Comte-Sponville um místico ateu no século XXI

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13 Mai 2011

Um místico ateu? Parece uma contradição. A mística, segundo o Diccionario de la Real Academia Española, é "a experiência do divino". Nisto segue São Boaventura, o autor clássico sobre a mística, que define a mística como "cognitio experimentalis Dei", conhecimento experiencial de Deus.

A reportagem é de Gonzalo Haya e está publicada no sítio Atrio, 11-05-2011. A tradução é do Cepat.

Conhecimento experiencial, contato direto, sem mediação de discursos nem conceitos, como se conhece o frio ou o calor. Experiência em si mesma inexpressável, embora tratem de comunicá-la mediante uma linguagem simbólica, sugestiva, aproximativa.

André Comte-Sponville, em seu livro O espírito do ateísmo. Introdução a uma espiritualidade sem Deus (Martins Fontes, 2009), se declara ateu, mas desenvolve uma espiritualidade laica, sem Deus, sem dogmas, sem Igreja, sem fanatismo nem niilismo.

Neste livro descreve uma experiência em que podemos apreciar todas as características que os autores atribuem a uma experiência mística: passiva (sobrevém sem pretendê-la), breve (porque sua intensidade não poderia ser suportada durante mais tempo), ultrapassa o tempo e a fragmentação ou a multiplicidade do Ser, sem mediação de conceitos, inexpressável a não ser com termos emocionais (exclamações) ou contradições ("a linguagem do desdizer-se").

Julguemos nós mesmos lendo, não sua experiência, que é intransferível, mas a descrição que ele mesmo faz dessa experiência:

* * *

A experiência mística de um ateu

Nessa noite, depois de jantar, saí para passear com alguns amigos pelo bosque que gostávamos. Estava escuro. Caminhávamos. Pouco a pouco, as risadas foram parando; as palavras se tornaram mais raras. Ficava a amizade, a confiança, a presença compartilhada, a doçura dessa noite e de tudo... Não pensava em nada. Olhava. Escutava. Rodeado pela escuridão. A assombrosa luminosidade do céu. O silêncio ruidoso do bosque; alguns rangidos de ramos, alguns gritos de animais, o barulho mais surdo de nossos passos... Tudo isso fazia com que o silêncio fosse mais audível.

E logo... O quê? Nada! Quer dizer, tudo! Nenhum discurso. Nenhum sentido. Nenhuma interrogação. Só uma surpresa. Só uma evidência. Só uma felicidade que parecia infinita. Só uma paz que parecia eterna. O céu estrelado sobre a minha cabeça, imenso, insondável, luminoso, e nenhuma outra coisa em mim senão esse céu, do qual eu fazia parte, nenhuma outra coisa em mim senão esse silêncio, essa luz, como uma vibração feliz, como uma alegria sem sujeito, sem objeto (sem outro objeto que tudo, sem outro objeto que ela mesma), nenhuma outra coisa em mim, na noite escura, que a presença deslumbrante de tudo! Paz. Uma imensa paz. Simplicidade. Serenidade. Alegria. Estas duas últimas palavras poderiam parecer contraditórias, mas não se trata de palavras: era uma experiência, um silêncio, uma harmonia. Formava como que um caldeirão, mas eterno, sobre um acorde perfeitamente afinado, que era o mundo. Me sentia bem. Surpreendentemente bem! Tão bem que não sentia a necessidade de dizer isso, nem sequer o desejo de que não terminasse. Há não havia palavras, nem carência, nem espera: puro presente da presença. Apenas posso dizer que passeara: só havia o passeio, o bosque, as estrelas, nosso grupo de amigos... Já não havia ego, nem separação, nem representação: unicamente a presença silenciosa de tudo. Já não havia juízos de valor: somente o real. Já não havia tempo: somente o presente. Já não havia o nada: somente o ser. Já não havia insatisfação, nem ódio, nem medo, nem cólera, nem angústia: unicamente alegria e paz. Já não havia comédia, nem ilusões, nem mentiras: somente a verdade que me contém e aquela que não contenho.

Tudo isso durou apenas alguns segundos. Sentia-me simultaneamente agitado e reconciliado, agitado e mais tranquilo que nunca. Desapego. Liberdade. Necessidade. O universo devolvido finalmente a si mesmo. Finito? Infinito? Não colocava a pergunta. Já não havia perguntas. Como se poderia dar respostas? Havia apenas a evidência. Havia apenas o silêncio. Havia apenas a verdade, mas sem frases. Só o mundo, mas sem significação nem meta. Só a imanência, mas sem contrário. Só o real, mas sem outro. Nem fé. Nem esperança. Nem promessa. Só havia tudo, e a beleza de tudo, e a verdade de tudo. Isso era suficiente. Isso era muito mais que suficiente! Aceitação, mas alegre. Quietude, mas tônica (sim, provocava uma inesgotável coragem). Repouso, mas sem fadiga. A morte? Não era nada. A vida? Era só palpitação do ser em mim. A salvação? Era só uma palavra, ou era isso mesmo. Perfeição. Plenitude. Beatitude. Que gozo! Que felicidade! Que intensidade! Disse a mim mesmo: "É isto que Espinosa chama de "eternidade’...". E isto, vocês imaginam, a fez cessar, ou melhor, me expulsou dela. Voltavam as palavras e o pensamento, e o ego, e a separação... Não importava, o universo sempre estava aí, e eu com ele, e eu dentro...

* * *

Tem as características de uma experiência mística, mas seria uma experiência de Deus? Não seria uma experiência estética?

A beleza é um dos aspectos – dos atributos, na linguagem escolástica – do Ser, do Todo, de Deus. Talvez a experiência estética já seja um contato com Deus, não uma compenetração com o Amor, mas um contato mais ou menos periférico com o Ser infinito. Até que ponto muitos textos da mística alemã vão além de um contato intelectual com o Ser?

Me parece que Comte-Sponville teve um contato imediato com o Todo, com a Presença, com a Realidade mais genuína e originária, sem fragmentação temporal ou conceitual. (Não vamos julgar até que ponto esse contato o transformou, embora o título do seu livro já nos mostra seu desejo de desenvolver uma espiritualidade.) A essa realidade as religiões denominam Deus, Espírito criador, Transcendente e Imanente; mas o sobrecarregaram de explicações conceituais (dogmas), de preceitos e de ritos, até o ponto de torná-lo opressivo para muitos.

É Comte-Sponville ateu? Nega o deus que a cultura e a religião cristã pretenderam lhe inculcar, mas nega o verdadeiro Deus? Talvez sejamos nós que, sem repetir a experiência mística de Jesus, tenhamos caído em uma idolatria, por adorar a um deus exterior, onipotente, à medida de nossa necessidade de repressão social.

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