Quando o ateu se torna "líquido"

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13 Mai 2011

Com o recente La prima generazione incredula [A primeira geração incrédula] (Ed. Rubbettino), ele havia descrito com argumentos convincentes o mundo juvenil atual, caracterizada por uma marcada "incredulidade". De acordo com o padre Armando Matteo, professor da Universidade Urbaniana de Roma e assistente nacional da Federação Universitária Católica Italiana - FUCI, à dúvida do não crente, a melhor resposta continua sendo a liberdade de Cristo, capaz de surpreender até mesmo os ateus.

A reportagem é de Lorenzo Fazzini, publicada no jornal Avvenire, dos bispos italianos, 10-05-2011. A tradução é de Moisés Sbardelotto. A revisão do texto é da IHU On-line.

Ler Nel nome del Dio sconosciuto. La provocazione di Gesù a credenti e non credenti [No nome do Deus desconhecido. A provocação de Jesus a crentes e não crentes] (primeiro volume da nova coleção Il Cortile dei Gentili, das Edições Messaggero Padova, 110 páginas) é um exemplo disso.

Armando Matteo é autor do livro Presenza Infranta. Il disagio postmoderno del cristianesimo. Assisi: Citadella Editrice, 2008.

Eis a entrevista.

Pe. Matteo, o que (e com quem) o senhor aprendeu sobre a fé dos não crentes?

Já há 10 anos atrás, para o meu livro Della fede dei laici [Da fé dos leigos], eu havia encontrado alguns não crentes capazes de uma forte atenção à fé e capazes de aproveitar as grandes riquezas da experiência de fé. Por exemplo, Salvatore Natoli, que há muito tempo reconhece a força autêntica do gesto de amor, síntese do cristianismo. Gianni Vattimo também não pode não chamar a atenção (se você conseguir superar a cortina midiática que o envolveu), visto que defende, como nenhuma outra construção humana, que o cristianismo pode oferecer razões de esperança. Vincenzo Vitiello, Massimo Cacciari, Umberto Galimberti e outros reconhecem ao Cristianismo a possibilidade de entrar na tragicidade humana e de iluminá-la de maneira inédita. Principalmente no tratamento da liberdade: nenhum credo tem presente o drama do homem como o cristão.

Mas, hoje, o ateísmo assumiu as cores da rejeição de uma racionalidade do próprio cristianismo...

Sim, ao lado dos nomes citados antes, recentemente, há vozes que zombam da fé cristã em nome de um ateísmo mais corrosivo e que o cardeal Ravasi chamou de "líquido". Esse é um aliado mais difícil para quem crê. Basta citar, entre nós, Manlio Sgalambro ou Emanuele Severino, Michel Onfray na França. Ainda: Herbert Schnädelbach, na Alemanha, em 2000, autor de um célebre artigo no Die Welt, em que afirmava que o único motivo de bem-estar por parte do cristianismo... seria o seu desaparecimento. Mas devemos nos deixar interrogar até mesmo por essas vozes: o que faltou para que o nosso modo de tornar Jesus presente tenha sido recebido de maneira exatamente contrária? Por que, se Jesus Cristo é a resposta mais alta para a arte de viver, a sua mensagem é percebida hoje como o exato oposto?

Que resposta o senhor se deu?

A meu ver, não estivemos à altura do Concílio Vaticano II. Em dois aspectos: a liturgia e a Escritura. Pensamos por muito tempo que "celebrantes e participantes se nasce". E, ao contrário, dividimos os crentes entre "praticantes" e "não praticantes": este último é um evidente oxímoro. Mas essa distinção cristalizou o status quo e abrandou a ação de evangelização. Além disso, se é verdade – como apontado por pesquisas recentes – que 86% dos católicos italianos nunca abriram uma Bíblia em sua vida, nesse ponto estamos no ano zero! Na Verbum Domini, o Papa nos convida à "familiaridade com a Bíblia". Por isso, estamos com um grande atraso para a construção de uma mentalidade verdadeiramente bíblica.

Em seu texto sobre o Dio sconosciuto [Deus desconhecido] (em que o senhor retoma uma expressão do Papa Bento XVI), o senhor enfatiza que "a verdade não é um butim". Como conciliar essa declaração com a "pretensão" universal de Cristo?

Sobretudo, é preciso reconhecer que, no registro da fé, a verdade se oferece à liberdade. Além disso, é preciso salientar que a verdade tem um caráter analógico e multidimensional. A verdade não é a mesma coisa em nível filosófico ou científico: há diversos modos de entrar em contato com ela. A fé precisa da filosofia, da literatura, da ciência e da arte. O homem de fé não esgota a inteireza da vida humana: outras questões permanecem em aberto, a serem enfrentadas com abordagens diferentes. À fé, cabe a resposta escatológica, em que o limite e o infinito se encontram, o que na teologia é definido como "o já e o ainda não". Pensar sobre o caráter analógico da fé permite que se entre em diálogo com o outro, e não fingir que se dialoga.

O senhor conhece bem o ambiente universitário: ele está aberto ou é refratário a um discurso sobre Deus?

Seguramente, entre os estudantes surge uma vontade muito grande de diálogo com aqueles que têm alguma coisa a sério para dizer sobre a existência. Os jovens de hoje não são uma geração pragmática ou ideologicamente orientada. Mas, com eles, não se pode trapacear, porque eles têm um faro extraordinário para captar quem não é capaz de argumentar verdadeiramente sobre suas próprias posições. No mundo acadêmico, no entanto, ainda há cotas de resistência ideológica, mas isso não exclui que haja uma geração de professores abertos ao discurso religioso. Em particular, as pesquisas sobre a fragilidade humana, a invasão da técnica, a globalização, o prolongamento da vida constituem um campo em que a palavra de Jesus pode ressoar de modo profundo.

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