiro não falar muito sobre o roteiro. Prefiro falar sobre o filme como uma meditação.

Aqui ele tem um sucesso brilhante, talvez melhor do que qualquer outro filme que eu me lembre. Malick se atreve a fazer grandes perguntas e a perguntá-las diretamente, sem rodeios, em narrações que tomam a forma de monólogos interiores. Ou, mais precisamente, tomam a forma de uma oração: muitas vezes vemos pessoas ajoelhadas. Ironicamente, enquanto a sequência da vida da família pode parecer cíclica, as perguntas decididamente não o são. São claras e distintas, para citar Descartes, como os tipos de questões que muitos fiéis têm. E elas são dirigidas de forma clara e distinta a Deus: "Quem é você?", "Você se preocupa conosco?". E a minha questão favorita e inesperada, quando algo trágico acontece no mundo dos meninos, razão pela qual o menino mais velho (Hunter McCracken) responsabiliza Deus: "Por que eu deveria ser bom se você não é?".

Malick se esforça para responder a essas questões durante todo o filme, mas também particularmente na sua (agora conhecida) sequência que tenta ilustrar nada menos do que a criação do universo. O Livro de Jó é citado em uma legenda no no início do filme: "Onde você estava quando eu lançava os fundamentos da terra?". Deus pergunta a Jó, o homem que é conhecido pelo seu sofrimento, mas que deveria ser conhecido pelos seus questionamentos.

Malick implicitamente nos pergunta também, enquanto vemos, literalmente, essas fundações serem feitas, em uma série brilhante de imagens que se move desde a aurora da Criação até, de forma comovente, ao nascimento dos filhos em Waco. É uma meditação sobre o universal e o particular, como os filósofos gostam de dizer (veja a sensível resenha de John Anderson na revista America sobre o seu parecer sobre essa sequência [disponível aqui, em inglês]).

Árvore da vida também celebra a meta inaciana (e budista e cristã e humana) da conscientização. O filme nos convida a estar acordados. Atentos. Vivos. Malick nos ajuda a ver a beleza no cotidiano. E, ah, é lindo! O rosto de um bebê segurado firmemente contra o corpo de uma mãe. Árvores. Uma criancinha dando seus primeiros passos em um gramado, segurando as mãos do pai. Meninos correndo pela alta grama do verão. Bolhas de sabão. Até mesmo um caminhão que passa pulverizando o bairro com uma nuvem nociva de DDT e na qual as crianças dançam alegremente parece sublime. O filme de Malick diz: "Olhe".

Monges e meninos

Quando eu rezei a partir do filme no dia seguinte, lembrei-me de Homens e deuses, sobre os monges martirizados do mosteiro de Nossa Senhora de Atlas na Argélia. Como são semelhantes e como são diferentes. Os trapistas franceses da vida real do norte de África na década de 1990 lutaram contra algumas Grandes Questões ligeiramente diferentes: "O que Deus quer que façamos?", "O martírio é o meu futuro?". Ao mesmo tempo, eles ponderaram algumas das mesmas questões que os meninos da ficção da década de 1950, em Waco, faziam ao mesmo Deus: "Você se preocupa conosco?".

Da mesma forma, tanto Homens e deuses quanto A árvore da vida dirigem o nosso olhar para as coisas pequenas de grande e ignorada beleza: em um filme, a grama que balança, uma grande árvore, um bebê que chora; no outro, um monge que atende uma criança doente, outro monge que serve vinho para seus irmãos, o canto comunitário dos salmos. Trechos de música clássica são usados com grande efeito por ambos os diretores. No caso dos Homens e deuses, o diretor Xavier Beauvois oferece Lago dos Cisnes como um acompanhamento para uma espécie de Última Ceia monástica. No caso de A árvore da vida, quase todas as cenas são pontuadas com um trecho de Brahms, Mahler, Berlioz ou da minha seleção favorita (que Malick usou em seu Novo Mundo), a inquietante Moldau, de Smetana. Ambos os filmes nos convidam a ver . E a ouvir.

Mas A árvore da vida difere de Homens e deuses. Ironicamente, o filme sobre uma família barulhenta tem menos conversa do que um filme sobre monges que vivem uma vida de silêncio. A mãe de A árvore da vida mal fala em geral, embora ela seja talvez a personagem mais influente na vida de seus filhos (seu  silêncio me fez lembrar do ditado de São Francisco de Assis: "Pregue o Evangelho sempre; use palavras quando necessário"). E o filme de Malick apresenta mais cenas que são estritamente visuais, sem palavras. Como os poetas modernistas disseram, ele mostra ao invés de contar.

Aqui está outra ironia: o abade do mosteiro trapista, pelo contrário, fala muito, assim como seus irmãos monges. A vida ativa é apresentada de forma contemplativa por Malick. A vida contemplativa é apresentada de forma ativa por Beauvois.

Plenitude dos tempos

Também são diferentes as respectivas apresentações do pós-vida. A cena final de Homens e deuses mostra os monges que em breve serão martirizados marchando resolutamente ao seu terrível destino. Não só suas mortes não são mostradas na tela, mas também qualquer pergunta sobre o céu é deixada em suspenso (é claro que eles são santos, pensará a maioria dos espectadores, mas não os vemos depois que a sua vida terrena termina).

Malick, por outro lado, não deixa de oferecer a sua visão do céu: uma visão poderosa, que também reconhece as diversas idades de pessoas que encontraremos na "plenitude dos tempos". Outro dia, de fato, eu me perguntava em voz alta se um amigo que, há 30 anos, morreu aos 21 anos terá essa idade quando nos encontrarmos nos céus. Malick nos dá uma espécie de resposta em sua visão final e mística.

Outra pequena diferença. Homens e deuses pode exigir algum conhecimento em profundidade do cristianismo – a noção de sacrifício, de oração contemplativa e da vida monástica em si (pode ser difícil entender por que os monges ficam se você não sabe nada sobre o voto de obediência). A árvore da vida, por outro lado, pode ser visto por qualquer um que se interrogue sobre Deus.

Os dois podem apelar a diferentes tipos de fiéis, buscadores e céticos. O fiel literalista pode gostar de Homens e deuses pelo seu enredo linear. O buscador sonhador pode preferir A árvore da vida pela sua abordagem às questões de final aberto. Ou, dado o poder desses dois filmes, talvez exatamente o oposto seja verdadeiro.

Esses são os únicos dois filmes do ano passado que me forçaram a rezar a partir deles. Ambos, penso eu, são obras-primas e irão – ou deverão – durar tanto quanto o cinema. Ou enquanto alguém fizer perguntas sobre Deus.

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