Pagola e os inquisidores

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21 Março 2011

A Congregação para a Doutrina da Fé, ou seja, a atual Inquisição, abriu um processo contra o livro Jesus. Aproximação histórica do teólogo basco José Antonio Pagola, para verificar se está de acordo com a doutrina da Igreja, embora a edição revisada da obra (a 9ª) tenha o Nihil Obstat (Nada a Opor) e o Imprimatur (Imprima-se) do ex-bispo de Donosti, Juan María Uriarte. A iniciativa de Roma se dá três anos após o livro estar nas livrarias e tem sua origem nas pressões do núcleo mais integrista da Conferência Episcopal Espanhola, que publicou uma nota contra os conteúdos do livro. Mesmo que o nome do dicastério tenha mudado, os processos inquisitoriais continuam, porque os envolvidos sequer sabem do que são acusados, não sabem quem são seus censores e não podem preparar sua defesa.

A reportagem está publicada na revista El Ciervo, 21-03-2011. A tradução é do Cepat.

O caso é que o número dois da Congregação vaticana, Luis Francisco Ladaria, era favorável a Pagola. O grupo acusador ignorou Ladaria para que o próprio presidente, o cardeal norte-americano William Joseph Levada, se envolvesse diretamente na questão. Contudo, o livro de Pagola tem importantes defensores. O cardeal Gianfranco Ravasi, um verdadeiro peso pesado do Vaticano, que preside o Pontifício Conselho para a Cultura, acaba de recomendar o livro do teólogo basco na revista italiana Il Sole 24 Hore. Ravasi é um renomado biblista e considera a obra um estudo muito valioso para guiar os leitores não iniciados no conhecimento da história de Jesus. O artigo de Ravasi não caiu nada bem no grupo da hierarquia espanhola que persegue Pagola, em especial o bispo de Córdoba, Demetrio Fernández, que iniciou a cruzada contra o livro, e o próprio porta-voz da Conferência, o jesuíta Martinez Camino. De fato, uma iniciativa de diálogo com os não crentes (conhecida como Átrio dos Gentios), que teria Ravasi como protagonista em Madri, por ocasião de uma publicação religiosa, foi suspensa por instâncias eclesiais de alto nível.

A perseguição ao livro de Pagola se deu em um momento da Igreja espanhola de acosso sem precedentes ao pluralismo teológico. Pagola respondeu em bloco aos seus perseguidores em uma reflexão de 50 páginas intitulada "A verdade nos libertará’, na qual defende seu trabalho e desmonta as acusações. Monsenhor Uriarte adotou uma postura corajosa e se envolveu pessoalmente no embate entre Pagola e os fundamentalistas. Por solicitação de Uriarte, o teólogo concordou em realizar uma releitura de seu trabalho, esclarecendo a natureza do livro e introduzindo modificações para dissipar interpretações incorretas. Uriarte concedeu a permissão para a impressão. Os inimigos de Pagola levantaram o grito ao céu, enviaram o livro a Roma e, após fortes pressões, conseguiram que a Editora PPC ordenasse a retirada dessa edição, abençoada por Uriarte, de todas as livrarias.

O livro Jesus. Aproximação histórica [Vozes, 2010] foi traduzido para sete idiomas. Foi um grande sucesso de vendas, um best seller singular para uma obra com estas características. Foram feitas nove edições, está sendo pirateado pela internet e um missionário basco o traduziu para o japonês. A popularidade alcançada motivou o zelo censor do integrismo. O jesuíta González Faus escreve a este respeito que "muitas autoridades eclesiásticas inquisidoras ficam tão incomodadas com a palavra "Jesus" que ordenaram para que nos catecismos e livros de texto, não se diga Jesus, mas Cristo. Talvez por isto estamos hoje assistindo a cruéis perseguições que se justificam pelo fato de que alguns (pensemos em Jon Sobrino ou José Antonio Pagola) negam a divindade de Jesus. Não é que a neguem. É que através de Jesus se dá a Deus um rosto que não é aquele que os inquisidores quiseram. Porque os põe em evidência. Eu mesmo, no meu livro El Dios presente. Confesiones de un viejo cristiano (Kairós, 2010) reconheço a dívida contraída com o Jesus histórico, assim como descrito por Pagola. É um modelo de erudição, de rigor teológico e de profundidade espiritual. Creio que foi a primeira vez que, sem sentimentalismo algum, o relato da paixão e morte de Jesus me emocionou até às lágrimas. Isso é para mim um sinal de que a própria humanidade do Cristo é o melhor argumento de sua divindade. Se a teologia clássica colocava a ênfase na divindade de Jesus, a nova cristologia destaca a divindade em Jesus. Não endeusa o humilde galileu: o entusiasma. Como disse outra vítima da Inquisição, o teólogo franciscano Leonardo Boff: "Só Deus pode ser tão humano".

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