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29 Março 2011

"O perfil múltiplo de um ateísmo de contornos fluidos, embora agressivos, tem o seu paralelo antitético na religiosidade integralista e apologética, ou na bricolagem da fé à la New Age ou no sincretismo que recompõe o Credo com base em uma espécie de menu à la carte."

A opinião é do cardeal Gianfranco Ravasi, presidente do Pontifício Conselho para a Cultura do Vaticano, em artigo publicado no jornal Il Sole 24 Ore, 27-03-2011. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Eis o texto.

Em viagem à Irlanda do Norte, Giulio Giorello, tendo chegado no fim do dia a uma cidade do interior, pediu hospedagem para a noite a uma família. Logo surgiu a pergunta: "Católico ou protestante?". "Para evitar incômodos, respondi: Ateu!". Um instante de silêncio perplexo, depois, uma outra pergunta: "Sim, mas ateu católico ou ateu protestante?".

Esse divertido mas significativo apólogo que o filósofo milanês conta na abertura do seu livro Senza Dio [Sem Deus], publicado há alguns meses pela editora Longanesi e já resenhado nestas páginas por Remo Bodei, me faz vir à mente duas declarações de dois filósofos de percursos diferentes.

De um lado, o nosso Pantaleo Carabellese, o arauto do "ontologismo crítico", falecido em 1948, que afirmava: "A existência de Deus é um problema que, de um lado, não se demonstra, mas, de outro, não se suprime". De outro lado, ao contrário, o filósofo francês contemporâneo Jean-Luc Marion, com o qual falei sobre questões semelhantes, que confessa: "O que me admira não é a nossa dificuldade de falar de Deus, mas a nossa dificuldade de calar sobre ele".

Longe de querer enfrentar um tema tão torturante, que vê desde sempre a humanidade inclinada em duas frentes, parece-me sugestivo agora dar um olhada na "armada" que hasteia agora a bandeira oposta à minha, justamente para confirmar as asserções recém citadas.

De fato, o que frequentemente fica claro é a paixão ou o entusiasmo com que muitos ateus lutam pela sua tese negacionista. Pierre Reverdy tinha razão, quando, no seu En vrac (1956), observava que "há ateus de uma aspereza feroz que se interessam por Deus muito mais do que certos crentes frívolos e superficiais".

O próprio fato de lhes conferir a etiqueta nua e pura de "ateus" os coloca quase em embaraço, sem falar depois do já obsoleto e até detestado "descrente", que é considerado quase um insulto, talvez por causa da sua repreensibilidade semântica. Eles, neste caso, recorrem a termos como "agnóstico" ou "racionalista", também eles repreensíveis, mas o fazem frequentemente com hesitação.

Com muita simplificação, distinguiria duas tipologias de não crentes. A primeira é a alta e sofisticada, no estilo de um Marx ou de um Nietzsche, para nos entendermos. "Não ouvem o sino? De joelhos! Levam os últimos sacramentos a um Deus que morre", proclamava Heine no século XIX. Esse era um ateísmo sistemático, capaz de elaborar um verdadeiro sistema de interpretação do ser e do existir alternativo com relação ao edificado durante séculos pelas religiões, sobretudo pelo imenso rio teológico-filosófico do cristianismo. Podia ser um ateísmo "prometeico" de desafio, ou uma proposta mais horizontal de ética sem Deus.

Para chegar mais perto dos nossos dias, evocaria uma outra modalidade dessa atitude, a que recorreu a um outro vocábulo – também repreensível – para se autodefinir, "ceticismo". Penso naquelas curiosas poucas páginas que a editora Adelphi recém traduziu (com uma veemente e um pouco enfática premissa de um outro ateu sui generis como Henry Miller) de John Cowper Powys, intituladas justamente La Religione di uno Scettico [A religião de um cético] (84 páginas). Filho de um vigário anglicano, prolífico autor de ensaios, falecido em 1963 aos 91 anos, ele se faz arauto de uma religiosidade em que o ceticismo é substância, aspirando assim a uma espécie de oxímoro que tem na figura de Cristo a sua hipóstase.

A mesma aparente coincidentia oppositorum aparece em um outro livrinho de título inequívoco, Lo Scetticismo come Inizio della Religione [O ceticismo como início da religião] (Ed. Ets, 74 páginas), do filósofo canadense John Schellenberg, convencido exatamente de que o próprio ceticismo – que, por si só, é o tradicional antípoda com relação à firmeza do crer – é a fonte de uma nova religiosidade aberta à imaginação e à criatividade, pronta a se modelar para preencher os vazios deixados pela secularização, sobretudo na ética.

Mas, como dizíamos, diante desses ateísmos de confronto áspero e cerrado, ou dialogante com a religião, distende-se desde sempre a chaga da indiferença, do agnosticismo em sentido estrito, da ironia sarcástica. Esse é, muitas vezes, mais um fenômeno sociológico do que ideológico, até porque, não raramente, nele o "mythos" prevalece sobre o "logos", o panfleto substitui o ensaio, a leitura fundamentalística domina sobre a análise crítica, o confronto zombador leva a melhor sobre a argumentação pacata.

Assim, por exemplo, se um embora interessante diálogo entre Joseph Ratzinger e Paolo Flores d`Arcais é indicado por este último no texto publicado como La Sfida Oscurantista di Joseph Ratzinger [O desafio obscurantista de JR] (Ed. Ponte alle Grazie - Salani, 152 páginas), já fica clara a hermenêutica de fundo que subjaz ao julgamento sobre a teologia.

Não podemos agora delinear o perfil múltiplo desse ateísmo de contornos fluidos, embora agressivos, e que tem um dos seus vários arquétipos no Diálogo entre um Padre e um Moribundo, do Marquês de Sade (1782). Queremos só lembrar que ele tem o seu paralelo antitético na religiosidade integralista e apologética, ou na bricolagem da fé à la New Age ou no sincretismo que recompõe o Credo com base em uma espécie de menu à la carte.

Certo é que, se para o primeiro ateísmo "alto" o confronto ocorre em nível de debate filosófico e teológico sistemático (penso no livro La Fede dei Demoni [A fé dos demônios], do filósofo francês Fabrice Hadjadj, Ed. Marietti 1820, 252 páginas), com a segunda tipologia, tem-se, ao contrário, necessariamente, um procedimento mais direto e imediato, "televisivo" e até "publicitário". Não há necessidade de citar os vários e conhecidíssimos textos de Odifreddi, Onfray, Hitchens, Dawkins para uma demonstração.

Análoga é uma certa reação dos crentes que se colocam nesse nível de interlocução. Entre os tantos escritos, merece uma nota de destaque o lapidar Dio non esiste! [Deus não existe] – que obviamente defende o contrário – proposto por um importante teólogo alemão, Gerhard Lohfink (Ed. San Paolo, 174 páginas), paralelo àquele Senza Dio de Giorello, do qual partimos e que queremos sugerir para um confronto dialético semelhante.

 

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