Três pontos sobre o papado de Bento XVI

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17 Mai 2011

Três histórias do Vaticano que se desdobraram durante a semana passada, tomadas em conjunto, formam uma espécie de tríptico. São como três cenas de uma única obra de arte, ilustrando diferentes aspectos do mesmo assunto.

A análise é de John L. Allen Jr., publicada no sítio National Catholic Reporter, 13-05-2011. A tradução é de Moisés Sbardelotto e revisada pela IHU On-Line.

Essas histórias foram:

  • Uma reorganização radical na Cúria Romana;
  • Uma viagem papal a Veneza entre os dias 7 a 8 de maio;
  • Uma retrospectiva sobre João Paulo II em Spoleto no dia 7 de maio.

Vou esboçar esses painéis um por vez, porque cada um nos diz algo interessante sobre o papado de Bento XVI – e cada um, talvez, pode oferecer uma dica ou duas sobre o que pode estar além dele.

Uma radical reorganização curial

No dia 10 de maio, dois movimentos-chave de pessoal foram anunciados pelo Papa Bento XVI.

O arcebispo italiano Fernando Filoni foi nomeado prefeito da Congregação para a Evangelização dos Povos, tradicionalmente conhecida como "Propaganda Fide". Desde junho de 2007, Filoni era o "substituto" da Secretaria de Estado, que é a posição-chave do Vaticano para os assuntos internos da Igreja – algo como o Chefe de Gabinete da Casa Branca.

Enquanto isso, o arcebispo Giovanni Becciu, também italiano, foi nomeado para assumir como "substituto". Becciu é um veterano do serviço diplomático do Vaticano, mais recentemente em Angola, de 2001 a 2009, e depois em Cuba.

Duas observações: primeiro, por consenso, o papel de "substituto" é o trabalho mais complexo da Cúria Romana. Quem quer que o detenha deve manter uma gama impressionante de detalhes em sua memória, e o sucesso ou fracasso administrativo de um papado geralmente recai sobre seus ombros. Aqueles que o desempenharam muito bem ao longo dos anos foram uma espécie de lenda: Giovanni Battista Montini, por exemplo, foi o substituto sob Pio XII, de 1937 a 1953, e se tornou o Papa Paulo VI; Giovanni Benelli, que foi o substituto de Paulo VI de 1967 a 1977, foi amplamente entendido como o detentor do poder atrás do trono.

Dada a dificuldade que é dominar o papel, muitos observadores acharam curioso que Filoni seria enviado para outro cargo depois de menos de quatro anos, para ser substituído por alguém como Becciu que não tem nenhuma experiência anterior de trabalho no Vaticano. Aqueles que conhecem Becciu dizem que ele é um diplomata genial e eficaz, leal a seus superiores na Secretaria de Estado – mas não é bem a mesma coisa que a prontidão para assumir aquela que é sem dúvida a posição administrativa mais exigente da Igreja Católica.

(Pode ser, é claro, que Becciu crie a ocasião. Filoni também nunca havia trabalhado na Cúria, tendo servido nas embaixadas vaticanas ao redor do mundo desde 1982 – incluindo um memorável período como núncio no Iraque, quando foi o único embaixador a não deixar Bagdá durante a invasão liderada pelos EUA em abril de 2003.)

Quando a poeira baixar, o beneficiário mais óbvio desses movimentos parece ser o cardeal italiano Tarcisio Bertone, secretário de Estado, que não terá que se preocupar com o fato de o novo substituto formar um centro de poder rival. Comenta-se que Becciu posiciona-se bem fora dos normais blocos de poder curial. Em virtude de ser da Sardenha, ele também não faz parte das costumeiras redes italianas focadas na Lombardia ou na Emília-Romana, e assim por diante.

A questão, entretanto, é se a clareza sobre quem é o responsável pode ser obtida às custas de elevar alguém que vai precisar de muita formação no trabalho – compondo o que os críticos, pelo menos, têm visto às vezes como um déficit de governo sob Bertone.

Em segundo lugar, a indicação de Filoni para a Propaganda Fide, substituindo o cardeal indiano Ivan Dias, é o último capítulo do que se poderia chamar de "reitalianização" da Cúria Romana sob o Papa Bento XVI.

Hoje, quatro das nove congregações do Vaticano, um dos seus três tribunais, e seis dos seus 12 conselhos pontifícios são liderados por italianos. Na Secretaria de Estado, a principal autoridade, Bertone, e seu vice mais importante, agora Becciu, também são italianos.

Na verdade, Bento XVI tenta garantir que as principais culturas católicas estejam representadas em Roma. Quando ele recentemente precisou de um novo prefeito para a Congregação para os Religiosos, por exemplo, Bento XVI deixou claro que queria um brasileiro. Parte da razão de Bento ter se sentido confortável para enviar Filoni à Propaganda Fide, na verdade, é porque ele recentemente indicou o arcebispo Sávio Hon Tai-Fai, de Hong Kong, como seu número dois.

Ainda assim, é surpreendente que 13 dos 25 mais altos cargos de decisão no papado de Bento XVI sejam agora de italianos.

Essa preferência por italianos é, em alguns aspectos, a coisa mais natural do mundo. Bento XVI tende a atribuir altos cargos para pessoas que ele conhece e confia. Como ele disse ao jornalista Peter Seewald, em Luz do Mundo, ele quer um espírito de família entre seus principais assessores. Em virtude de ter servido em Roma durante um quarto de século, uma parcela desproporcional das pessoas que ele conhece e que compartilham dessa perspectiva são, inevitavelmente, italianos.

No caso da Propaganda Fide, também pode haver uma lógica especial para um italiano. Do ponto de vista administrativo, o departamento é algo monstruoso, que controla uma rede complexa de ativos financeiros e de propriedades imobiliárias destinadas a gerar apoio para as missões no exterior. Por essa razão, o prefeito da Propaganda Fide, ao longo dos séculos, tem sido conhecido como o "Papa vermelho".

Uma das tarefas imediatas de Filoni será levar o Propaganda Fide em conformidade com uma nova reforma financeira decretada pelo Papa Bento XVI, que entrou em vigor em abril. Um dos objetivos dessa reforma é evitar os escândalos financeiros que surgiram sob o ex-prefeito da Propaganda Fide, o cardeal Crescenzio Sepe, de Nápoles, que foi acusado de romper acordos estimados pelos políticos italianos sobre apartamentos em troca do desvio de milhões de euros em fundos públicos para o seu escritório, para o trabalho de restauração que nunca foi realmente realizado. O cálculo pode ter sido esse porque, como o truque financeiro a ser reformado reflete a forma italiana de fazer negócios, ele exige que um italiano coloque as coisas sob controle.

Seja qual for a lógica, parece justo dizer que, em um futuro próximo, as sensibilidades italianas parecerão muito grandes na definição das perspectivas e das prioridades do papado de Bento XVI. Se isso é bom ou mau, útil para o destino da Igreja ou um obstáculo, está além da análise – isso é o que é.

A viagem a Veneza

Para os venezianos, a visita do Papa Bento XVI entre os dias 7 e 8 de maio foi uma oportunidade para celebrar a rica história de sua Igreja, que moldou a cultura não só na região do Adriático, na Itália, mas também tão longe quanto a Caríntia, a Croácia e a Eslovênia.

Cerca de 300 mil pessoas foram para a missa de Bento XVI ao ar livre no Parque San Giuliano de Mestre, no domingo, onde ele aplaudiu os venezianos por "promover uma cultura de acolhimento e de partilha, capaz de construir pontes de diálogo entre povos e nações".

A viagem também foi, naturalmente, uma oportunidade para a habitual série de fotos do pontífice em uma gôndola, sem o qual a saída papal a Veneza seria completa.

Para o mundo exterior, no entanto, a viagem foi de interesse em grande parte por ser uma forma de exibir o cardeal de Veneza, de 69 anos, Angelo Scola. Em qualquer medida, Scola não é apenas uma parte importante da apresentação da Igreja, mas também alguém que pode desempenhar um papel ainda maior no futuro.

Há pelo menos três razões para manter um olho em Scola.

Primeiro, ele tem uma enorme influência em Bento XVI. Scola é um membro veterano da escola Communio de teologia católica cofundada pelo atual papa há décadas, e ele partilha a paixão de Bento XVI pelo falecido teólogo católico suíço Hans Urs von Balthasar. Scola também vem do movimento Comunhão e Libertação, que é o favorito de Bento XVI dentre os "novos movimentos" da Igreja Católica. Para ilustrar a força de Scola, basta lembrar que foi ele que sugeriu há alguns meses que Bento levasse em consideração a criação de um departamento vaticano dedicado à "Nova Evangelização", o que ele prontamente fez.

Em segundo lugar, os rumores hoje na Itália indicam Scola como um sério candidato a se tornar o próximo arcebispo de Milão, um trabalho que quase automaticamente faz do seu incumbente um ponto de referência para a Igreja universal. A influência global dos arcebispos de Milão remonta a São Carlos Borromeu, no século XVI, e também recentemente, como com o cardeal jesuíta Carlo Maria Martini, durante os anos 1980 e 1990.

Outro candidato muito citado para Milão é o cardeal Gianfranco Ravasi, atual presidente do Pontifício Conselho para a Cultura. Scola e Ravasi foram ordenados como padres de Milão e ambos já são considerados sérios candidatos a ser papa um dia. Caso algum deles assuma Milão, isso certamente poliria seu status como um favorito na disputa papal.

(Aliás, uma possibilidade para Milão também poderia ser o arcebispo italiano Luigi Ventura, 66 anos, que desde 2009 é o embaixador do papa na França. Entre 2001 e 2009, Ventura serviu como núncio papal no Canadá, onde a maioria dos observadores creditam a ele a remodelação da ala anglófona da Conferência dos Bispos do Canadá em uma direção mais "evangélica", embora evitando extremos ideológicos. Alguém como Ventura pode ser um compromisso atraente se os apoiadores de Scola e Ravasi se encontrarem em um impasse.)

Terceiro, mesmo que Scola não assuma Milão, seu atual cargo em Veneza já é uma grande plataforma em termos de liderança da Igreja. Como o próprio Bento XVI sublinhou no final de semana, durante o século XX três patriarcas de Veneza tornaram-se papas: João Paulo I, o Beato João XXIII e Pio X.

Sandri em Spoleto

Falando de antigos substitutos, o cardeal Leonardo Sandri, atual prefeito da Congregação para as Igrejas Orientais, assumiu esse exigente trabalho do ano 2000 a 2007. Entre outras coisas, foi Sandri que anunciou a morte de João Paulo II ao mundo da Praça de São Pedro, no dia 2 de abril de 2005. Notoriamente, Sandri disse: "Nós todos nos sentimos órfãos nesta noite".

Sandri, 67 anos, nasceu em Buenos Aires, Argentina, em uma família de imigrantes italianos da região de Trentino.

No sábado passado, Sandri foi o orador convidado em um evento na pequena cidade italiana de Spoleto, cerca de uma hora e meia a norte de Roma, organizado pelo veterano correspondente da Reuters Philip Pullella. Phil havia reunido uma impressionante exibição de fotos e de outras recordações do Papa João Paulo II, a partir do trabalho de fotógrafos da Reuters. O arcebispo de Spoleto, Renato Boccardo, se ofereceu para hospedar a exposição da Reuters no momento da beatificação de João Paulo II – em parte porque, no início de sua carreira, Boccardo atuou como o principal organizador das viagens de João Paulo.

Phil pediu que alguns colegas fizessem a viagem para falar no evento do dia 7 de maio, incluindo Rachel Donadio, do New York Times, Greg Burke, da Fox News, o vaticanista italiano Marco Politi e eu. O painel foi coordenado por Alessio Vinci, que outrora foi correspondente da CNN em Roma, mas que agora é uma grande estrela da TV italiana.

Sandri era a celebridade eclesiástica e, em sua fala, ele tentou explicar o que fez com que João Paulo II fosse como um ímã para a humanidade.

"O segredo da sua capacidade de captar a pessoa humana", disse Sandri, "está em sua capacidade de tocar o essencial do mistério humano, de estimular a irreprimível nostalgia de Deus que vive nas profundezas do espírito humano".

Depois do discurso preparado, ele passou a maior parte do tempo contando histórias das viagens de João Paulo. No final, como Pullella disse, "a única coisa que faltou hoje foi um avião".

Poucos dias antes, eu havia publicado um texto um tanto quanto enigmático, assinalando três papáveis, ou candidatos a ser o próximo papa, e Sandri estava na minha lista. Isso poderia ter tornado as coisas em Spoleto um pouco estranhas, já que as percepções de campo para o papado são um pouco como o terceiro trilho da política vaticana – ninguém jamais quer ser visto como sendo empurrado para o cargo. No evento, porém, Sandri foi gracioso, e todos tiveram o bom gosto de não mencionar esse texto.

Como qualquer um que esteja na liderança há muito tempo, Sandri enfrentou algumas críticas ao longo dos anos. Como Sandri foi um alto vice do cardeal Angelo Sodano, alguns pontos de interrogação sobre Sodano – tais como o seu papel no caso do Pe. Maciel Degollado, fundador dos Legionários de Cristo – sobraram para Sandri. Para outros, durante um breve período como núncio no México no ano 2000, Sandri desempenhou um papel na remoção do bispo Samuel Ruiz da diocese de Chiapas. Ruiz era um herói para o movimento da teologia da libertação, e alguns viram a transição em Chiapas como uma repressão ideologicamente motivada.

Dito isso, a frase habitual sobre Sandri é que ele é um líder "mãos seguras", um administrador imensamente talentoso, com quem se pode contar para fazer o trem andar no tempo. A sabedoria popular também diz, porém, que ele não é uma figura pública carismática, o tipo de pessoa que transforma o mundo com seu sorriso.

Nesse nível, a descoberta em Spoleto é que, quando ele quer, Sandri pode ser um sedutor.

Por exemplo, Sandri contou uma história durante o almoço sobre uma viagem que ele fez a Los Angeles no início de julho de 2009, para participar de um encontro organizado pela Igreja Maronita. Esse foi praticamente o mesmo período em que a morte de Michael Jackson foi a história dominante na mídia norte-americana. Então, quando Sandri apresentou o seu passaporte Vaticano no aeroporto de Los Angeles, um funcionário da alfândega dos EUA e do serviço de proteção às fronteiras perguntou-lhe, totalmente a sério: "Você faz parte da delegação do Vaticano para o funeral de Michael Jackson?". Rindo, Sandri disse que teve que explicar que esse tipo de coisa não existia.

Qualquer pessoa inclinada a ver Sandri como uma pessoa um pouco "cinzenta", por isso, pode simplesmente não ter se encontrado com ele no momento certo.