Um liberal que gosta do beato João Paulo II

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27 Abril 2011

"Os santos não foram perfeitos. Eles foram humanos. você não tem que concordar com tudo o que um santo disse ou escreveu para admirá-lo/la. A meu ver, qualquer pessoa que visita a cela da prisão do seu suposto assassino e perdoa esse homem é um santo".

A opinião é do jesuíta norte-americano James Martin, editor de cultura da revista dos jesuítas dos EUA, America. Martin é autor de best-selllers dos EUA como My Life with the Saints [Minha vida com os santos] (2006) e The Jesuit Guide to (Almost) Everything: A Spirituality for Real Life [O guia jesuíta para (quase) tudo: Uma espiritualidade para a vida real] (2010).

O artigo foi publicado no blog In All Things, do sítio da revista America, 26-04-2011. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Eis o texto.

Eu sou um católico "liberal". Também sou um admirador do Beato João Paulo II.

Essas duas coisas podem parecer contraditórias, especialmente com a crescente consternação, em alguns círculos, com relação à perceptível "pressa" da sua beatificação. Em suma: a Congregação para as Causas dos Santos do Vaticano renunciou ao período de espera normal de cinco anos antes de começar o seu processo ou "causa". Embora isso não seja sem precedentes (a causa da Madre Teresa também foi acelerada), o espaço entre a sua morte e a sua beatificação certamente o é.

Houve também preocupações legítimas sobre se ele merece ser homenageado em função daquilo que são vistos como os seus erros como papa. Além das queixas vociferantes sobre o tratamento dado por ele às crises dos abusos sexuais em todo o mundo, muitos se opuseram ao seu antigo apoio ao fundador agora desacreditado da Legião de Cristo, o padre Marcial Maciel, que mais tarde foi revelado como um dos piores de todos padres abusadores. (Defensores respondem que João Paulo fez o que pôde com relação ao abuso; que ele era idoso e doente; e que ele foi enganado por Maciel).

Quanto à pressa, e como alguém que tem escrito sobre os santos, eu sou a favor de que cada candidato seja sujeito ao mesmo cuidadoso processo de análise. Por um lado, é injusto favorecer alguém simplesmente porque ele ou ela é mais conhecido/a. Por outro lado, pode dar a impressão de que tudo está sendo feito da forma mais rápida (especialmente quando alguns dos que supervisionam o processo foram colocados em seus cargos pelo próprio candidato), possivelmente manchando a reputação do santo para as gerações futuras.

Por outro lado, o Vaticano é muito claro ao responder à vontade do povo, milhões dos quais são devotos do Papa João Paulo II ("Santo subito!", gritavam eles em seu funeral). Como a Madre Teresa, ele é objeto do que os teólogos chamam de "devoção popular". Ironicamente, algumas das mesmas pessoas preocupadas com a pressa da canonização são aquelas que também acreditam que o Vaticano precisa "ouvir" mais cuidado e mais frequentemente a voz do "Povo de Deus". Então: eles estão ouvindo.

Mais importante ainda, um milagre atribuído à intercessão do falecido Papa (isto é, às suas orações do seu posto no céu a Deus) foi autenticado pelo Vaticano. Assim, Deus parece estar em favor da pressa. Isso deveria servir como trunfo para a maioria das preocupações das pessoas.

Quanto a divergências sobre o seu papado, eu mesmo tinha minhas diferenças com o Papa João Paulo II, tecnicamente meu ex-chefe. (Quem não discorda do chefe de vez em quando?). Ele nem sempre foi o maior fã da Companhia de Jesus (também conhecida como os Jesuítas, a minha ordem religiosa), embora algumas de suas suspeitas parecem ter se originado junto a alguns de seus assessores.

Quando, em um movimento sem precedentes em 1981, ele repentinamente removeu Pedro Arrupe, o amado superior-geral dos jesuítas, do seu posto, um grande número de jesuítas ficaram desanimados e irritados. João Paulo, suspeito com o trabalho dos jesuítas na "teologia da libertação" (uma abordagem que enfatiza a libertação dos pobres do sofrimento, como Jesus tinha), aparentemente foi informado por alguns conselheiros de que os jesuítas seriam desobedientes após a sua demissão pública de Arrupe . Nós não o fomos. Ao longo dos anos, várias fontes me disseram que João Paulo ficou surpreso com a nossa fidelidade – e satisfeito. Ele mudou sua opinião sobre os jesuítas. Anos depois, ele visitou o adoentado Arrupe antes da morte do jesuíta. (Aliás, eu acredito que o Padre Arrupe foi um santo).

No entanto, eu sou um admirador de João Paulo, uma pessoa a quem o filósofo Hegel sem dúvida chamaria de uma figura "histórico-mundial". Como pode ser isso? Para explicá-lo, deixe-me indicar duas coisas que têm estado largamente ausentes de alguns dos comentários críticos.

Primeiro, os santos não foram perfeitos. Eles foram humanos. A santidade sempre tem o seu lar na humanidade. E os santos, profundamente conscientes de suas próprias faltas, seriam os primeiros a admitir isso. A santidade não significa perfeição. A noção de que um santo comete erros – até mesmo grandes – parece não ter ocorrido a poucas pessoas. Errar, afinal, é humano. Seus defensores podem admitir que João Paulo foi humano e cometeu erros – até mesmo grandes? E seus críticos podes perdoá-lo pelos erros que fez durante o seu tempo na Terra?

Segundo, e talvez de forma mais importante, você não tem que concordar com tudo o que um santo disse ou escreveu para admirá-lo/la. Um dos meus santos preferidos é Thomas More, mártir inglês do século XVI, que a maioria das pessoas conhecem da peça (e do filme) O Homem que Não Vendeu sua Alma. Mas eu não concordo – para dizer o mínimo – com o seu apoio à queima indiscriminada de "hereges" (ou seja, de não cristãos). Nisso, nós nos dividimos.

Uma autoridade do Vaticano afirmou recentemente que o Papa Bento XVI está beatificando seu antecessor por quem ele era como pessoa, não pelo que ele fez durante o seu papado. Em suma, ele não está sendo nomeado "beato" por suas decisões como Papa. Isso faz sentido. A beatificação (e, posteriormente, a canonização) não significa que tudo o que ele fez como Papa esteja agora de algum modo além da crítica. (Nada mais do que tudo o que São Thomas More fez está além da crítica: será que devemos acreditar que os hereges devem ser queimados porque More foi canonizado?). Por outro lado, essa linha de pensamento é um pouco mistificadora: porque você não pode separar as ações de uma pessoa da sua vida pessoal.

Mas a ênfase sobre a vida pessoal é importante. A Igreja beatifica um cristão, não um administrador. Sob essa luz, João Paulo II claramente merece ser um beato e, posteriormente, um santo. Karol Wojtyla, certamente levou uma vida de "santidade heróica", como diz a frase tradicional. Ele foi fiel a Deus em situações extremas (nazismo, comunismo, consumismo). Ele foi um "evangelista" incansável, isto é, um promotor do Evangelho, mesmo em face de uma enfermidade grave. E ele trabalhou ardentemente pelos pobres do mundo, como Jesus pediu que seus seguidores fizessem.

O novo beato era orante, destemido e zeloso. Foi, em suma, santo. E, a meu ver, qualquer pessoa que visita a cela da prisão do seu suposto assassino e perdoa esse homem é um santo.

Assim, depois de sua beatificação, eu vou rezar para o falecido Papa por sua intercessão. Do seu lugar no céu, ele vai entender se eu nem sempre concordei com ele sobre cada questão ou decisão. Ele não vai estar preocupado com isso. De fato, na companhia de Jesus, de Maria e dos santos, essa será a última coisa que Karol Wojtyla vai estar pensando.

Beato João Paulo II, rogai por mim.

 

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