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09 Fevereiro 2011

"Bem-vindo (Arrupe) por colocar-se do lado dos empobrecidos e injustiçados, viver a compaixão em um mundo sem misericórdia, animar Sobrino baixando crucificados de suas cruzes, construir a paz e passar por apuros por promover a libertação e a justiça", escreve o teólogo jesuíta Juan Masiá, em artigo publicado no sítio Atrio, 05-02-2011. A tradução é do Cepat.

Eis o artigo.

Em 05 de fevereiro, comemora-se o 20º aniversário da entrada de Pedro Arrupe no cortejo dos santos, como dizia o Pe. Llanos. Em vez de um Kyrie gregoriano, me apetece mais entoar com Armstrong um gospel song de clarinete: "Oh, when the saints, go marching in…!" (Exercícios Espirituais n. 139). Arrupe não necessita entrar na fila da bilheteria da administração de milagres e beatificações. Para entrar nessa procissão, já tinha feito a reserva, com nota de punho e letra de Jesus em japonês: Irasshai! Bem-vindo!

Bem-vindo por colocar-se do lado dos empobrecidos e injustiçados, viver a compaixão em um mundo sem misericórdia, animar Sobrino baixando crucificados de suas cruzes, construir a paz e passar por apuros por promover a libertação e a justiça. Bem-vindo, Pedro, por viver andando com as redes do Reino, para pescar mulheres e homens para a Vida...

Os noviços que fizeram o mês de Exercícios em Hiroshima, em 1942, dirigidos por Arrupe, recordam as raízes de seu estilo de formação na meditação inaciana do Reino: "Com Jesus, para seu Projeto e por seu Caminho, que nos meterá em confusão por construir a paz e sofrer pela justiça".

Disseram a Arrupe que era utópico optar pelas utopias. Mas a sua era a utopia do Reino, que não sai da moda. Hoje, cinco de fevereiro, completam-se 20 anos de sua Extinção (como diriam os budistas), 20 anos desde que a sua vida biológica parou para retornar à Fonte da Vida. Havia passado 10 anos de testemunho no silêncio da última doença, depois de ser defenestrado por aqueles que haviam esquecido uma palavra chave do evangelho segundo Marcos: "Vocês sabem: aqueles que se dizem governadores das nações têm poder sobre elas, e os seus dirigentes têm autoridade sobre elas. Mas entre vocês não deverá ser assim" (Mc 10, 42-43).

Há alguns dias, eu comentava, na reunião inter-religiosa do Instituto da Paz, do Japão, o papel de João XXIII na Igreja e de Pedro Arrupe na Companhia. Aos meus colegas budistas, que admiram o giro do Vaticano II na Igreja católica e se colocam no interior de suas respectivas correntes e confessionalidades o problema da reforma e da tradição, lhes interessou a apresentação das propostas de Arrupe nos anos 1970 sobre libertação, inculturação e inter-religiosidade, quando ainda não era habitual nem sequer o uso destas palavras. Mas me perguntavam se é certo que a Igreja católica sofre hoje uma crise de "involução e marcha para trás". Não quis fazer apologética e preferi reconhecer que a questão existe. Mas, aproveitando o 20º aniversário de Arrupe, manifestei que sua vida, pensamento e espiritualidade me animam e me servem de antídoto contra as patologias que a minha própria Igreja sofre hoje, por causa de síndromes de desilusão e desencanto.

Desilusão por parte daqueles que se empenham em renegar a reforma de João XXIII e do Vaticano II, por sentir saudades de um passado de igreja prepotente. Desencanto por parte daqueles que viveram o empenho por essa reforma e hoje sofrem sua crucifixão por obra e graça da restauração que detém o poder nas alturas de Cúrias romanas e diocesanas.

O estilo de Arrupe seria um bom tônico para desintoxicar a desilusão ou o desalento, tanto daqueles que vivem pendentes de restaurar um passado como daqueles que sentem desgastarem-se suas energias no pugilato contra a restauração.

O estilo de Arrupe, de inspiração evangélica, não era nem "contra", nem "anti", nem "des", nem "re". Nem reação, nem restauração, nem desilusão, nem desencanto, nem escudo antimísseis, nem contra-ataque. Foi um pensamento e liderança "pro-vocadores", suscitadores de criatividade e futuridade. Uma espiritualidade da Promessa, que infunde esperança.

O otimismo cheio de esperanças de Arrupe não era ingênuo. Era "perpassado pela cruz". Mas não a cruz exaltada por aquelas espiritualidades doloristas que se detêm morbidamente em se auto-atormentar com a desculpa do "servo de Javé" ou da "expiação".

Não, mas "outra teologia de outra cruz". A teologia da ressurreição que diz: "Não fiques me olhando na cruz e chorando; sobe aqui ao meu lado, olha como se vê o mundo da altura de uma cruz que é ressurreição, e desce para a tarefa de descrucificar crucificados." Esta é a teologia que nos proclamam desde o cortejo dos santos, os Romero, Ellacuría, as Teresa Kim e Teresa de Calcutá, Joana Inês, Arrupe e... centenas e centenas de outros.

 

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