"Perguntar para desmascarar a elite", o método do diretor de Inside Job

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30 Maio 2011

Charles Ferguson, o ganhador do Oscar com Inside Job, o grande documentário sobre a crise sauda a irrupção do movimento 15-M e prepara um filme sobre a vida de Julian Assange.

Charles Ferguson nos ajudou a compreender melhor a crise financeira, apontou com o dedo quem foram os responsáveis. Mas enganam-se aqueles que pensam que Ferguson é de esquerda. É um milionário. Centrista. Liberal. Por mais que saude mobilizações como a de 15-M, o diretor de Inside Job não é nenhum revolucionário anticapitalista ou anti-sistema. É sim um homem que detesta aqueles que se enriquecem de forma ilícita.

Inside Job continua fazendo barulho. O boca a boca continua arrastando semana a semana expectadores aos cinemas. O documentário, didático, esclarecedor, incisivo, transforma a imagem que se tem de  Wall Street. Ferguson retrata o grupo de homens que arruinaram conscientemente uma série de empresas para poder engrossarem suas contas correntes privadas. "Jogando" Banco Imobiliário arrastaram com a sua ganância milhares de pessoas humildes para a pobreza e que sofrem até hoje. Os ladrões de colarinho branco não pagam por seus delitos na prisão, lembrou Ferguson ao receber o Oscar de melhor documentário no dia  27 de fevereiro de 2011 no teatro Kodak de Los Angeles: "Desculpem, devo começar dizendo que três anos depois da terrível crise financeira causada por uma grande fraude, não há sequer um executivo financeiro que tenha ido para a cadeia, e isso é ruim".

Fergurson concedeu entrevista ao El País, 29-05-2011. A tradução é do Cepat.

Você se considera um outsider?

- Obviamente sou um outsider para o mundo financeiro. Mas que tipo de outsider se pode ser quando se ganha um Oscar! (ri)

Sua trajetória da vida não é usual. Do Vale do Silício para Hollywood, dois mundos que se tocam, mas estão distantes. Charles H. Ferguson é um matemático que recebeu seu doutorado em ciência política, tornou-se um empresário de tecnologia e acabou descobrindo sua veia inciva de documentarista. Estudou matemática na Universidade de Berkeley (Califórnia). Recebeu seu Ph.D. em ciência política no prestigiado Massachusetts Institute of Technology – MIT. E se lançou numa carreira como consultor de várias companhias de tecnologia, entre outras, Apple, Motorola e Texas Instruments. "Foi uma fase extremamente interessante", conta . "Passei muito bem a maior parte do tempo. Dediquei grande parte de minha vida para isso, me pagaravam bem para pensar e sugerir . Gosto do setor da tecnologia, encontrei-me com gente muito inteligente, extremadamente individualista, muitas vezes algo excêntrico... acabei decidindo que não queria isso para toda a minha vida, mas não lamento ter feito isso, desfrutei. Encontrei muitos outsiders ambiciosos. É interessante ver como a ambição em muitos casos se orienta para o negócio privado, mas há outros empreendedores que fazem coisas pelo bem comum".

Esse é um dos motivos que lhe levaram a se interessar pela vida de Julian Assange. "Wiki Leaks é uma star urp, Assange é um empreendedor tecnológico, e seu projeto não visa o lucro. É um mundo que me resulta familiar e que aprecio explorar".

Depois de ganhar o Oscar de melhor documentário com Inside Job, Ferguson prepara agora para a cadeia de televisão norte-americana HBO o longa metragem (ficção, não se trata de um documentário) sobre a figura de Assange: "Mas não posso falar sobre isso, estou apenas começando".

O cineasta norteamericano disse que o líder do WikiLeaks lhe lembra de outros empreendedores no mundo da tecnologia: "Gente como Steve Jobs e Bill Gates tem em comum com Assange que todos abandonaram os estudos. É algo muito comum entre hackers e empreendedores tecnológicos. Começam seus estudos, sentem que estudar lhes parece algo chato e deixam".

Em 1994, depois de trabalhar como consultor de empresas de ponta, assim como para o Departamento de Defesa norteamericano e a Casa Branca, Ferguson decidiu fundar sua propria empresa, Vermeer Technologies. A aventura não podia ser mais exitosa: colocou em funcionamento a Front Page, uma ferramenta para desenvolver sítios web e dois anos depois em 1996 a vendeu para a Microsoft por mais de 133 milhões de euros. Bingo!

A partir desse momento, se dedicou à pesquisa acadêmica e a escrever livros. Andava Ferguson desnorteado lá pelo ano de 2004, quando numa noite, segundou relatou The New Yorker Times, jantou com um repórter da revista New Yorker que lhe contou o que realmente estava acontecendo no Afeganistão. Descreveu um panorama do que acontecia muito diferente do que o governo Bush vendia para a opinião pública. Em vez de narrar a história através dos soldados, apostou em entrevistar o altos cargos próximos daqueles que organizaram a invasão. Uma fórmula que de, certo modo, repetiria em Inside Job: perguntar para a elite para desmascará-la. O secretario de Defesa Donald Rumsfeld e o seu adjunto Paul D. Wolfowitz sairam "queimados" do No end no sight, documentário que pagou do seu bolso (dois milhões de dólares) e que levou o prêmio especial do jurado do Festival de Sundance.

Ato contínuo passou a focar o setor financeiro. E olhar de novo "para cima", tentar chegar até a elite. Ferguson submete os entrevistados a autênticos interrogatórios, põe o vilão contra as cordas; apenas que no seu caso, o vilão não é ficção, mas sim de carne e osso, vai levando-os às cordas e mais de um caí em contradições diante das câmaras.

Deve ter feito grandes amigos no setor financeiro...

- Bom, curiosa e supreendentemente há duas partes no mundo financeiro e uma delas gostou do filme. Por exemplo, Jamie Dimon do JP Morgan e William C. Dudley que foi o economista chefe da Federal Reserve.

Você ouviu falar das mobilizações que tem acontecido na Espanha. A plataforma que as convocou, Democracia Real Já o fez a partir do seguinte lema: "Não somos mercadorias em mãos de políticos e banqueiros".

- Ouvi sim falar deles. É complicado responder, não conheço bem a situação na Espanha. O que está claro é que a Europa Ocidental e em particular os países do sul estão tendo grandes problemas políticos e econômicos. De certo modo, tem sido explorados pelo sistema financeiro e por suas lideranças políticas.

Acredita que este movimento crescerá?

- Sem dúvida, oxalá venham mais movimentos como o da Espanha. No Estados Unidos se vê pouca reação. O desemprego está em torno de 10%, o número oficial é de cerca de 15%, é muito alto, além disso se tem o problema das hipotecas. E quantos protestos acontecem nos EUA? Muito pouco. E quando houve  de mudança política? Muito pouca. Estou surpreso e decepcionado. Eu não sei o que acontecerá com os protestos na Espanha e em outros países europeus, mas espero que saia algo de bom.

Do seu filme se deduz que o governo dos Estados Unidos está controlado por Wal Street e que continuamos nas mãos dos que provocaram a crise. Nessas condições, o que esperar?

- Infelizmente, são muitos os que estão inquietos, incluindo muita gente do setor financeiro, mas que não se manifesta publicamente. Algumas pessoas muito bem situadas e muito ricas do setor financeiro me dizem que em 10 anos poderá voltar acontecer o mesmo. Provavelmente não acontecerá "amanhã", mas voltará a acontecer.

E o que deveríamos fazer?

- Deveríamos confrontarmo-nos com os nossos dirigentes e pedir mudanças, sair às ruas. Gostaria de ver isso nos Estados Unidos.

Ferguson disse que seu filme não conseguiu tudo o que ele gostaria, mas teve algumas conseqüências diretas. O Governo anunciou que vai investigar os responsáveis pela crise, disse ele. As faculdades da economia americana, que o documentário acusa de conluio com o setor financeiro, estão tentando resolver os seus conflitos de interesse.

Sobre o caso do ex-presidente do Fundo Monetário Internacional, Dominique Strauss-Khan, um dos homens abordado pelo documentário, disse não acredita que tudo seja uma armadilha política. Sobre Bin Laden prefere não opinar.

O homem que sacudiu mentes com o seu filme, acha que o seu país entrou em uma perigosa deriva nos últimos 30 anos em direção a uma desigualdade crescente com o florescimento de fortunas desproporcionais conseguidas por meios desprovidos de qualquer ética. Dito isto, considera-se, basicamente, um centrista. "Eu acho que os mercados e as empresas podem desempenhar um papel produtivo e construtivo no mundo, vi isto no mundo da tecnologia".

O empreendedor que "viajou" do Vale do Silício para Hollywood termina a conversa com um argumento semelhante ao que partilhou com aqueles que o viram receber o Oscar. "Acredito que aqueles que fazem enormes quantidades de dinheiro com atividades fraudulentas que levam a uma enorme crise financeira e a recessão deveriam ser punido por isso".

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