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01 Abril 2011

A incisiva intervenção de Fabrice Hadjadj contra a ideologia eugenésica dos fundadores da UNESCO. É um pecado que se saiba muito pouco de quanto se disse no Átrio dos Gentios. Grande iniciativa, mas mal divulgada.

A reportagem é de Sandro Magister e está publicada no sítio Chiesa, 01-04-2011. A tradução é do Cepat.

O Átrio dos Gentios, que foi realizado há alguns dias em Paris, evidenciou um clamoroso déficit no plano da comunicação.

Nenhuma coletiva de imprensa. Nenhum texto colocado à disposição da imprensa, nem antes, nem durante, nem depois. Somente os presentes puderam ouvir ao vivo as palavras dos expositores, ou aqueles que sintonizaram a Rádio Notre-Dame ou a KTO TV, as únicas emissoras católicas que transmitiram diretamente os trabalhos.

Inclusive a vídeo-mensagem de Bento XVI, na tarde de 25 de março, foi mal publicizada. O texto esteve pronto vários dias antes, mas a oficina de imprensa vaticana o distribuiu, em cinco idiomas, apenas na manhã seguinte.

Se alguém entrar no sítio da internet do Vaticano – em outros sentidos riquíssimo – e for vai ao Pontifício Conselho da Cultura, que promoveu e organizou o evento, no Átrio dos Gentios não encontrará absolutamente nada.

E nem sequer no www.parvisdesgentils.fr – o sítio criado para esta ocasião – se encontra uma única linha sobre as coisas ditas. Há apenas um esquálido programa e poucos detalhes sobre os expositores.

Para um Átrio nascido para promover o diálogo sobre Deus entre todos os homens de boa vontade, para além de todos os limites, este comedimento comunicativo é uma evidente contradição.

O Pontifício Conselho da Cultura e seu presidente, o cardeal Gianfranco Ravasi, agiram de modo eficaz na fase preparatória do evento, para divulgá-lo.

Mas se ausentaram quando se passou do anúncio à sua realização.

*  * *

Mas, apesar de tudo, desde os primeiros compassos, em Paris foram ditas palavras que ninguém podia prever.

Basta ver o que aconteceu na sessão de abertura, no dia 24 de março, na sede da UNESCO, o braço cultural da Organização das Nações Unidas.

Com uma tribuna e uma plateia lotada de altos funcionários e de diplomatas, era de se esperar uma sessão retórica e sonolenta.

Mas, não foi isso que aconteceu. Por exemplo, Pavel Fischer, ex-embaixador da República Tcheca na França, tocou as mentes e corações dos presentes ao evocar sua experiência pessoal de crente abafada pela maquinaria do ateísmo científico, nos anos do império comunista.

Sabe-se que a República Tcheca é uma das regiões da Europa onde o ateísmo é hoje um fenômeno de massas. Foi ali que Bento XVI esteve em 2008 e onde amadureceu a ideia de dar vida a um Átrio dos Gentios. É em Braga que o Átrio irá realizar um de seus futuros encontros.

Mas a intervenção mais explosiva foi do filósofo francês Fabrice Hadjadj, de família judaica, com um passado de ultra-esquerda e agora convertido à fé católica.

Hadjadj criticou profundamente a ideologia da UNESCO e de seus fundadores, justamente na sede da organização e na presença de seus dirigentes.

E a criticou precisamente na sua visão de homem, em relação à alternativa entre a abertura do homem ao Céu – o "transumanizar" do Paraíso de Dante – e o "transumanismo" do primeiro diretor-geral da UNESCO, Julian Huxlei, a redução do homem a objeto técnico, passível de ser melhorado com a eugenia.

A íntegra do texto, em francês, da intervenção de Fabrice Hadjadj no Átrio dos Gentios está nesta página de Chiesa.

E, na sequência, extratos da sua reflexão.

Breve reflexão sobre o "transumano", por Fabrice Hadjadj

[...] Nós podemos retomar uma palavra inventada por Dante e dizer que o homem é feito para "transumanizar" [ultrapassar o humano]. Mas como "transumanizar"? E o que entender por "transumanismo"? Esta palavra deve ressoar de forma especial entre estas paredes, porque o substantivo, "transumanismo", foi cunhado em 1957 pelo biólogo Julian Huxley, que foi o primeiro diretor-geral da UNESCO. O que é interessante é que este primeiro diretor-geral da UNESCO não entendia o "transumanismo" à maneira de Dante. Seu pensamento vai radicalmente contra o do autor de A Divina Comédia, mas tem a vantagem de nos manifestar a única alternativa que se coloca hoje no mundo moderno.

Irmão de Aldous Huxley, o autor de Admirável Mundo Novo, poderíamos esperar que Julian Huxley tivesse sido vacinado contra toda tentação eugenésica. Mas, a realidade é totalmente outra. Não é que Julian Huxley fosse incoerente, não, ele era de uma extrema coerência. Em 1941, no momento em que os nazistas matavam os doentes mentais nas câmaras de gás, Julian Huxley escrevia com certa audácia: "Uma vez que estejam plenamente asseguradas as consequências que implica a biologia evolucionista, a eugenia se converterá inevitavelmente em uma parte integrante da religião do futuro, ou do conjunto de sentimentos, qualquer que seja, que poderá, no futuro, tomar o lugar da religião organizada". Estas afirmações foram escritas em 1941, mas foi apenas em 1947 que elas foram publicadas em francês, quando já era diretor-geral da UNESCO. Nessa época não se mudou sequer uma linha. É certo que Huxley era antinazista, socialdemocrata e sobretudo antirracista (o que de todos os modos não o impediu de escrever no texto já citado: "Considero como absolutamente provável que os negros autênticos têm uma inteligência em média ligeiramente inferior à dos brancos ou à dos de raça amarela"), mas Huxley pretendia substituir as religiões tradicionais pela religião das biotecnologias.

Certamente, não se trata aqui de fazer um julgamento de Julian Huxley. Quero apenas evidenciar uma ideologia tão difundida que não perdoou este lugar e que também teve como ilustre representante o seu primeiro diretor-geral. Se, em 1957, este primeiro diretor-geral da UNESCO inventa o substantivo "transumanismo", o faz para não falar mais de "eugenia", palavra difícil de utilizar depois da eugenia nazista. No entanto, visa-se a mesma coisa: a redenção do homem através da técnica. Cito o texto de 1957 que cria o termo e no qual explicita este "novo princípio": "A qualidade das pessoas, e não somente a quantidade, é o que devemos visar: por conseguinte, necessita-se de uma política concertada para impedir que a onda crescente da população naufrague todas as nossas esperanças de um mundo melhor". O Mundo Melhor de Julian não está tão longe do Mundo Novo de Aldous. Trata-se de melhorar a "qualidade" dos indivíduos, assim como se melhora a "qualidade" dos produtos, e, portanto, provavelmente, de eliminar ou impedir o nascimento de tudo o que possa aparecer como anormal ou deficiente.

Entendam que é a própria definição de homem que está em jogo em nosso encontro. E, consequentemente, o futuro mesmo do homem. O homem busca um além. Ele é por essência transumano. Mas como se realiza o "trans" do transumano? Pela cultura e a abertura ao transcendente? Ou pela técnica e a manipulação genética? [...] Certamente, a UNESCO é uma organização mundial dedicada à proteção e ao desenvolvimento das culturas. Mas também, como toda organização atual, é devorada pela lógica tecnocrática, ou seja, pelo desejo de resolver os problemas em vez de reconhecer o mistério. Prova disso é a ambiguidade da qual dá testemunho o seu primeiro diretor-geral.

Pois bem, aqui está a minha simples pergunta: devemos tomar por diretor o Julian Huxley ou devemos tomar Dante? A grandeza do homem está na facilidade técnica de viver? Ou antes, está nesta laceração, nesta abertura como um grito para o Céu, neste apelo ao que realmente nos transcende? [...]

Esta é a oportunidade do Átrio dos Gentios: tomar nota desta nova situação. Não se trata apenas de um "diálogo entre crentes e não crentes". Trata-se de colocar a questão do homem, e de reconhecer que o que constitui a sua especificidade não é ser um super-animal mais poderoso que os outros, mas de ser este receptáculo que acolhe toda criatura com amor, para devolvê-la, com a sua palavra, com a sua oração e com a sua poesia, à sua fonte misteriosa.

 

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