Falar com os ateus: um desafio

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22 Março 2011

"O diálogo com o ateísmo foi sistematicamente rejeitado pela Igreja hierárquica. Trata-se de uma verdade indiscutível, da qual, infelizmente, eu posso dar testemunho direto."

A opinião é do filósofo italiano Paolo Flores d’Arcais, até o ano passado professor da Universidade de Roma La Sapienza e hoje diretor da revista MicroMega, que reúne intelectuais da esquerda italiana. O artigo foi publicado no jornal Il Fatto Quotidiano, 22-03-2011. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Eis o texto.

Estimado cardeal Ravasi, li com crescente interesse a entrevista – empenhada e principalmente empenhativa – que o senhor concedeu a Marco Politi para este jornal. As suas palavras me tocaram, dentre outras coisas, por um tom apaixonado de autenticidade que nem sempre se percebe em outros homens da Igreja do seu altíssimo nível hierárquico.

O senhor anuncia como objetivo das suas iniciativas "o diálogo" com os ateus, portanto um falar-se-entre que não evite a controvérsia, ao contrário, visto que o entende como "o confronto entre dois Logoi, entre visões do mundo que se medem nas questões altas da existência". E para que não haja dúvidas de que tais Logoi devem ser também os mais radicalmente conflitantes com a fé católica, exemplifica com os ateísmos de marca nietzschiana, marxista, científica: enfim, todo o vade retro do moderno relativismo (condenado pelos últimos dois Pontífices como incubador de niilismo). Ateísmos radicais que, acrescenta, "eu escuto, respeito, avalio".

Há mais. Marco Politi, muito oportunamente, insiste: "Superando a atitude clássica segundo a qual o não crente é um `pato manco`?". Bela metáfora, com efeito, para estigmatizar a atitude paternalista que leva a Igreja ainda muito frequentemente a escolher como interlocutores só aqueles "gentios" ("Átrio dos Gentios" se intitula a sua iniciativa) que parecem sofrer a condição da falta de fé como uma amputação ontológica ou essencial. "Ateus" sim, mas "em busca de Deus".

Parece justamente que, ao contrário, o senhor, desta vez, quer promover o confronto com toda a constelação do ateísmo "hard": "Não interessam encontros ou desencontros genéricos, nem entrar em acordo sobre uma vaga espiritualidade", porque "o que conta é colocar em confronto visões de vida alternativas", deixando de "ser evasivos" com relação às "profundas questões que nos são dirigidas pelo mundo laico".

Aprecio toto corde. Além disso, dirijo há um quarto de século uma revista de adamantina laicidade (tanto que muitas vezes é tachada de "laicismo" justamente porque não é laicidade "respeitosa", de patos mancos), que se tornou um ponto de honra do confronto sem diplomatismos com homens de fé, também da Igreja hierárquica. Praticando-o.

Espero, por isso, sinceramente, que às suas palavras sigam-se os fatos. Não só em Paris, também na Itália. Nos últimos anos, a atitude foi, porém, de sinal oposto. O diálogo com o ateísmo foi sistematicamente rejeitado pela Igreja hierárquica e até pelo senhor, pessoalmente. Trata-se de uma verdade indiscutível, da qual, infelizmente, eu posso dar testemunho direto.

Quando, no ano do jubileu, a MicroMega publicou um almanaque de filosofia dedicado a Deus, com ensaios em sua grande maioria de inspiração ateia, o então prefeito da Congregação para a Doutrina da Fé, cardeal Ratzinger, não só aceitou colaborar com o seu texto, mas também apresentar o número em uma controvérsia pública comigo no teatro Quirino de Roma, lotado ao extremo, com 2 mil pessoas que acompanharam o debate na rua, por meio de alto-falantes. Se olho para os dois ou três anos posteriores, posso constatar que os cardeais Schönborn, Tettamanzi, Piovanelli, Caffarra, Herranz aceitaram controvérsias públicas, e, enfim, em 2007, junto à Scuola Normale Superiore di Pisa, o patriarca de Veneza, Angelo Scola.

Desde então, a atitude da Igreja hierárquica se inverteu. A MicroMega continuou na vontade de um confronto franco, "pensando, em última instância, sobre algumas questões capitais", segundo ao que o senhor diz aspirar. Mas nos encontramos diante do muro de uma rejeição sistemática. Que fique claro, um Príncipe da Igreja tem todo o direito de recusar o confronto se não considera o interlocutor à altura, sem com isso desmentir a sua vontade de diálogo. Aspira só a ateus mais importantes. Mas, vistos os precedentes por demais lisonjeiros com relação a purpurados que aceitaram a discussão com a MicroMega e comigo, certamente não é esse o motivo da recusa.

Sobre o qual não tento nem avançar hipóteses. Interessa-me o futuro. Gostaria que o senhor cumprisse a sua palavra, na sua vontade de "diálogo", e gostaria de organizar com o senhor ocasiões de confronto justamente com o método e sobre os temas que o senhor ilustra na entrevista. Discutir entre ateus-ateus e Igreja hierárquica para "buscar, sem pretender saber a priori", sobre questões que vão do "sentido da existência" ao "além-vida, a morte, a categoria da verdade" ou "sobre o que significa Natureza e lei natural", visto que, daí, nascem as questões eticamente sensíveis que sempre mais enchem a agenda política não só italiana.

Trata-se, além disso, de temas previstos no confronto com o cardeal Ratzinger, que não foi possível enfrentar por falta de tempo (havia também aquele sobre o Jesus histórico, que certamente interessará ao senhor, biblista de fama). Convido-lhe, portanto, às "Jornadas da Laicidade", que ocorrerão em Reggio Emilia entre os dias 15 e 17 de abril, às quais se recusaram a participar os 15 cardeais que convidamos e nas quais o senhor poderá discutir com ateus não "patos mancos" como come Savater, Hack, Odifreddi, Giorello, Pievani, Luzzatto e, bom último, o subscrito.

Se, depois, a sua agenda não lhe permitir acolher este convite, proponho-lhe organizar juntos, o senhor e eu, uma série de confrontos nos tempos e lugares que o senhor julgar oportunos. Devo, porém, dizer-lhe, com toda a franqueza, que não consigo libertar-me da sensação – nos últimos anos empiricamente consolidada – de que o "diálogo" que o senhor teoriza quer, ao contrário, evitar o próprio confronto com o ateísmo italiano mais consequente.

Com a esperança de que os fatos me desmintam e que o senhor possa aceitar a minha proposta, envio-lhe, enquanto isso, os meus sinceros desejos de bom trabalho.

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